sexta-feira, 22 de julho de 2011

A organização republicana em Évora

A organização republicana em Évora só começou a ganhar verdadeira dimensão a partir da criação do jornal “A Voz Pública”. No periódico fundado em 1904 como semanário independente pelos tipógrafos Domingos Silva e Luís Silva, passaram os republicanos e algumas associações de classe a ter uma tribuna para divulgarem os seus anseios, propostas, queixas e reivindicações. Desta disponibilidade permanente usufruíam particularmente a Associação de Classe da Construção Civil e Artes Auxiliares, que no ano seguinte incorporou uma secção corticeira composta por três elementos, com sede na Rua de Mestre Lourenço, e a Associação de Classe dos Empregados do Comércio, com representação na Rua da Porta Nova. Os republicanos não se contentavam porém com o carácter moderado que “A Voz Pública”, enquanto publicação independente, não desejava ultrapassar. O seu principal proprietário, Domingos Silva, recusava a hipótese de uma intervenção mais directa e acutilante por recear a intervenção das autoridades e aquele ser o seu modo de vida. Por outro lado, o médico Evaristo Cutileiro, o seu principal animador e responsável político, começou a sentir os primeiros achaques da doença que o viria a vitimar anos depois e teve de abrandar o seu ritmo de vida, afastandose temporariamente do jornal. Este, ainda tirou mais uma quinzena de números mas suspendeu mesmo a publicação ao nº. 95 de 21 de Maio de 1905, aguardando um melhor momento para o seu reaparecimento. Domingos Silva continuou a trabalhar na tipografia que era sua.

Com Evaristo Cutileiro em tratamento em Lisboa mas sempre atento ao que se passava em Évora, os seus correlegionários Romão Carvalho Marquez, José de Paula Costa, Francisco Maria Nunes, António dos Santos Cartaxo Júnior e Francisco d’ Almeida Telles do Valle, encontram-se na casa deste último e fundam, a 25 de Novembro de 1906, o Centro Republicano Eborense. Do facto informam o Directório do Partido, Evaristo Cutileiro e o Centro Republicano Democrático Liberdade, fundado na cidade pouco dias antes, e já organizado mas ainda não domiciliado, oferecendo-lhe «incondicional apoio e cooperação» Em resposta o Centro Democrático Liberdade convida os fundadores do Centro Eborense a reunirem em assembleia geral do Partido nesta cidade, «a fim de se proceder quanto antes às eleições das juntas de paróquia, e da comissão municipal republicana deste concelho».

A proposta é recebida com entusiasmo e, no decorrer dessa assembleia, o pequeno grupo de fundadores do Centro Republicano Eborense, com o objectivo de facilitar a unidade republicana, dissolvem-no e integram-se no Centro Republicano Democrático Liberdade, que por sua vez adopta oficialmente o dia 25 de Novembro de 1906 como data da fundação. Em consequência é nomeada uma comissão instaladora da qual ficam a fazer parte Romão Carvalho Marquez (industrial corticeiro) na qualidade de presidente, António dos Santos Cartaxo Júnior (escriturário), José Bento Rosado (solicitador), Armando Álvaro de Azevedo (escriturário), Francisco Nunes (comerciante) e Edmundo de Oliveira (tipógrafo). António Farracha, calceteiro e presidente da Associação deClasse da Construção Civil e Artes Auxiliares, estava entre os membros suplentes. Rapidamente é encontrado um local para a sede que fica instalada em ampla casa pertencente a Evaristo Cutileiro, na rua da Freiria de Baixo, 18. À frequência da população que o desejasse foram abertas aulas de instrução primária e de ginástica sueca.

Era o sinal do definitivo enraizamento do Partido Republicano em Évora. Mas possuir um jornal era fundamental para a doutrinação e divulgação do ideário republicano. É assim que dois meses mais tarde, em Janeiro de 1907, Evaristo Cutileiro, experimentando melhoras no seu estado de saúde que lhe permitem deslocar-se, uma vez por semana, entra em negociações com Domingos da Silva, adquire-lhe a propriedade de “A Voz Pública” e respectivo material e acrescenta-lhe o subtítulo de Semanário Republicano. Pouco depois muda-lhe a localização da Rua João de Deus para a Rua da Freiria de Baixo, 18, sede do Centro Republicano Democrático Liberdade. Dispondo de um centro político onde reunir os seus membros e de um jornal para propaganda da sua actividade, o Partido Republicano local vai aproveitar o resto do ano de 1907 para consolidar as suas estruturas internas.

