terça-feira, 25 de abril de 2017

Castelo Real de Valongo


Fica esta curiosa e importante fortificação medieval, única no seu género no Concelho, na Herdade de Castelo Real, anexa à da Grã, a cerca de 22 quilómetros a Sudoeste da cidade de Évora, em terras patrimoniais da Casa Barahona e Mira a partir dos últimos anos do séc. XIX, por compra de José Paulo Carvalho e Mira ao último Marquês de Vaiada e Conde de Caparica, D. José de Meneses da Silveira e Castro, descendente dos Condes de Basto, seus antigos e históricos donatários. Desconhecem-se documentos autênticos que tratem da sua fundação. D. Leonor Afonso, filha bastarda de D. Afonso III, a piedosa princesa que morreu com fama de santidade no Convento de Santa Clara, de Santarém, segundo carta existente na Torre do Tombo, comprou determinada propriedade a Paio Miguel, morador em Montoito. Em 1289, a mesma infanta, já viúva do Conde D. Gonçalo, doou à Ordem de Malta duas partes da mesma vila, que havia adquirido por escambo aos filhos do copeiro-mor del-rei, Pedro Anes, o qual tinha concedido à povoação, no ano de 1270, carta foralenga do tipo de Évora. Nenhum dos documentos escritos se refere, todavia, determinadamente ao Castelo Real, mas sim ao povoado de Montoito, que viria a ser enobrecido por D. Manuel, em 1515, com a doação do foral da Leitura Nova, vila que campeia a uma légua de distância da fortaleza, para o lado do Oriente e já situada no Concelho limítrofe de Redondo. Foram governadores do castelo Rui de Sande, conselheiro de D. João II e antigo moço de escrivaninha do malogrado príncipe D. Afonso (provisão de 1 de Janeiro de 1491) e seu filho D. João de Sande em 1526, que recebeu a alcaidaria, em nome del-rei, das mãos do capitão-mor de ginetes da Comarca do Alentejo, D. Diogo de Castro (L.º de Registo de D. João III, fl. 121). O pitoresco edifício militar está situado na Herdade da Grã, nome respeitável de antiga e nobre família eborense. Parece haver filiação história entre o topónimo e o célebre chanceler do Príncipe Perfeito, Rui da Grã, varão de justo viver, como reza a inscrição gótica da sua campa, de 12 de Novembro de 1520, depositada no Museu Regional e proveniente do demolido Convento do Paraíso, aquela inflexível figura que condenou à morte, como juiz do Tribunal da Relação de Lisboa, o Duque D. Fernando II de Bragança. O castelo, construído nos meados do séc. XIII remonta ao tempo de D. Afonso III, monarca que deu início ao aforamento e integração económica na administração pública das terras então daninhas de Redondo e Monsaraz, vilas povoadas com habitantes deslocados e valorizadas com a outorga dos forais de 1250 e 1267, respectivamente. Domina um suave cabeço pelado de vegetação, na cota 221 m. que em forma de esporão se ergue a cavaleiro da margem direita do ribeiro do Castelo, a 400 m. a sul da sua confluência com a ribeira de Vide. É constituído por um quadrilátero de 43,35 x 43,20 m., de forte mas baixo muro de rija alvenaria, coroado de ameias rectangulares com seteiras do tipo comum dos sécs. XIII-XIV, reforçado nos ângulos por pequenas torres quadradas de cunhais de pedra aparelhada, utilizadas, primitivamente, como casas de guarnição casteleja. Portados góticos, de ogivas lanceoladas, chanfrados, dão acesso ao interior das mesmas dependências. Na época manuelina, a torre de Menagem, situada no recanto Norte e que protegia a entrada principal da fortaleza, portado que não é o trecentista, mas de uma reforma dos princípios do séc. XVI e constituído por arco abatido, de granito, com chanfros e ábacos grosseiramente esculpidos, foi acrescida de importante obra defensiva e palaciega. Desta altura parece datar a construção do curioso paço anexo, que abrangia todo o pano murado do lado poente e se arruinou na centúria passada. De um grande salão de piso térreo são visíveis, somente, as mísulas e arranques de nervuras manuelinas e, do corpo alto, de outra sala, algumas janelas de vergas chanfradas, coevas, que deitam para o lado da ribeira. Elegante torrinha de secção octogonal, adossada à torre de Menagem, iluminada por seteiras e outrora coberta de capacete cónico de que restam vestígios, com mais de 50 degraus de pedra, estabelecia ligação entre os andares das várias dependências solarengas. É exemplar de secção helicoidal, com nervo de nó torso, fechado por simples cruzaria ogivada, de boa arquitectura, superior em desenho e proporções às suas congéneres da Rua Fria e do antigo palácio dos Mendanhas, de Évora. A grande torre, de três andares e terraço ameiado, passante de 15 metros de alto, embora arruinada, ainda deixa entrever a robustez e interesse das suas salas, que eram todas de dois tramos divididos por possantes arcos chanfrados, com abóbadas de nervuras, chaves e represas encordoadas, de pedra, manuelinas. Os fogões desapareceram, mas subsistem curiosos janelões de arcos de volta abatida. de cantaria e as dependência superiores de paredes estucadas e pintadas a têmpera, com restos visíveis nas golpeadas paredes. A cobertura da última sala desabou recentemente. A torre medieval do lado poente, conserva vestígios muito curiosos de arquitectura gótica, com destaque para um pequeno compartimento quadrado, que mede 4, 35 m. por banda, de abóbada circular apoiada em trompas. Possui alguns portados de ogiva, muito estreitos. Aparelhada em época mais recente, foi-lhe acrescida outra meia torre com passagem alumiada, que interrompeu o primitivo acesso aquela casa, a qual poderia ter servido de capela castelã e pública até ao séc. XVI. 

