sexta-feira, 11 de novembro de 2011

"Beato Salu" na SIC - Domingo pelas 20 Horas (Grande Reportagem SIC)


Há 24 anos, Luís abandonou a mulher e o filho porque diz ter sido escolhido para uma missão divina. Para “salvar a cidade” passa os dias a vaguear pelas ruas de Évora. A família nunca aceitou a opção. Luís tem duas netas que nunca conheceu. “(des)conhecidos” é a GRANDE REPORTAGEM SIC desta semana.

"Parece um druida, de barbas e cabelos brancos, olhar macio, pose contemplativa. Usa um discurso profético, muitas vezes místico. É inevitável pensar que Luís Pais Martins tem um apurado sentido estético. Afinal, ele passa uma parte dos seus dias num banco de jardim em frente ao Templo de Diana, ou então na Praça do Giraldo, ou no Jardim do Paraíso, que são alguns dos mais esplêndidos lugares da cidade. Ah, este homem poderia muito bem ter ganho a alcunha de Gandalf ou Merlin, se a sua ocupação das ruas estivesse datada uma década mais tarde. Mas ele começou a fazer-se notado nos anos 1980 e o povo de Évora preferiu chamá-lo de Beato Salu, como o vidente da novela Roque Santeiro.
Em bom rigor, Luís é eborense de gema. Fez a quarta classe e aos 12 anos tornou-se grumo no Café Arcada. Foi cá que casou, foi cá que teve um filho. Foi cá que estabeleceu uma base para, durante anos, partir estrada fora como caixeiro viajante, vendendo electrodomésticos por todo o Alentejo. «Um dia, tive uma revelação. Foi a 12 de Maio de 1972 e eu tinha ido a Fátima. Olhei para o alto, vi um céu magnífico e senti uma paz maravilhosa. Então afastei-me da multidão, comecei a andar e fui dar a um ribeiro. Nessa altura, as águas falaram comigo e disseram-me o que tinha de fazer.»
Há que ser justo nisto: Beato Salu é um homem inteligente. As suas palavras podem parecer inverosímeis mas, dando-lhe um pouco de voz, percebe-se que o sistema de convicções que ele criou é pelo menos coerente. Acredita nas energias da natureza e acredita ser uma espécie de Escolhido. Acredita ser o único capaz de alterar o destino, a ordem natural das coisas. E acredita nisso convictamente.
Em 1972, as águas disseram-lhe para abdicar da vida tal como a conhecia. Abandonou a família, o trabalho, e começou a sua missão. Ao longo dos anos seguintes desfez-se da casa, de quaisquer relações próximas, dos livros que o tinham inspirado – e que ainda cita muitas vezes. E continuou a falar com as águas, com o vento, com o Sol, a quem chama reis: «A determinada altura, um rei disse-me que ia haver uma grande mortandade em Évora e eu tive uma visão da cidade destruída, física e moralmente. Percebi pelos sinais que se aproximava um tremor de terra de grau nove na escala de Richter e então comecei a passar o tempo todo na rua, para proteger a cidade.» Mais tarde, leu no jornal que houvera um sismo de grau três, que não tinha provocado quaisquer danos humanos ou materiais. «O terramoto foi descontado no meu corpo», esclarece.
Beato Salu chama-se a si mesmo de O, porque essa é a forma mais perfeita da natureza. «Um O», explica ele, «tem um valor biológico superior à própria existência e por isso consegue controlar os acontecimentos, é independente em relação ao cosmo.» E assegura que, em cada século que passa, não haverá no mundo mais de dois ou três escolhidos como ele. «Quando os reis me nomearam O, havia dois candidatos europeus, um português e um jugoslavo. Mas não pode haver mais do que um na Europa e, como me escolheram a mim, a Jugoslávia entrou em guerra e desintegrou-se. Não quero imaginar o que teria acontecido ao nosso país se eu não fosse chamado.»
Não bebe, não fuma, não toma drogas. Há umas semanas foi expulso do casebre onde passava as noites, num bairro da cidade. E, se alguém lhe pergunta o que vai fazer, ele encolhe os ombros e replica: «Não tenho tempo para pensar nisso, estou ocupado com outros trabalhos.» Para todos os efeitos, há mais de trinta anos que este homem é fiel ao seu compromisso. E isso é quase metade da sua vida, que Luís Pais Martins tem 69 anos.
Quando ouviu as notícias de que o país estava à beira da bancarrota, começou a passar todos os dias pela delegação do Banco de Portugal em Évora, para abater em si a hecatombe económica. Quando toma conhecimento de uma epidemia, faz o circuito dos hospitais e dos centros de saúde, para travar a peste. Se há uma onda de assaltos, gira para a esquadra de polícia. E então caminha os dias inteiros de um lado para o outro, a salvar o mundo. E se por algum motivo pára num banco de jardim, não é para descansar. É para recarregar energias nos seus reis e poder continuar a descontar no corpo as maleitas da humanidade."

1 comentário:

Bondy disse...

Histórias místicas de um profeta humano, sensível, de coração grande, com grande personalidade, um pensador, um místico, um senhor dos elementos, como ele se sente. Apesar de parecer um mendigo, tem o olhar distante de quem passa por ele mas tranquilo, sereno, assim como o sorriso que por vezes oferece. Há quem não consiga olhá-lo nos olhos, como se ele fosse o espelho daquilo que alguém não quer ver. Curioso, que o Luís, ao longo de tantos anos que é conhecido em Évora, após seguir os sinais em que ele acredita e baseia a sua existência simples mas profunda espiritualmente, é cada vez mais considerado como uma figura carismática mas aceite por quem o conhece e com ele troca algumas palavras, ainda que não o entendam ou não compartam a sua forma de vida e de pensar o mundo.

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