quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A Sociedade Harmonia Eborense



A Sociedade Harmonia Eborense (SHE) é  uma das mais antigas colectividades de cultura e recreio da cidade e do Alentejo. Fundada a 23 de Abril de 1849, à entrada da Regeneração, o movimento político que instaurou uma nova ordem social no país e novas formas de sociabilidade no modo de relacionamento das pessoas que romperam com o isolamento e a claustrofobia do passado, a Harmonia foi um ponto de convívio da média burguesia culta até ao final da Primeira República.



Teve a sua primeira sede na Travessa das Casas Pintadas, onde pouco tempo permaneceu, transferiu-se depois para a Rua Ancha (actual Rua João de Deus), até se fixar em 1902 na Praça do Giraldo.

O facto da Sociedade se chamar Harmonia indiciava desde logo o propósito de acolher no seu seio todos os
eborenses, sem distinção de credo político, que cultivassem os mesmos gostos e anseios, patenteados aliás no emblema da colectividade, no qual figura uma coluna grega, simbolizando as letras e as artes, e um tabuleiro para diversos jogos, nele ganhando destaque uma escaquística cabeça de cavalo, acompanhada de três bolas e um taco de bilhar, tudo elementos alusivos à feição lúdica que igualmente comportava. 

Daí que nos tempos primordiais a leitura dos jornais, tanto nacionais como estrangeiros - nomeadamente espanhóis e franceses - o cavaqueio político sobre o destino do país, os jogos do bilhar, das damas, do xadrez e do gamão tivessem constituído o entretenimento preferido dos cavalheiros que lhe deram vida e dos seus sequentes frequentadores. Uma secção de música e outra de teatro amador foram as primeiras actividades a ganhar expressão própria dentro da Sociedade e proporcionaram a intromissão feminina, ainda que controlada, num espaço que até aí fora reservado apenas aos homens. 

Foi a moda das “soirées” dançantes que abriu as portas da Harmonia às mulheres, assim como à participação de algumas nos ensaios das peças que o grupo apresentava amiúde e com algum êxito nos teatros da cidade. Entretanto, para o final do século, mais propriamente em 1897, a SHE criava o Grupo Ciclista, para enquadrar os sócios que se tinham apaixonado pela recém-aparecida bicicleta e organizar passeios de recreação nas imediações da cidade.

Passados dois anos festejou a agremiação, com pompa e circunstância, o meio século de existência.
Houve bodo aos pobres, organizaram-se jogos florais, organizou- se um sarau musical com um concerto e execução inicial do hino e foi cunhada uma medalha comemorativa, que numa das faces apresentava em miniatura os retratos dos cinco membros da direcção: João Filipe Pereira Pinho, José Celestino Rebolado Formosinho, António Jacinto de Brito, Francisco José Alves da Silva e Joaquim Severiano Caeiro Ramalho. Durante três dias a sede da Rua Ancha esteve profusamente iluminada a gaz.

Mas o maior anseio dos seus sócios, que era a mudança de casa, só veio a concretizar-se em 1902, na data do 53º. aniversário. A Sociedade conseguiu arrendar o primeiro andar, considerado o andar nobre, do edifício da Praça do Giraldo com o nº. 72, pertença do abastado lavrador Miguel de Mattos Fernandes. No andar superior estavam instalados a Sociedade de Amadores Dramáticos e o Velo Clube Eborense. Situada agora num local mais central e dotada de divisões mais amplas, a Harmonia dispunha de todas as condições para alargar as suas actividades. 

Segundo escreveu o repórter do jornal “O Manuelinho d’ Évora”, presente na inauguração do novo espaço, «na sua nova casa tem a Sociedade Harmonia Eborense duas salas para jogos de cartas, uma para conversação e visitas, e ainda outra, a maior de todas, para “soirées, concertos, etc.. Tem mais um gabinete de leitura, outro para a direcção e dois para o serviço de botequim e restaurant, assim como copa, cozinha e outras dependências, algumas magníficas. Possui também vários terraços, sendo um deles bastante grande; de todos eles se disfrutam (sic) magníficos pontos de vista». 