BIBL. António Francisco Barata, O Castelo Real de Montoito, in Évora e seus Arredores, 1904, págs. 11-13; Túlio Espanca, Património Artístico do Concelho de Évora, 1957, págs. 169-172. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Antigona Ensemble no Armazém 8


Os Antigona Ensemble do Fundão, vem cantar as musicas das revoluções que marcaram o mundo, de Portugal ao Chile, De Cuba a Itália. Uma noite de memorias de Liberdade em varias línguas e com varias sonoridades.  

terça-feira, 18 de abril de 2017

Cantar Abril no Armazém 8


Uma colaboração com o Núcleo de Évora da Associação Zeca Afonso, o Grupo de Musica AJA MUSICA, apresenta a obra de Zeca Afonso e de outros Cantautores da Revolução, 
Estará Presente um Capital de Abril, em representação da Associação 25 de Abril, para nos contar mais coisas dessa noite de 74 que marcou a historia de Portugal. teremos também uma exposição de jornais e cartazes da Época.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Casa Soure



Curioso exemplar de arquitectura civil do estilo manuelino, situado na Rua da Misericórdia, já era conhecido em 1552 como residência do fidalgo da casa del-rei Cristóvão Nunes, Provedor da Misericórdia. Integrado na área que compreendeu o casario do Infante D. Luís, filho de D. Manuel, condestável-mor do reino e administrador da Ordem de S. João de Jerusalém e, ainda, por doação deste às freiras de Malta, que aqui viveram entre 1530-50, parece que, no ano de 1597 nestes corpos, já separados dos anexos da Igreja e Mesa da Santa Casa da Misericórdia vivia D. Brites de Távora que, no edifício possuía oratório privativo, com licença para nele se celebrar missa diária. A casa, modificada em épocas posteriores conserva, todavia, a fachada axial dos jardins, do quinhentismo, com elegante terraço de cinco arcos de volta perfeita apoiados em coluneis rudes e atarracados, de granito. A abóbada do varandim central, coberta de ogivas polinervadas, compactas, ornadas de bocetes circulares e molduras torsas, é rematado por airoso coruchéu de secção cónica, envolvido, no beiral, por cortina irregular de ameias chanfradas, de alvenaria. O piso térreo, destinado, outrora, à carruagem, é aberto em arcada que comunica a vasto recinto de duas naves e três tramos desiguais, com tectos abatidos, de artesões chanfrados e arcos redondos, contrafortados. Estão compostos por mísulas e chaves com desenhos vegetalistas, bolas, cordas e nós, ainda dentro do espírito da arte manuelina. O tramo de acesso à escadaria, de pedra, com balaústres de pescoço de cavalo, de época mais avançada, é protegido por coluna poligonal com capitel de cordame. Esta parte do imóvel, de singular pitoresco, conserva as características arquitectónicas do 1.° terço do quinhentismo. Na empena avançada que deita para o exterior e para o lado da Porta de Moura, a guarnição de janelas de sacada, de padieiras semicirculares, graníticas, são da arte joanina dos meados do séc. XVIII, sendo a angular, curioso tipo de balcão mainelado, de fuste marmóreo defendido por gradeamento de barrinha. Sotoposto apareceu, em 1962, importante secção de muralha medieval da barbacã desta porta militar, em cantaria siglada. No edifício, que é propriedade da Sociedade Instrutiva Regional Eborense, funciona actualmente o Lar da Mocidade Portuguesa Feminina. 

