sábado, 10 de novembro de 2012

Lendas sobre Geraldo sem Pavor - Parte 2



A CONQUISTA DE ÉVORA 
   Geraldo Sem Pavor escolheu cinco dos seus companheiros mais íntimos e mais fiéis, e com eles partiu para Évora, que, nessa data, se encontrava bem segura nas mãos dos Mouros.
   Apresentando-se às portas da cidade e revelando provavelmente quem era, Sem Pavor declarou precisar de falar em particular com o alcaide mouro. Passo temerário o seu, porque Geraldes, se era execrado pêlos cristãos, vítimas das suas tropelias sangrentas e das suas pilhagens audaciosas não o era menos pelos Sarracenos, em quem as suas investidas de surpresa, os seus saques vorazes e as suas cruentas chacinas haviam criado uma ânsia de represália que nunca puderam saciar-se, porque ele forte e matreiro, sempre pudera repelir ou furtar-se aos seus golpes vingadores. Óptimo ensejo aquele o que se oferecia ao alcaide islamita para se desforrar de tão odiado inimigo, cortando-lhe cerce a cabeça.
E Geraldo Geraldes bem sabia o risco que corria mas não o receava, justificando bem o seu apodo de Sem Pavor.
   Homem prudente e não menos ardiloso, o alcaide teria pensado que, antes de aprisioná-lo e provavelmente matá-lo, conviria ouvi-lo. Recebeu-o com a peculiar cortesia árabe, à qual a cortesia europeia muito ma ficar devendo. Geraldes apresentava-se como amigo, e como amigo o acolheu o chefe sarraceno. Em jeito de confidência, queixou-se o Português amargamente das arrelias e transtornos que lhe causava o ódio de Ibn-Errik, o monarca lusitano, que não desejava senão prende-lo e puni-lo com a morte; enumerou-lhe as forças que dispunha, talvez exagerando-as, e acenou-lhe com a possibilidade de essas forças entrarem como aliadas ao serviço dos Sarracenos, se ele, alcaide, o ajudasse a vigar-se do odioso rei Cristão. Geraldo afirmou, sem que o Mouro o duvidasse, que só poderia viver tranquilo depois de D. Afonso ter desaparecido deste Mundo.
       O muçulmano arrebitou a orelha muito interessado. A declaração parecia-lhe aliciante e convincente. Ele não ignorava que a numerosa tropa do proscrito fazia falta a Afonso Henriques para guerrear os muçulmanos. Poderia aprisionar o chefe que tão imprudente viera se meter na boca do lobo; mas, que proveito iria tirar dessa traiçãozinha? Pouco ou nenhum. Lá longe, no seu castelo, ficara um aguerrido exército de desesperados que matavam e pilhavam para sobreviver. Se lhes matasse o chefe, esses homens só teriam dois caminhos a seguir: ou nomear novo cabecilha e prosseguir em seus desmanchos ou submeter-se ao rei, que lhes concedia magnânimo perdão e com eles engrossaria as suas fileiras já tão poderosas. De qualquer das formas, o prejuízo seria dos Mouros. Não, a politica inteligente era captar as simpatias de Geraldo, tão temido como admirado entre os povos árabes, e, robustecido com esse valioso reforço, atacar e talvez exterminar o rei Afonso.
       Cercado de todas as honras, alvo das maiores deferências, Geraldo Sem Pavor permaneceu dois dias em Évora, como hóspede do alcaide. Percorrendo a cidade e o castelo na amável companhia do anfitrião árabe, o manhoso cavaleiro não deixou de observar minuciosamente as obras de defesa da robusta praça. Não lhe custou muito convencer o Mouro de, com o seu auxílio, atrair Afonso Henriques a uma cilada e mata-lo. Os olhos do alcaide luziram ante o sedutor projecto, que não lhe parecia inviável, se fosse executado por aquele aventureiro tão poderoso que ate lograra construir um castelo e manter a sua independência no território de um rei tão sanhudo e aguerrido que conseguira arremessar os Mouros para alem o Tejo e já ameaçava vastas regiões do sul.
