quarta-feira, 3 de julho de 2013

A acastelada ermida de S. Brás

Reza a tradição que no início foi uma gafaria em madeira isolada no Outeiro da Corredoura, pequena elevação que se sucedia ao Rossio e onde receberam acolhimento leprosos e outros infetados por doenças pestilentas contagiosas que afetaram a população citadina entre os anos de 1479-1480. S. Brás era o padroeiro das gentes que temiam vir a ser ou já estavam contaminadas, contando ainda com a grande devoção do próprio rei D. João II e do bispo eborense D. Garcia de Meneses. Nesta conformidade, mandou o monarca erguer naquele local um templo consagrado ao santo da sua veneração, onde extramuros, como era conveniente, todos pudessem orar e rogar cura ou alívio para os seus padecimentos. 

O começo da sua construção terá tido lugar no ano de 1482, depois de obtida a 7 de Setembro de 1840 a competente licença eclesiástica, sabendo-se com segurança que uma década depois já estava aberta ao culto. O testemunho certificativo é do médico, sábio e viajante alemão Jerónimo Munster, que em 1494 visitou Évora para se inteirar junto de D. João das novidades sobre o processo português dos Descobrimentos. Munster deixou escrito no livro “Viagens por Espanha e Portugal” as suas impressões sobre a cidade e o que nela veio encontrar, mostrando o seu encanto pelo templo. 

Entretanto o Rossio deixara de ser da Corredoura e passara a receber a designação do respectivo orago. Tido como edifício fundador do estilo manuelino-mudéjar, desconhece-se o nome do autor de tão emblemática construção, erguida sobre sólida plataforma de modo a ultrapassar um desnível do terreno da zona envolvente e que apresenta, na sua forma exterior, uma sucessão de volumes bem robustos, coroados por merlões (parte saliente do parapeito entre seteiras ou ameias) e por coruchéus, (remate de uma torre ou campanário), disseminados por 14 contrafortes cilíndricos que lhe conferem um aspeto acastelado. Acentue-se a sua projeção em planta centralizada quadrangular, ostentando fachada principal estreita, rasgada por um pequeno pórtico e um par de janelões. 

Esta construção atarracada (como Túlio Espanca a designou) e maciça veio a ser alvo de fortes bombardeamentos em 1633 por parte das tropas castelhanas, durante a Guerra da Restauração, dado que, embora isolada, se encontrava incluída nas estruturas defensivas da cidade. Os tempos seguintes não foram brilhantes. Durante os anos sobejantes deste século XVII e até à extinção da Inquisição, constituíram-se no seu adro tribunais do Santo Ofício, donde emanou a realização de tenebrosos autos de fé e bárbaras punições a quem caía nas teias da infame instituição. 

A partir dos finais do século XIX a ermida de S. Brás foi perdendo o isolamento. A construção da Estação de Caminho de Ferro colocou-a a meio caminho entre esta e o centro da cidade. Depois, em 1890, veio a instalar- -se, mesmo em sua frente, a fábrica da Companhia de Gás, a que se seguiu a fixação nas imediações de uma série de pequenas unidades fabris. No caminho então aberto – que viria a receber a designação de Avenida de dr. Barahona – se implantou também a Guarda Nacional Republicana e mais tarde outros arruamentos, que fazem com que a ermida seja hoje um elemento destoante na sua zona envolvente. 

A Ermida de S. Brás é Monumento Nacional desde 1922, e para lá do seu invulgar e poderoso aspeto exterior, alberga na capela-mor um retábulo dourado enquadrando uma escultura de madeira do Santo Padroeiro. As pinturas existentes denotam a influência flamenga, reportada à segunda metade do séc. XVI e bem patente nas tábuas relativas à vida de Cristo e ao martírio de S. Brás. 

Colateralmente à nave, dois altares de talha dourada são dedicados a S. Romão e a Nossa Senhora das Candeias, esta de multissecular devoção local, celebrada anualmente com romaria e feira franca, criada pela Câmara no longínquo ano de 1523. Refira-se ainda que a nave, com abóbada de canhão e volta perfeita, possui cúpula hemisférica e está revestida de painéis axadrezados de azulejos verdes e brancos, de tom irisado.

Texto: José Frota

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