quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A bela capela tumular de Garcia de Resende


Concebida e desenhada pelo próprio, como muitos especialistas admitem, a capela tumular de Garcia de Resende é um dos monumentos nacionais menos conhecidos da população e dos mais ignorados pelos turistas nacionais e estrangeiros, que não lhe encontram referência nos guias habitualmente colocados à sua disposição. O facto deste singular monumento funerário se situar a quatro quilómetros da cidade, esquecido e isolado na vasta cerca do Convento do Espinheiro – o qual foi adquirido após a extinção das Ordens Religiosas por particulares pouco sensíveis ao seu valor patrimonial e cultural – muito terá contribuído para o seu olvido por banda de todos, autoridades incluídas. 

Por isso foi vandalizado durante décadas até que uma oportuna intervenção do então IPPAR o salvou da ruína e recuperou, já nos alvores do novo século. A capela tumular foi planeada em 1520 (dezasseis antes da sua morte), tendo a obra arrancado no ano seguinte, em terrenos que terão sido facilitados por D. Manuel, em obediência à sua ideia de que as grandes figuras do Reino deveriam ser enterradas em casas monacais da Ordem dos Jerónimos. Ora Garcia de Resende não era nobre, embora tivesse sido criado no Paço Real. Nascera em Évora em 1470 e seus pais tinham morrido cedo, mas recebera educação esmerada por parte de seu tio, desembargador régio e figura de prestígio junto da corte. Por volta dos 20 anos, Garcia de Resende foi escolhido para moço de câmara de D. João II e pouco tempo depois era nomeado moço de escrivaninha, uma espécie de secretário particular, cargo que manteria até à morte do monarca em 1495. 

Continuou a exercer importantes funções na corte com a ascensão de D. Manuel ao trono, e integrou, em 1514, como secretário-tesoureiro e o título de fidalgo da casa do rei acumulado, a luxuosa embaixada ao Papa Leão X. No ano seguinte vê ser-lhe atribuída uma tença de 2000 réis, para em 1516 ser nomeado escrivão da fazenda do príncipe herdeiro, o futuro D. João III. Ao longo do tempo, este multifacetado talento de poeta, trovador, cronista e desenhador reúne avultados bens em Évora, traduzidos na posse de grandes e belas casas na cidade (recorde-se a casa que a tradição lhe atribui na Rua de S. Manços e cuja janela é monumento nacional) e de extensas propriedades rurais nas zonas em redor. 

É pois com 51 anos que manda edificar, sem quaisquer problemas financeiros, a sua bela capela tumular, exemplar típico do estilo manuelino-mudéjar, de planta rectangular e miniatural e composta por três corpos distintos: galilé, nave e capela-mor. No pavimento da primeira figura a campa de Jorge de Resende, irmão de Garcia de Resende. Na nave situa-se a sepultura do poeta e cronista, ali recolocada já em fase adiantada do século XX, depois de recuperadas a pedra tumular, que entretanto havia sido vendida, e as próprias ossadas, que se encontravam desaparecidas. 

O pavimento da nave e da ábside é forrado com azulejos andaluzes da época, apresentando-se as abóbodas nervuradas. Segue-se a capela-mor, cujo acesso é encimado por gracioso arco triunfal. Garcia de Resende viria a servir ainda durante mais alguns tempos, embora em funções menos importantes, o rei D. João III. Os últimos anos da sua vida passou-os tratando das suas terras em Évora, vindo a falecer em 1536. Recolheu serenamente à bela capela que mandara edificar sem nunca sequer suspeitado dos tratos de polé a que a mesma iria estar sujeita. Hoje felizmente recuperada, até para recolha e abrigo de gado chegou a ser utilizada.

Texto: José Frota
Fotografias. Francisco Bilou

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