      Ao cabo de dois dias de conversações, os planos achavam-se concluídos e firmado um pacto entre o cristão e o maometano. Ia dar-se começo à execução desses grandes projectos. Geraldo Geraldes retirava-se como importante potentado, solenemente acompanhado pelo alcaide ate fora das portas da cidade. O Mouro já antegozava o dia em que pudesse haver às mãos Ibn- Errik, o monarca português. Ala era grande, Maomé o seu profeta e ele, alcaide, servindo-os com tanta argúcia, bem podia ir contando com um lugar privilegiado nos deliciosos jardins do Paraíso muçulmano, onde não lhe faltariam odaliscas Formosas, tangendo brandamente seus pandeiros de ouro.
      Geraldo Sem Pavor regressou ao seu castelo e falou de novo à sua tropa. Reprimindo o seu contentamento, revelou, insistindo, que iam entrar numa acção tão grandiosa que o soberano não hesitaria em conceder-lhes generoso perdão, cumulando-os de honrarias e doando-lhes terras.
      Com seu intrépido chefe na vanguarda, armados e municiados para dois dias, saíram os réprobos do castelo, ao cair das primeiras sombras nocturnas. Era em fins de Novembro de 1166. Caminharam à socapa durante toda a noite; ocultaram-se, ao amanhecer, para prosseguirem na noite imediata. E só se detiveram, em plena escuridão, a uns dois quilómetros de Évora.
      Depois de lhes revelar as suas intenções, aí os deixou Geraldes dissimulados nas treva, recomendando-lhes o máximo silêncio. E dirigindo-se sozinho para a cidade. Pelo trajecto. Colheu uns ramos de árvore, com os quais se encobriu, e foi avançando cautelosamente, para que as sentinelas sarracenas não se apercebessem da sua aproximação. Era, porém, escusada tanta prudência, porque os vigias, iludidos por uma aparente e ociosa paz, dormiam a sono solto. Assim, pôde Geraldo abeirar-se da torre da atalaia, sem ser pressentido.
      Mas essa torre era construída de maneira muito especial, que tornava por assim dizer impossível a sua tomada. Não possuía porta; apenas lá no alto se abria uma janela, que constituía simultaneamente a entrada e o mirante, de onde se podia esquadrinhar com o olhar toda a planura em redor. Subia-se a essa alta entrada por uma escada de corda, que se recolhia, logo que a sentinela se instalava, cortando a ligação com o exterior.
      A falta da porta não representava dificuldade insuperável para Geraldo Geraldes. Contara com ela e estudara a maneira de vencê-la. Usou então o expediente de entalar o couto da sua lança e um ramo de árvore nos interstícios do muro, formando assim degraus, que ia retirando e colocando mais altos, consoante acabava de os utilizar. Trepou sorrateira e lentamente, até atingir a janela de acesso ao aposento do guarda.
      Apenas se encontravam ali o soldado mouro e uma sua filha, que dormiam regaladamente. Deslizando sem rumor, Geraldes agarrou a rapariga e, antes que ela tivesse tempo de soltar um ai, arremessou-a pela janela, vindo o frágil corpo despedaçar-se em baixo, no duro lajedo. E, com rapidez fulminante, decepou a cabeça da sentinela. Sempre silencioso, desceu pelo mesmo processo por que subira e foi juntar-se aos companheiros, levando-lhes, como troféu, a cabeça das suas vítimas. Aqueles sinistros despojos provavam com terrível eloquência que o caminho estava desimpedido. Évora dormia sem cuidados e sem sentinelas. Mas ainda havia as sólidas portas bem fechadas e trancadas. Era preciso abri-las.
     Então, dentre a sua gente, escolheu Sem Pavor cento e vinte cavaleiros e mandou-os esperar no local onde hoje se encontra o convento do Espinheiro com ordem de por ali se conservarem até ouvirem alvoroço e gritos na cidade. E, desta vez mais afoito de novo subiu o audaz cavaleiro à torre da fortificação, onde acendeu uma fogueira, que ele sabia ser o sinal convencionado pelos Árabes para os advertir de que os cristãos estavam a atacar a cidade naquele ponto. Antes, porém, de o alarme se generalizar entre os habitantes, já o aventureiro se tinha retirado apressadamente da torre e ocultado nas vizinhanças, protegido pela noite.