BIBL. Gabriel Pereira, Estudos Eborenses, fase. 6, O Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Évora, Biblioteca Pública de Évora; Visitação dos oratórios de Évora em 1591, Ms. n.° 61 do Fundo da Manisola, fl. 116. 

sábado, 15 de abril de 2017

Casa Nobre do Largo dos Penedos


É atribuída, nos fundamentos, a Francisco de Mendanha, fidalgo da Casa Real de D. Manuel, filho do célebre alcaide de Castro Nuno, em Castela, Pero de Mendanha, que tão dedicado foi à causa de D. Joana, a Excelente Senhora e a D. Afonso V, malograda no desastre de Toro. Aquele monarca, segundo Alvará feito em Almeirim, com data de 19 de Maio de 1508, existente no Arquivo Municipal de Évora, concedeu-lhe as terras e fossos da barbacã situados ao norte das Portas de Alconchel, defronte do Poço da Boa Mulher, que foi substituído, mais tarde e em desvio acentuado, pelo chafariz público existente na actualidade, para neles se plantarem árvores e arbustos na azinhaga de suas casas. Os vastos paços tinham então frentes para os Largos de Alconchel e dos Penedos, Ruas da Carta Velha, Cal-Branca e dos Penedos, ficando esta sobrepujada por amplo passadiço de alvenaria que o falcoeiro-mor de D. João III, Jorge Henriques, lhe construiu em 1550 sobre a adarve da muralha medieval, na intenção de nos terraços dela fazer gaiolas e poleiros onde se espanejassem ao sol as aves de rapina. O edifício quinhentista chegou ao nosso século muito maltratado e subdividido no regime de enfiteuse comum. Parece que um incêndio lhe destruiu parte do corpo superior; formosas salas do rés-do-chão, com abóbadas de cruzaria artesonada, em cantaria e chaves de desenhos zoomórficos, jazeram durante anos no mais confrangedor abandono. Esta cobertura veio por terra há cerca de dez anos e um proprietário recente vendeu tão curiosos vestígios artísticos do estilo gótico- manuelino e cedeu uma curiosa janela de jambas e arcos de ferradura, geminada, de granito, do mesmo período que foi, ulteriormente, reconstituída na fachada posterior da antiga moradia dos morgados de Manedos, que deita sobre o arco da travessa de André Cavalo. Já o ciclone de 15 de Fevereiro de 1941 destruíra, por desabamento, duas alterosas chaminés do séc. XVI que, voltadas para o Largo dos Penedos, ofereciam na empena do edifício pinturesca silhueta. Do velho solar chegou ao nosso tempo, apenas, com merecimento arqueológico, o passadiço de 1550, um enegrecido pavilhão coetâneo, recoberto de fendas e restos de reboco artístico, que ultrapassa a muralha da cerca nova, e a torre cilíndrica de coruchéu cónico da escada de caracol. Este cubelo é abraçado no exterior por duplo cordão de perfis circulares e é iluminado com algumas frestas coevas. Curioso colar de merlões chanfrados arranca da cimalha e envolve a base do coruchéu que, terminado por pináculo de granito, aponta com singular capricho e elegância a linha do céu. Todos os pertences anexos, do casario, além de uma ou outra patinada pedra que surge das empenas fortemente caiadas de branco, com uma insistência que fere a vista, são elementos descaracterizados que o tempo e o utilitarismo apresentam como símbolos de uma época de mau gosto. 

BIBL. Túlio Espanca, A Cidade de Évora, n.° 33-34, 1953, págs. 452-453. 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

"A minha escola, Arquivo de 1910 a 1974" no Arquivo Distrital de Évora

O Arquivo Distrital de Évora recebe a exposição itinerante "A minha escola, Arquivo de 1910 a 1974" patente no Arquivo Distrital de Évora entre o dia 11 de abril e o dia 15 de maio.
Organizada pela Delegação Regional de Educação do Alentejo, pela Câmara Municipal de Évora e pelo Arquivo Distrital de Évora, a exposição incide sobre a pedagogia, sobre os edifícios e os equipamentos escolares e sobre a administração escolar durante a Primeira República e o Estado Novo, recordando os tempos de escola de várias gerações de Portugueses.

