sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ermida de São Bartolomeu

Em várias regiões do Alentejo, o dia de São Bartolomeu, 24 de Agosto, era uma relevante data religiosa, festejado, entre outros fins, para assinalar a conclusão das colheitas do trigo. Este ritual esbateu-se, mas em Évora subsiste um importante testemunho da adoração e dos costumes associados a este santo, trata-se da Ermida de São Bartolomeu. Um edifício do século XVII que, apesar de destroçado, tem para contar uma importante parte da história da vida religiosa e militar da cidade.

Segundo os textos bíblicos, Bartolomeu nasce na Galileia e é um dos doze apóstolos de Cristo, designado por “Nathaniel” no Evangelho de S. João, e noutros casos por “Tomé”.

No século II é situado, como pregador, na Índia, no Egipto, na Pérsia, nas margens do Mar Negro e na Arménia, onde terá sido esfolado e decapitado, num dia 24 de Agosto, no porto de Albanopolis, no Mar Cáspio. Os arménios acreditam que ele retirou o diabo do corpo de um filho do rei Polímio, restituindo-lhe a vida, e aprisionando depois o demónio. E o rei, agradecido, converte-se ao cristianismo, mas o seu irmão, e outros sacerdotes pagãos, temendo o poder de São Bartolomeu, procedem ao seu martírio que, ironicamente, faz dele o fundador da Igreja Arménia.






Possivelmente fruto desta lenda, em Portugal a maior parte das imagens e pinturas de São Bartolomeu, originárias do século XVI, apresentam-no ora vestido, ora esfolado com a pele às costas, ou dependurada no braço. A faca, instrumento do seu martírio, é também uma constante, bem como o demónio encadeado ou acorrentado.

E o santo tem fortes conexões com o diabo, melhor dizendo, com a dominação do diabo, tendo-se inclusive popularizado as expressões “andar o diabo à solta” e “o diabo a quatro”, pelo facto de, em muitas povoações, se acreditar que, uma vez por ano, a 24 de Agosto, num acto de clemência, o santo solta o diabo, provocando a desordem.
Em Évora, foi a devoção do Padre Laureano Martins a este santo e apóstolo que, em 1612, o levou a fundar um templo em sua honra na cidade – para muitos crentes este reverendo teria também o dom de expulsar dos corpos o demónio – e assim surge a Ermida de São Bartolomeu.
O local escolhido foi um outeiro, então propriedade municipal, que dista poucos metros, para nordeste, da Porta de Avis, delimitado pelos muros da chamada Cerca Nova, construída no século XIV, e no qual posteriormente, no século XVII, foi construído um dos quatro baluartes que foram agregados ao sistema defensivo constituído por aquelas muralhas.
Também junto à Porta de Avis, vários documentos do período medieval atestam a existência de um hospital, ou hospício, conforme a designação da época, com o nome deste santo, a Albergaria de São Bartolomeu, que se situaria na actual Rua das Fontes.
Mas, o Forte ou Fortim de São Bartolomeu, cuja construção começou aquando da visita de D. João IV a Évora, e cujo baluarte terá recebido pedras do antigo Convento do Carmo - este localizado junto à Porta da Lagoa -, nunca se terá concluído, tendo ficado, o que dele já existia, totalmente destruído durante os confrontos da Guerra da Restauração na cidade, conduzidos pelo príncipe castelhano D. João de Aústria, no Verão de 1663. Estas investidas foram severas e deixaram em ruínas o inacabado baluarte e o edifício da ermida, a qual só depois de 1670 foi alvo de obras de reparação – havendo relatos de que, durante os trabalhos de reboco, a queda de um andaime causou a morte do mestre da empreitada, Manuel Martins.
A Ermida de São Bartolomeu aparece representada numa pintura de 1669, que retracta a vista geral da cidade, do lado norte, da autoria do pintor de câmara do Duque Cosme de Médicis, o italiano Pier Baldi.
A vida religiosa da Ermida de São Bartolomeu terá sido bastante activa.
De 1617 existem descrições da solene procissão que terá acompanhado a trasladação da imagem de São Bartolomeu da Igreja de S. Mamede para esta ermida, transferência autorizada por bula apostólica do Papa Clemente VIII, e também há provas, referentes a esse ano, de ali se sediarem a Confraria de São Bartolomeu e a Confraria de N.ª S.ª da Paz, comprovando-se desta última o seu funcionamento até 1674.
Existem registos de enterramentos, feitos dentro da igreja, do século XVII e registos, também do século XVII e XVIII, das sumptuosas festas, e dos muitos devotos que a elas acorriam, em honra de São Bartolomeu; de N.ª S.ª da Paz, a quem os doentes atribuíam propriedades milagrosas; e de São Marcos, evangelista cujas celebrações tinham a particularidade de ser também presenciadas por touros, trazidos pelos fiéis para dentro da ermida, costume praticado em vários locais do país.

Da ornamentação da Ermida de São Bartolomeu sabe-se que se tratava de uma igreja composta de uma só nave, ampla e com abóbada de meio canhão, cuja capela principal tinha um altar de talha dourada, em que se encaixava o retábulo da pintura do martirológio do santo, existindo nos dois altares colaterais, entre outras, imagens de N.ª S.ª da Paz, São Lucas e São Marcos, destacando-se, por todo o interior, a decoração em cerâmica, de tipo tapete em policromia – o interior da ermida é descrito com pormenor no inventário documental “Foros e Próprios do Concelho de Évora”, de 1651.

No fim do século XIX a ermida desmoronou-se e o recheio sacro perdeu-se e/ou dispersou-se, a imagem de São Bartolomeu pertencente à fachada, por ser de barro, desfez-se. Desta imagem dizia-se que os seus olhos, em vidro, quando lhes incidia a luz, pareciam “estrelas resplandecentes”.

O Jornal “O Manuelinho d’Évora”, do dia 13 de Fevereiro de 1883, noticia que, no domingo antes dessa data, se deu a derrocada total da ermida, acrescentando que há muito a mesma ameaçava ruir, tendo só ficado de pé a capela mor e a parede sul. “Há muito que esta egreja amaçava ruína próxima; estava profanada há quatro ou cinco anos, e as imagens tinham sido transferidas para o Espinheiro”, adiantava também aquela publicação. E desde então, até aos nossos dias, a Ermida de São Bartolomeu não mais se reergueu. 

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