      Caindo na esparrela e reunindo precipitadamente todos os homens de armas disponíveis, saiu o alcaide em ruidoso tropel da cidade, dirigindo-se a galope para a torre da atalaia que supunha atacada. Na sua boa fé nem sequer achou necessário fechar as portas à sua retaguarda. Foi então que Geraldo Geraldes à frente do seu bando e protegido pelas trevas, entrou de escantilhão pela cidade, matou quantos ainda tiveram a veleidade de se lhes opor e trancou logo as portas deixando fora das muralhas o alcaide mouro e os seus homens desamparados, burlados, depois de perderem infantilmente a grande fortaleza que barrava aos Portugueses o caminho do sul.
    Senhor da cidade, bem protegido pêlos altos muros Sem Pavor concedeu logo aos seus companheiros, em adiantamento dos chorudos prémios prometidos a liberdade de saque. A cidade era uma das mais ricas da Península. Nunca aqueles homens rudes tiveram ao seu alcance povoação tão vasta e bem abastecida para e bem abastecida para pilhar. Caíram sobre as riquezas como bando de vorazes gafanhotos sobre uma seara e limparam tudo.
     Sempre habilidoso, Sem Pavor, uma vez de posse do formidável ponto estratégico há tanto tempo cobiçado pelo monarca, remetia-lhe humildemente um quinto do valor do saque, como era de uso naqueles tempos, seus homens, e suplicando-lhe que mandasse ocupar a cidade que conquistara para oferecer.
      Facilmente se calcula a satisfação do soberano. Perdoou de boa mente a Geraldo Sem Pavor e aos proscritos que fielmente o acompanhavam. Fez-lhe muitas mercês e nomeou-o alcaide-mor de Évora, porque ninguém melhor do que o aventureiro, que tão ardilosamente a tomara, a poderia agora defender, em nome de el-rei de Portugal.
       O facto teve grande importância, porque permitiu ao rei de Portugal lançar-se mais afoitamente para o sul, alargando os seus domínios, como tanto ambicionava. E as circunstancias da política interna de Marrocos também lhe favoreceram os intentos. Abd-el-Mumen o terrível emir, que lhe infligira a mais pesada derrota da sua fulgurante carreira de batalhador, falecera em Salé, em 1163. Como de costume em regimes feudais tanto entre muçulmanos como entre cristãos, sempre que um monarca desaparecia, as paixões e rivalidades latentes reacendiam-se entre os pretendentes ao mando supremo. Iussof-Abu-Iacub, que sucedera a Abd-el-Mumen, encontrando-se na Península, teve de partir a toda a pressa para a África, a fim de reprimir violentas revoltas dos irmãos e outros magnatas que lhe queriam ocupar o trono. Excelente oportunidade essa para D. Afonso Henriques se desforrar dos desaires sofridos e levar o seu domínio o mais longe possível.
       Com o ímpeto e a rapidez peculiares dos seus movimentos guerreiros, o monarca penetrou com suas poderosas hostes mais profundamente no território sarraceno. Ainda em 1166, Moura, Serpa e Alconchel como castelos de cartas sob um brusco sopro, caíram em seu poder e, posteriormente, Truxilo e Cáceres sofrem o mesmo destino. Em dois anos o rei de Portugal apodera-se do melhor bocado do Al-Gharb muçulmano. O império islamita do ocidente da Península desmoronava-se irresistivelmente. A gente de Mafoma sentia-se incapaz de deter o avanço português.
     Embriagado por estas vitórias, D. Afonso já não pode dominar a força cega das suas ambições e quis também apoderar-se de Badajoz, cidade que, pela sua riqueza, o fascinava tanto como o seduzira Évora anteriormente. Cometeu então um erro político que por pouco, lhe não foi fatal. Mas, esse passo precipitado que, visto na perspectiva do tempo, nos mostra o remate da sua carreira de guerreiro extraordinário marca simultaneamente o início da última fase da sua existência que merece ser detidamente narrada.

Fonte: marcoseborenses.no.comunidades.net

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