Na exposição poderá recordar os livros, os diplomas, os hinos, as carteiras e os edifícios escolares.





Casa Nobre da Rua do Raimundo nº112


Desconhece-se a quem se deve os fundamentos deste interessante imóvel, exemplar de arquitectura civil dos fins do séc. XV, que se construiu cerca de 1492 (data moderna afixada no alçado posterior do lado da horta) e sofreu reparações substanciais em 1894 e 1956, estas feitas pelo proprietário Manuel Dias Descalço, a cujos herdeiros pertence na actualidade. Em 1591 habitavam em casas apalaçadas nesta rua D. Joana de Vasconcellos, viúva do claveiro, e o cónego Francisco de Macedo, personagem da câmara do Cardeal-Infante D. Henrique, irmão do comendador Manuel de Macedo, dono do edifício, que residia em Alenquer mas conservava aqui como feitor o súbdito espanhol Fernando de Ferreira. Uma destas personagens vivia, portanto, neste solar nos fins da centúria quinhentista e é provável que descendente dos fundadores; todavia, a ausência de documentação exacta, numa rua tão comprida como cheia de casas nobres toma difícil atribuir, com segurança, a qual deles pertenceu. O prospecto externo conserva os alçados originais, manuelinos, assentes em sólida albarrada de cantaria aparelhada, com abertura rectangular: as coberturas, de quatro águas, dividem em vários planos os pavilhões antigos, mas restaurados. No corpo mais arcaico levanta-se imponente chaminé de base quadrada e tubo cilíndrico, de tiragem excepcional, certamente obra de época muito avançada mas digna de conservação. A fachada posterior do alteroso pavilhão, que deita para os jardins (sobranceito à nora de telhados de madeira de nogueira, de secção octogonal, muito aguda, em desenho de inspiração árabe, com raios e discos de reminiscências mudejares, quinhentistas), robustecido nos cunhais por aparelho granítico mantém, no piso térreo, embora obstruído, friso de janelas rectangulares, geminadas, de jambas e dintéis chanfrados. Os mainéis, marmóreos, de algumas aberturas, foram destruídos mas subsistem dispersos ou aplicados no lago os capitéis mudejares-manuelinos e muitos bocados de fustes finíssimos. No andar principal, completamente modificado, respeitaram os balcões de granito com cornijas salientes e as grades de ferro forjado das sacadas, sendo uma delas de balaústres quadrados e trapezoidais, seguramente dos fins do séc. XVI. No corpo sul-poente do edifício, que deitava para os lagos do jardim, levantava-se o terraço, com eirado e torrinha terminal, cónica, hoje desaparecidos. Interiormente, no piso térreo, irregular como todas as construções coevas, existem inúmeros vestígios de arquitectura manuelina e do tempo de D. João III, de robustíssimos muros de feição militar, portados com munhoneiras, um duplo arco de volta inteira, de chanfros de granito; passadiço comunicante a pátio outrora ajardinado, de nichos e pinturas fresquistas, que se apoia em pilastras de pedra almofadada, no tipo rústico (séc. XVII) e embebidas em várias paredes mísulas e capitéis prismáticos, do estilo manuelino, ornados de bolas, cordas, mascarões e outros elementos usados na arquitectura portuguesa desse tempo. O imóvel, pelo carácter, assimetria e dignidade de proporções, com os habituais cómodos de casa semi-rústica alentejana, é um belo exemplar da sua época e estilo. 

BIBL. Visitação dos oratórios de Évora em 1591, ms. N.° 61 da Biblioteca da Manisola, fls. 101-103 (Bibl. Púb. e Arq.º Dist. de Évora). 

