quarta-feira, 20 de junho de 2012

A exemplar probidade de Mariana Perdigão

Primeira Governadora Civil em Portugal e mulher com um percurso de vida notável nas suas mais diversas facetas, Mariana Santos Calhau Perdigão foi seguramente uma das mais ilustres cidadãs eborenses de todo o sempre. Senhora de grande cultura, porte irrepreensível, distinta mas discreta, determinada e firme nas suas convicções, impôs-se à consideração de todos pela nobreza de carácter, pela firmeza das convicções e pelo sentido de solidariedade, responsabilidade, liberdade e democracia que em todas as ocasiões patenteou. Por isso deixou uma marca indelével em todos com quem privou.

Mariana Santos Calhau nasceu a 20 de Março de 1930 no conhecido Monte da Comenda Grande. Pertencente à abastada família dos Calhaus, abastados lavradores republicanos do concelho, fez a escola primária em casa com uma professora da escola pública contratada para o efeito. Mas isto era pouco para a sua ânsia de saber e de conhecimento e acabou por se matricular no Colégio de Nossa Senhora da Conceição (Doroteias) de Évora, que frequentou como aluna externa, e de seguida ingressou na antiga Escola do Magistério Primário, onde tirou o curso de professora do ensino primário.

Educada nos princípios da Igreja Católica e dotada de uma fé inabalável, a jovem Mariana sentiu-se tocada pelo espírito de renovação saído do Concílio Vaticano II e quis que ele se instalasse na sua própria vida. Libertou-se dos preconceitos de classe, abraçou em definitivo os ideais de liberdade que já bebera dos seus próprios pais e aderiu ao associativismo católico. No início da década de 50 tornou-se presidente diocesana da Juventude Escolar Católica. Nessas andanças fez amizade com António Augusto Ramos e Joaquim Lourenço Ventura Trindade, jovens dirigentes operários católicos que mais tarde vieram a formar com ela o núcleo dos católicos progressistas, sob a influência dessa figura ímpar de padre que foi José Alves Gomes.

Casara-se entretanto no dia 1 de Outubro de 1955, em Fátima, com o engenheiro agrónomo José Gregório Perdigão, de quem veio a ter sete filhos. Mas esse facto não a impediu de cumprir com muito zelo e dedicação o seu papel de mulher, mãe e pedagoga no seio da família. Antes já chegara à presidência da Juventude Internacional Católica. Atenta, a PIDE estabeleceu com ela os primeiros contactos, organizou-lhe a ficha de delinquente política e passou a seguir-lhe todos os movimentos.

Nas eleições de 1969, já com Marcelo Caetano no poder, estará ao lado da CDE, sendo candidatos oposicionistas por Évora às legislativas os católicos Manuel Tierno Bagulho (arquitecto) e o já referido Joaquim Ventura Trindade, em companhia dos escritores Mário Ventura Henriques e Armando Antunes da Silva, ambos da área comunista. Apesar da derrota os católicos de Évora, entre os quais Mariana Perdigão, não desarmaram e tentaram abrir na cidade um núcleo da SEDES - pólo de reflexão oposicionista consentido pelo consulado marcelista, chegando a convidar João Salgueiro para a inauguração. A PIDE/DGS faz abortar o projecto ao colocar um posto em Évora por iniciativa do Ministro do Interior, o temível Gonçalves Rapazote, advogado, deputado, juiz, presidente da Comissão Concelhia de Évora da União Nacional e grande latifundiário local, sob cuja dependência directa se encontrava a polícia política.

Não mais houve descanso para os oposicionistas eborenses. Mariana Perdigão correu ainda sérios riscos, o menor dos quais foi o de ser afastada da docência do ensino primário. Com os da sua classe sabia não poder
contar, o mesmo acontecendo com o Arcebispo D. David de Sousa, um prelado pusilânime e timorato, autêntico serventuário dos homens do regime. Ainda assim Mariana Perdigão e o seu grupo de amigos conseguiram, em 1973, levar por diante a ideia de fundar a Associação de Pais e Amigos dos alunos do Liceu.

Chega enfim o golpe militar libertador de 25 de Abril e, ainda antes do 1º. de Maio, Mariana e mais quatro dos seus dilectos companheiros de luta, António Augusto Ramos, Carlos Cruz, Rui Trindade e Armando Barbosa, criam o embrião do que será o núcleo do PPD (Partido Popular Democrático), posteriormente redesignado de PSD (Partido Social Democrata) em Évora. Em 21 de Fevereiro de 1980 é nomeada Governadora Civil de Évora no 1º. Governo da Aliança Democrática, liderado por Francisco de Sá Carneiro, lugar que manteve com Francisco Pinto Balsemão e donde saiu em 11 de Julho de 1983.

Ainda nesse ano foi eleita deputada à Assembleia da República. Não foi, nem estava no seu feitio, ser mais uma voz silenciosa e acomodada. Pelo contrário, participou na Comissão Parlamentar de Educação e Cultura, no âmbito da qual colaborou na elaboração das Leis de Base do Ensino e do Património Cultural. Em 1985, tendo cumprido o mandato, afastou-se da actividade partidária. Anos antes, mais concretamente a partir de finais de Dezembro de 1981, com a nomeação de D. Maurílio de Gouveia como prelado, reaproximou-se da hierarquia católica que a abandonara havia tempo. Tornou-se pessoa da máxima confiança do Arcebispo e fez parte da Comissão Diocesana Justiça e Paz, da qual aliás chegou a presidente. 

A sua sólida cultura levou-a ao Conselho Geral da Fundação Luís de Molina, à condição de fundadora do Clube Unesco em Évora e ao exercício do cargo de Secretária da Direcção do Instituto de Cultura Vasco Vilalva. A pouco e pouco foi aparecendo cada vez menos esta mulher de grande dignidade e fé indestrutível, que na vida atravessou dolorosas provações familiares, as quais passaram pela morte precoce do marido, da irmã e do único filho varão, falecido aos 23 anos num acidente de viação.

Faleceu em casa, ao cair da tarde do dia 11 de Novembro de 2008, junto das filhas. Pela sua obra cívica, política e humana, a Câmara Municipal de Évora prestou-lhe homenagem póstuma, no dia de S. Pedro do ano seguinte, concedendo-lhe a Medalha de Mérito Municipal - Classe Ouro. 

Texto: José Frota 

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