 Em Maio será eleita a primeira Comissão Municipal Republicana, presidida por Evaristo Cutileiro e composta ainda por Romão Carvalho Marquês (industrial), António dos Santos Cartaxo Júnior (escriturário), Jaime Silva e Francisco d’ Almeida Telles do Valle. No final de Novembro o Centro Democrático Republicano Liberdade festeja com pompa o seu primeiro aniversário, dando a comissão instaladora por finalizada a sua tarefa. São eleitos os seus primeiros corpos sociais que ficam constituídos desta forma: À Assembleia geral preside Evaristo Cutileiro, tendo como 1º. e 2º. Secretários respectivamente Francisco Maria Nunes e José de Mira Neto (brochante); na Direcção fica ao leme Luís Cândido da Veiga e Silva, sendo Higino Hermenegildo Barrão (corticeiro), o secretário, António dos Santos Cartaxo Júnior, o tesoureiro, e Matias José Livreiro e Romão Marquez os vogais; finalmente, no Conselho Fiscal, Isidro Pires Candeias (proprietário e comerciante) é a principal figura, tendo como secretário, Manuel Alves Leal (merceeiro) e relator Armando Álvaro de Azevedo (escrivão judicial).

Ainda nesse ano são eleitas as Comissões Paroquiais citadinas, ficando Francisco Maria Nunes a presidir na Sé; José de Mira Duro em Santo Antão; António Rodrigues Marques (comerciante) em S.Pedro; e António Farracha em S. Mamede. Entre os nomes que os acompanharam nessas funções estiveram José Fernandes Baptista, Luís Silva, António Pereira, António Fernandes Marques Ferro (farmacêutico e na altura presidente da Associação Comercial de Évora), Luís Sebastião de Sousa, Telmo da Conceição Boleto, António Marques Leitão, Joaquim Simões (relojoeiro e ourives), José Filipe d’Oliveira, Vicente José Dias Pascoal (proprietário e comerciante), Francisco Gomes Calado, António José Gonçalves e Severiano Augusto de Mira.

No ano seguinte o Partido Republicano consegue inaugurar idênticas estruturas nos concelhos rurais de S. Miguel de Machede, chefiada pelo industrial André Camps Perdigão, e de S. Manços, esta presidida por Jacinto António Correia. O robustecimento das estruturas partidárias leva a que os republicanos, com Evaristo Cutileiro à cabeça e acompanhado pelo professor Agostinho Fortes, pelo lente da Universidade de Coimbra Ângelo da Fonseca e pelo médico Afonso de Lemos consigam ganhar, a 11 de Abril de 1908, as eleições para deputados no concelho que não no distrito, um resultado que deixava antever uma vitória nas eleições que viriam a realizar-se a 5 de Setembro, mas tal previsão não se consumou. Evaristo Cutileiro teve nova crise e não estava em condições de se candidatar.

Com o caciquismo a funcionar em pleno, os monárquicos, concentrados numa só formação, lograram chegar à vitória sobre a candidatura republicana cuja lista integrava, como efectivos, Joaquim Henrique de Morais Sarmento Júnior (médico), António Synarte (escriturário), Romão Marquez, António dos Santos Cartaxo, J.Rebolado Formosinho (escriturário), António Fernandes Ferro, João José d’ Oliveira (operário) e António Rodrigues Marques. Entretanto tinha acontecido o Regicídio (1 de Fevereiro de 1908) atribuído a dois carbonários agindo à revelia da organização. O facto de o rei ter partido de Vila Viçosa e de o comboio em que seguia ter atravessado o distrito de Évora, a par de ligações à cidade dos dois assassinos (Afonso Luís Costa e Manuel Buiça), levantou suspeita de envolvimento de alguns membros locais integrados no seio do movimento republicano eborense.