terça-feira, 11 de abril de 2017

Casa Nobre da Rua do Paço


Fundação da família Baldeira dos Reis, é obra do período final do reinado de D. João V. Nela habitou desde finais da centúria setecentista o bispo auxiliar da diocese, D. Jacinto Carlos da Silveira, titular do Maranhão e irmão do instituidor da casa, que, pela sua atitude patriótica durante a invasão napoleónica, no solar foi barbaramente assassinado pelos soldados de Loison, na tarde de 29 de Julho de 1808. Moradia de descendentes, ao presente vivem nela o eng. José Sebastião de Torres Vaz Freire e sua esposa D. Maria Guilhermina Nunes Mexia, que reuniram, no seu recheio, núcleo importante mobiliário, de objectos de arte antiga no tradicional hábito português. A fachada principal do edifício está voltada para a Rua do Paço (actual da República, n.° 79) e é constituída por elegante empena de cinco janelas de sacada, no corpo nobre e duas de peito no térreo, sendo a axial, mais elevada, sobrepujante ao portado, de arco abatido, ladeado por pilastras almofadadas, que terminam em pináculos barrocos, de andares. As vergas das janelas, de molduras reentrantes, têm dintéis de volutas e frontões semicirculares, de granito; os balcões, em ferro forjado, são de balaústres cilíndricos encimados por granadas e esferas estilizadas. É obra dos meados do séc. XVIII, exemplificadora do estilo barroco regional, de arquitectura civil. O brasão do cunhal, de mármore de Vila Viçosa, feito em 1948, é do bispo D. Jacinto Carlos da Silveira. A fachada meridional, adornada de janelões do tipo setecentista, foi alteada no 2.° terço do séc. XIX com um pavilhão destinado a quartos, o qual está composto por gradeamento de ferro batido do tipo de barrinha, com papagaios e adornos. Datada de 1854 é a grade do mesmo estilo do portão da carruagem, que dá acesso aos quintais do paço. Muito mais antigas são as dependências desta banda, que se estendem pela travessa da Caraça, em cujo murete exterior existe um modilhão antropomórfico, quinhentista, de pedra recoberta com argamassa e que deu o topónimo à artéria. Tem curiosa frente, assimétrica, de frestas chanfradas e torrinha cilíndrica com remate cónico, outrora revestido de azulejos andaluzes, polícromos e relevados, da arte mourisca dos princípios do séc. XVI. Interiormente, a moradia, de grande conforto e comodidade, poucos elementos de merecimento artístico oferece ao arqueólogo. A capela é coeva dos fundadores e está composta com numerosas lâminas de pintura em cobre, tela e vidro e núcleo de imaginária de marfim, madeira e terracota, além do busto de N.ª S.ª das Dores, obra setecentista de mestre cerieiro. No tecto da nave subsiste o armorial do bispo do Maranhão, pintado a fresco, e em gavetões guardam-se alguns paramentos de tecelagem bordada a oiro e matiz do infortunado prelado. Um dos salões principais, voltado para a Rua da República, conserva em tecto dos fins do séc. XVIII, delicada obra de entalhamento com filetes dourados e caixotões geométricos, rectilíneos e de trompas angulares. As paredes estão ornamentadas a têmpera com grandes painéis rectangulares, figurados por símbolos mitológicos sotopostos a albarradas florais: Ceres, Diana, Neptuno, Baco e Minerva, além de frisos e emolduramentos revestidos de ornatos e retablitos guerreiros alusivos a episódios das campanhas da Guerra Peninsular. No eixo da parede norte, temas históricos da primeira viagem marítima à Índia e recepção, pelo Samorim de Calicute, do almirante D. Vasco da Gama. É agradável trabalho pictórico do 1.