segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Monumentos de Évora - Solar dos Cogominhos

A Torre/Solar dos Cogominhos, mansão fortaleza localiza-se em Torre dos Coelheiros, freguesia cuja sede se situa a cerca de três léguas de Évora. Ninguém sabe aquando remonta a origem da povoação. É, porém, dado como certo que Pedroalvez, o primeiro dos Cogominhos, era senhor daquelas terras e «se achou com Giraldo Pestana, o Sem Pavor, na tomada de Évora, e levou a Coimbra as chaves das cinco Portas daquela praça a El Rei Dom Afonso Henriques ». Assim o escreveram Frei Bernardo de Brito na primeira parte da “Crónica de Cister”, entre 1597 e 1602, e António Villas Boas e Sampaio na “Nobliarchia Portugueza”, publicada em 1676.

A autoridade dos Cogominhos estendeu-se então aos domínios de Oriola e Alvito e alguns dos seus descendentes foram para Lisboa, adquirindo prestígio junto da Corte. Um dos que mais se distinguiu fora da sua região foi Nuno Fernandes Cogominho, feito Almirante de Portugal por D. Sancho II. Coube contudo a Fernão Gonçalves Cogominho, filho bastardo do Cónego da Sé de Lisboa, D.Gonçalo Fernandes Cogominho, a iniciativa de instituir o morgadio de Fonte dos Coelheiros (cães especializados na caça aos coelhos e às lebres) no termo de Évora, decorria o ano de 1357.

Fê-lo agregando-lhe «todos os seus direitos e pertenças e casas e vinhas, torre, pomar, fontes, ribeiros, azinhal, soveral , matos», por entender ser necessário garantir ao seu filho primogénito os bens suficientes para a manutenção do seu estatuto social. E acrescentou o argumento de que «a partição das heranças pelos herdeiros era azo de não poderem os filhos manter a honra dos padres e dos seus avós e as linhagens ficavam em grande míngua e caíam os estados e honras que antigamente houveram».

Como se pode verificar por uma leitura atenta da instituição do morgadio, a torre já integrava os seus activos, tendo sido construída ou finalizada nesse mesmo ano, conforme é defendido pela maioria dos historiadores. D. Afonso IV ajudou quer a uma quer a outra coisa, dado que Fernão Gonçalves havia sido seu meirinho-mor, copeiro-mor e companheiro na batalha do Salado. O bastião, de planta quadrangular, em alvenaria de pedra, atinge os 13 metros de altura e é coroado por merlões (parte saliente de uma fortificação) em estilo mourisco, colocados entre cunhais, seteiras e mata-cães, aparelhados em cantaria de granito. Nessa altura era tido como a mais elevada fortificação do Alentejo, de entre as que ficavam fora das cidades, divisando-se do seu alto Monsaraz, Terena, Alandroal, Portel, Évora, Évoramonte, Monte Trigo, toda a Serra de Ossa pela parte Sul e parte da Serra Morena, em Espanha.

Depois a torre, que já mudara o nome à terra e ao morgadio, passou a paço, tendo-lhe sido incorporadas, no piso térreo, alas exclusivamente para salões. No decurso dos séculos XVII e XVIII recebeu dois corpos laterais rectangulares, compostos por pavimento térreo e sobrado, «com frente regular de dez janelas, sobre dupla escadaria de granito», aumento que muito se ficou a dever ao espírito de iniciativa de Diogo Xavier de Mello Cogominho. Nas memórias paroquiais de 1758, o Padre Joseph Gomes Saramago regista-o como compreendendo «várias cazas, em três andares ou pavimento». Por essa altura já a povoação tinha passado a paróquia e os bens da família Cogominho ultrapassado a légua de comprido do dito morgadio, alargando-se por mais herdades, ricas em «trigo, sevada, senteyo, e grandes montados de azinho e sovro». 

Todo este vasto património se viria a desmoronar com a lei liberal da extinção dos morgadios, criada por Mouzinho da Silveira em 1832, mas que só entrou em vigor no reinado de D. Luís por Carta de Lei de 19 de Maio de 1863. Alegou-se que a mesma tinha o fito de acabar com a desigualdadeimoral entre irmãos, mas tudo isto não passava de uma falácia, pois o que se pretendia era acabar com as grandes fontes de riqueza da monarquia rural, enfraquecendo-a nos seus alicerces financeiros.

A fragmentação do morgadio pelos diversos herdeiros vibrou um golpe fatal. As diversas parcelas daí resultantes foram vendidas. A Torre também encontrou compradores que, no entanto, pouca atenção lhe dedicaram. Devido à falta de conservação o edifício entrou em fase de acentuada degradação por volta de 1920. Para evitar a sua completa e definitiva ruina o seu último proprietário, João António Lagartixo, oriundo de uma conhecida família de Redondo, decidiu doá-lo à Câmara Municipal de Évora, no ano de 1957.

Ficou então consignado que o seu restauro seria orientado e aprovado pala Direcção Geral dos Monumentos Nacionais e na Torre ficariam sediados um edifício escolar e a Junta de Freguesia. Condição totalmente aceite, o que levou à sua classificação, por Decreto Lei de 18 de Julho de 1957, como Imóvel de Interesse de Público. Resta acrescentar que o compromisso foi integralmente respeitado e a Torre se encontra activa e animada e em excelente estado de conservação. Visita ao mundo rural e à história concelhia a não perder numa tarde de fim-de-semana.

Texto: José Frota 




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