O grosso dos militantes republicanos eborenses era afecto à Maçonaria (chegaram a existir no distrito 15 oficinas) mas muita gente, nomeadamente da classe operária, tinha ligações à Carbonária. Para adensar a desconfiança a Carbonária local estava sem chefe, pois em Janeiro António Farracha, deixara a cidade e fora para o Brasil, onde seu irmão, que já lá estava, lhe arranjara emprego certo e melhor remunerado, estando por isso os seus membros sem controlo. O certo é que na cidade se falou muito da possibilidade de Afonso Luís Costa, que aqui tinha sido empregado do comércio, e Manuel Buiça, cuja sogra havia sido até há pouco tempo enfermeira no Hospital de Misericórdia, terem recebido apoio directo ou indirecto dos Bons Primos (assim se designavam os seus membros) eborenses.

No Centro Republicano, tal como no Partido, o regicídio foi muito mal recebido dado que não passava pelas suas intenções que o fim da Monarquia fosse obtido pela eliminação física e violenta de membros da família real. Durante algum tempo o ambiente esteve um pouco toldado, sendo os carbonários acusados de falta de coesão e disciplina revolucionária em torno dos objectivo comuns, situação que foi ultrapassada pela nomeação do operário de carpintaria João José d’Oliveira para o comando da facção eborense.

Em 1909 o Centro Republicano recebe inúmeras adesões, o que lhe permite renovar os quadros dirigentes. Francisco Nunes é o novo presidente da Direcção, ascendendo a lugares de relevo António Synarte, Eduardo Baptista Bispo (rumaria depois ao Algarve), Joaquim da Silva Nazareth (livreiro), Francisco Gomes Calado e Rodrigo Bento Roque. Formado no ano anterior, o Grupo Juventude Republicana Eborense, por imperativo do seu crescimento, adquiria sede própria na Rua de Machede, 8. Tudo sempre com o assentimento de Evaristo Cutileiro, cujo estado ia registando oscilações diversas, com periódicos agravamentos e sequentes recuperações, mas nunca esmorecendo no seu ânimo republicano.

Devido no entanto à instabilidade ao seu estado de saúde o médico resolve vender “A Voz Pública” e todo o seu material a José Bento Rosado, membro do Centro Liberdade e seu redactor, que convida para director o abastado proprietário e bacharel Estevão da Cunha Pimentel. O jornal passa então a bi-semanário, marcando ainda uma presença mais assídua nos meios políticos da cidade. Um ano depois, a 9 de Agosto de 1910, passa a ter como redactor principal o médico Dr. Júlio do Patrocínio Martins, candidato pelo Partido Republicano às eleições legislativas de 28 de Agosto de 1910.

Entre um facto e outro adere ao partido Manuel Gomes Fradinho, proprietário e reitor do Liceu, personalidade de grande relevo na cidade. Estas foram umas eleições muito disputadas em todo círculo nas quais o Partido Republicano se teve de contentar com o segundo lugar ficandoà frente duma coligação de direita e só perdendo para o partido governamental. Nos anos de 1906, 1907, 1908 e 1909 também os republicanos concorreram às eleições na Santa Casa Misericórdia de Évora mas não adregaram sucesso, igualmente devido às condições adversas e manipuladas em que concorriam. Nas vésperas da queda da Monarquia, as suas estruturas eram contudo muito apreciáveis e a sua implantação no terreno apresentava-se forte e bem disseminada.

Os republicanos tinham um Centro Democrático, um jornal, uma Comissão Municipal, Comissões Paroquiais, um órgão de juventude e pontificavam nas Associações de Classe, nas representações das sociedades locais e nalgumas das instituições de cultura mais activas e dinâmicas. Possuíam ainda excelentes relações com o núcleo local da Associação Portuguesa do Registo Civil, que pugnava pelo obrigatoriedade do mesmo, e com idêntica estrutura da Associação do Livre Pensamento, liderada em Évora pelo jovem João Camoesas (de fulgurante inteligência, empregado do comércio e estudante liceal nocturno), pelo professor do liceu Benjamim Mesquita, e pelo mestre de obras, autodidacta de excepcional cultura, Gabriel Mendes.


Texto: José Frota

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