Os festejos redobraram de brilho, culminando com um excelente concerto sob a regência do conceituado maestro Rio de Carvalho, realizado no novo Salão de Festas, após o que seguiu uma lauta ceia para os associados que se inscreveram. Para a posteridade ficou registada a composição da direcção desse ano, constituída pelo presidente Januário Augusto de Mira (vereador municipal), pelo secretário Augusto Cândido de Madureira e pelo tesoureiro Álvaro de Morais, sendo fiscal Joaquim Severiano Ramalho Monteiro e vogal Manuel Joaquim Santos. 

A esta fase de grande saliência na vida da agremiação sucedeu, dois meses depois, o falecimento do seu grande animador, Luís José da Costa, enfermeiro e sangrador no Hospital de Évora. Homem de fino trato, gostava de vestir bem e de acordo com a moda, daí lhe vindo a alcunha de Janota. Era grande frequentador das salas de teatro do burgo e fez-se actor amador, apreciando os dramaturgos franceses. Leitor inveterado de folhetins, ganhou gosto pela escrita e pela crónica social, exercida em quase todos os periódicos do tempo. A sua presença era constantemente requestada, tanto nos salões de festas e saraus das colectividades como nas grandes reuniões da aristocracia local. 

Mas era na Harmonia que melhor se sentia e onde o seu espírito criativo melhor se desenvolvia. Com o seu desaparecimento a era fulgurante que a SHE tinha vivido no campo teatral e musical desapareceu rapidamente. As direcções seguintes apostaram noutras manifestações artísticas para a cultura dos seus associados, promovendo exposições de pintura, desenho e até de doçaria regional. Todas as outras actividades se mantiveram também. 

Os anos posteriores à implantação da República levaram  a SHE a tornar-se em local de reunião de gente mais afecta ao Partido Evolucionista, que desapareceu por volta de 1920. Proclamado o Estado Novo, a grandemaioria dos associados e frequentadores passou a ser constituída por homens do chamado “Reviralho”, ou seja, da oposição republicana, democrática, de cunho socialista ou até mesmo liberal, sem contactos com o PCP. Ali se reuniam para discutir a situação política ou ouvir a BBC nos tempos da II Guerra Mundial. 

Neste interim a SHE abria em 1930, na sua sede, a primeira cabina telefónica pública da cidade. Só em 1949 a Sociedade voltou a conhecer alguns dias de agitação, quando da comemoração do seu Centenário.  

O presidente da Câmara, Henrique Chaves, aceitou presidir à sessão solene comemorativa na qual usaram igualmente da palavra o advogado Alberto Jordão Marques da Costa, presidente da Assembleia Geral da SHE, e o capitão Cândido Salgado, presidente da Direcção. 

Na altura foram contemplados com medalhas de ouro, por contarem com mais de 50 anos de associados, Eduardo Vidal Ribeiro e António dos Santos Cartaxo, e de prata, por terem ultrapassados os 40 anos de filiação, José Gomes Severino, Atanásio Duarte Frota, Joaquim da Silva Nazareth e José Dordio Rebocho Pais, todos antigos dirigentes e ligados à oposição republicana. Com a actividade cultural controlada pelo Estado Novo através da Federação Portuguesa das Colectividades de Cultura e Recreio, a SHE ficou remetida à vertente recreativa, limitando-se à organização de bailes, quermesses e os inevitáveis jogos de cartas e de bilhar. 

A partir de 1974 o declínio acentuou-se, dado que os seus directores, se não se enfeudaram à nova concepção reinante, também não mostraram, por outro lado, capacidade para imprimir uma outra dinâmica que atraísse a juventude. 

A consequência foi o total aviltamento dos estatutos da Sociedade. O velho prédio da Praça do Giraldo transformou-se num reles casino clandestino onde se desenvolvia uma economia paralela e ilegal. O fim esteve por um fio. Na última década, porém, um grupo de jovens apareceu com novas propostas e alçou-se à condução dos seus destinos, revitalizando-lhe a existência e recuperando-a como espaço de convívio. Sob a gestão de Manuel Piçarra, primeiro, e depois de Alexandre Varela, tudo se transfigurou num ápice. Convivendo com as mesas de jogo e do bar passaram a realizar-se agora exposições, concertos, peças de teatro, leituras, debates e mostras.Uma visita da ASAE obrigou a uma redução das actividades.

Texto: José Frota

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