sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O painel necrológico da Praça do Giraldo

Em Évora, ao contrário do que acontece no resto do país, a morte não é um acontecimento tabu que envolve apenas uns quantos elementos da família e amigos íntimos de quem parte desta para melhor. Em Évora, a morte é denunciada na praça pública, através de um ‘placard’ existente na Praça do Giraldo, o qual dá notoriedade mesmo àqueles que nunca a tiveram em vida. Ali todos são lembrados, para que ninguém possa dizer que daquele passadio não teve notícia. Um perfil, que foi vagamente familiar, adquire a dimensão que lhe é atribuída pela divulgação dos dados biográficos inscritos neste obituário público. Não se privam os eborenses de tecer comentários sobre a personalidade do desaparecido e das causas que o vitimaram. Uns merecem exclamações de condoída simpatia, enquanto outros mais não recebem do que uma apressada e indiferente leitura.

O ‘placard’ não nasceu, porém, com esse fim e tem uma história que muitos dos actuais eborenses desconhecem por completo. Foi ali colocado pelo extinto jornal “O Século” no ano de 1937, no âmbito de uma acção de distribuição de painéis idênticos pelas principais cidades e vilas do país, com o objectivo de apresentar diariamente, por antecipação, sínteses das notícias mais importantes que sairiam na edição do dia seguinte. Pretendia com isto a administração do matutino lisboeta interessar os leitores na aquisição do diário. Assim sendo, os correspondentes nas respectivas terras recebiam, ao final da tarde, um telegrama com o resumo das notícias de maior relevo e afixavam-no no “placard”. A ideia vingou e, como era desejado, as vendas aumentaram sobremaneira na chamada província. Em Évora, há ainda quem se recorde que, pela hora da saída dos empregos, muita gente se aglomerava junto do jornal de parede de “O Século” para saber as últimas novas sobre a Guerra Civil de Espanha. Foi, aliás, pelo mesmo meio que a cidade soube do começo e do termo da Segunda Guerra Mundial.

Mas nem só de guerras tratava o ‘placard’. Os grandes acontecimentos desportivos e os resultados da extracção da Lotaria Nacional eram outros dos assuntos de leitura obrigatória. Mesmo assim, faltava-lhes ali a informação veiculada pela imprensa local: a necrologia. Tanta foi a pressão exercida nesse sentido pela população que, a partir dos anos 40, aos fins-de-semana lá começaram a aparecer, em forma de complemento noticioso, os nomes dos conterrâneos desaparecidos. Uma conquista que acabaria por institucionalizar uma iniciativa, em princípio de carácter efémero. Apesar de toda a eficácia da censura do regime salazarista, «os jornais de parede» foram muitas vezes, pólos de subversão. Como as sínteses informativas eram redigidas e enviadas para os correspondentes antes da ida das provas dos jornais ao ‘lápis azul’ dos coronéis, a província tinha conhecimento de notícias de que os grandes centros ficavam privados. 


A distracção dos coronéis não foi tão longa quanto muitos desejavam. A seguir ao final da Segunda Guerra Mundial, os serviços de censura proibiram a afixação das sinopses prévias das edições. Desta medida resultou a desactivação deste tipo de painéis em todo o país, à excepção de Évora. As notícias de necrologia, agora diariamente incluídas no jornal de parede, foram o argumento utilizado para convencer as autoridades censórias da necessidade de preservar o painel na Praça. Uma vitória que comportava alguns riscos para o correspondente (Aníbal Queiroga), o qual ficava com a responsabilidade de, além da necrologia, apenas fornecer informações desportivas e o calendário das festas e romarias do concelho. À menor infracção a estas regras o ‘placard’ seria extinto e ao correspondente levantado um processo disciplinar e outro de natureza criminal. A manutenção do painel não foi pacífica nas duas décadas seguintes. Acontecia que tanto o Queiroga pai como depois o filho, além de correspondentes de “ O Século” eram proprietários da «Democracia do Sul», um jornal regional republicano de oposição ao regime. 


Os elementos situacionistas locais não descuravam a vigilância sobre as actividades dos dois homens. Diziam, à boca cheia, que ambos aproveitavam qualquer oportunidade para desrespeitar o sistema político vigente, o que se tornava notório na forma como tratavam os dados necrológicos relativos aos que tinham militado na oposição, ou apenas apoiado essas forças, os quais eram habitualmente acompanhados de menções elogiosas, ao passo que os falecidos afectos ao regime eram referidos de forma breve e seca. Até que, em 1967, já falecido o pai cinco anos antes, Aníbal Queiroga Pires foi preso pela PIDE. Sobre ele pesava (além da suspeita de ter auxiliado alguns dos assaltantes da agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz) a acusação de cumplicidade na deserção de um alferes miliciano que fugiria para Argel com armas roubadas no Quartel General da Região Militar do Sul: o então alferes miliciano Seruca Salgado, então apenas com 21 anos, depois membro fundador do Partido Socialista e jornalista da RTP. No seguimento da prisão veio o despedimento. O correspondente Queiroga recebia uma carta em que a direcção de “O Século”, «por razões conhecidas», lhe dispensava a colaboração.


 “O Século” escolheu então Josué Baptista, até então correspondente do diário católico “A Voz” e do “Diário da Manhã”, órgão oficioso do regime, para substituir Aníbal Queiroga. Ainda que sem querer subverter as normas impostas pelas autoridades censórias, o novo correspondente tenta recuperar parte da função informativa do jornal de parede. Contudo, encontra pela frente outro tipo de opositores: a imprensa local. Josué Baptista é então acusado de lhes fazer concorrência. E, nessas circunstâncias optou por desistir dos seus intentos. Só que a partir desse momento o noticiário necrológico, que sempre fora um serviço gratuito, passava a custar 100 escudos, montante de que o correspondente retirava 16 escudos, percentagem a que passou a ter direito. Ninguém porém recalcitrou.


 Depois de Abril de 1974 Josué Baptista deixou de ser correspondente de “O Século, mas a pedido da administração ficou ligado à exploração do jornal de parede. Como ele gostava de recordar, pouco antes da Revolução, um inspector do jornal passara por Évora e ficou estupefacto por ainda existir o ‘placard’. Na capital, as inevitáveis convulsões provocadas pelo PREC (Processo Revolucionário em Curso) abalavam as estruturas do velho e respeitado matutino. Em 1977, “O Século” deixava definitivamente de aparecer nas bancas dos jornais. Nem tudo desaparecia com ele. Em Évora, o painel da necrologia continuava a cumprir a sua missão na vetusta Praça do Giraldo. E assim continuou até que, em 1982, a Comissão Liquidatária de “O Século”, «consciente de que o painel se tornara uma instituição da cidade, visto a sua consulta, em termos de informação necrológica, se ter enraizado na cidade, decidiu oferecê-lo à Câmara.”.


 De facto, a leitura do ‘placard dos mortos’ faz parte dos rituais dos eborenses, o que causa espanto a muitos forasteiros. Para os leitores não parece ter importância que as notícias dos óbitos sejam agora veiculadas pelas agências funerárias a quem o município atribuiu a sua utilização e conservação. É que eles gostam de saber quem deixou de pertencer ao número dos vivos. Apesar do progresso, do desenvolvimento da rádio e do aparecimento da televisão e de múltiplos órgãos da imprensa escrita, nada substituiu em Évora a informação personalizada do painel de “O Século”. Aníbal Queiroga Pires, falecido em 2001, afirmava sem rebuço que foi a pressão popular que sempre impediu a sua extinção.

Autor: José Frota
Évora Mosaico

1 comentário:

Jose Frota disse...

Caro Pelosiro o texto sobre o Painel Necrológico é meu e foi primeiro publicado em Novembro de 1992 no semanário EXPRESSO onde estive de 1988 até ao final de 2008. Com ligeiras adaptações a republicá-lo na Revista Municipal "Evora Municipal".Boas Festas para si.

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