° quartel do séc. XIX, inspirado na Arte Etrusca introduzida entre nós pelos ingleses. Do valiosa recheio de Artes Decorativas que exuberantemente compõe o palácio, além do núcleo importantíssimo de cerâmica oriental, enumeramos algumas espécies que, pelas suas características mais importam à arte portuguesa. MOBILIÁRIO ARMÁRIO - De pau-santo e aplicações doutra madeira exótica, dividido em dois corpos de portas almofadadas, com desenhos losangulares: pilastras nos extremos, esculpidas e ornadas de quimeras estilizadas, zoomórficas. Cornijas muito salientes e suportes de pés de garra. Fechaduras, espelhos e puxadores de latão. Estes são guarnecidos de máscaras antropomórficas, do mais estranho exotismo. Trabalho português do último terço do séc. XVII. Dim.: Alt. 2,48 m. Larg. 1,80 m. Fundo, 0,76 m. CONTADOR - De pau-santo, com cinco corpos almofadados e avental de talha esculpida. Pernas de bolachas e torneados. Ferragem de metal amarelo, coeva. Belo móvel português, do séc. XVII. Alt., 0,98 m. Larg. 1,26 m. Fundo, 0,54 m. MEIA-CÓMODA - De nogueira (restaurada), de talha esculpida, alçados e pernas de balanço. Trabalho português do estilo Luís XIV. Época de D. José I. Alt. 0,80 m. Comp. 1,10 m. PAR DE MESAS DE JOGO - De nogueira ou casquinha, com tampos de secção romboide rebordados a oiro, figurados por cenas de caça grossa, exóticas, pintadas a óleo. Suportes de garra, dourados. Trabalho inglês do estilo Chippendale, c.ª de 1750 Alt. 0,75 m. Comp. do tampo, 1,15 x larg. 0,84 m. PAR DE CADEIRAS DE BRAÇOS - De meio espaldar, de madeira de nogueira, guarnecidas de talha e de torneados. Fundo e costas de couro lavrado, com ornatos e armorial dos Silvas, envolvido por aves e flores. Grossas brochas de latão. Trabalho português do séc. XVII. Dim.: alt. 1,30 m, larg. 0,59 m; fundo, 0,44 m. alt. do assento, 0,49m. ONZE CADEIRAS DE ESPALDAR - De nogueira e couro repuxado e pregueado. Suportes torneados e tabelas de talha esculpida. As costas são ricamente ornamentadas com temas fito-antropomórficos, sendo o medalhão axial composto por figura feminina segurando um falcão. Trabalho português do séc. XVII. Alt. 1,40 m. Alt. do assento, 0,49. Fundo, 0,48 m. PAR DE MESAS - De nogueira entalhada, com espelhos e fechaduras de latão dourado. Pernas recurvas. Obra portuguesa do estilo D. José I. ARCA - De pau-santo, com duas gavetas no corpo inferior, guarnecida de brochas de metal estanhado, bem recortadas. Tampo interior laçado de vermelho com cenas douradas de caça grossa, paisagens e motivos exóticos. Arte portuguesa de influência oriental. Último quartel do séc. XVIII. Alt. 0,80 m. Comp. 1,50 m. MESA - De teca com aplicações exóticas, de marfim. Suportes ornamentados por aves de bico estilizadas. Arte Indo-Portuguesa. Séc. XVII. Comp. 0,79 m. Larg. 0,42 m. LEITO PARA PESSOA SÓ - De pau-santo, com ornatos esculpidos e embutidos. Pernas de volutas serpenteantes e pés de garra. Peça portuguesa do estilo D. João V. Alt. da cabeceira, 1,80 m. Alt. dos pés, 0,84 m. Comp. 1,83 m. Larg. da cabeceira, 1,28 m. Outros objectos preciosos: COLCHA - Bordada a seda e matiz sobre fundo de linhagem de algodão. Dominam as cores verde, pérola, amarelo, azul e rosa: franja dourada. Ornatos barrocos, vegetalistas. No eixo, em medalhão de forma elíptica, o armorial esquartelado de Marcos Vaz de Brito Freire Zuzarte, cuja legenda o envolve. Trabalho português do séc. XVIII. Dim.: Comp. 2,36 m. Larg. 2,12 m. GRANDE CANDEEIRO - De latão martelado, de quatro lumes representados por golfinhos, haste espiralada e prato circular decorado com ornatos florais, de baixo-relevo. Curioso trabalho português do estilo barroco. Época de D. João V. Alt. 1,20 m. Diâm. do prato, 0,78 m. RETRATO DE MENINA - Por Domenico Pelligrini. Pintura a óleo sobre tela realizada em Portugal (1803-1810). Ass. nas costas. Alt. 0,70 m x larg. 0,54 m. GRANDE SAMOVAR - De prata branca, em forma de urna sulcada de largos sectores e assente sobre quatro pés de voluta. Decoração de laços e festões delicadamente gravados. Peça muito elegante e bem proporcionada da época de D. Maria I, sugerindo o estilo Adam. Punção do Porto (1792-1810). Iniciais do ourives AIS - António José Soares da Silva. Alt. 0,65 m. LEITEIRA - De prata, em forma ovóide assente sobre pé moldado e bico reproduzindo uma língua. Bojo ornado de grinaldas. Punção do Porto (1792-1810). Iniciais do ourives IAP - José Álvaro Pinheiro - registada em 1806. Alt. 0,25 m. CASTIÇAL - De prata, da época de D. Maria I. Base circular ornada de pérolas e haste de duas secções caneladas. Rebordo de folhagem. Punção do Porto (1768-1792) e as iniciais do ourives IR. Alt. 0,26 m. BULE - De prata branca, em forma elíptica, de bico direito inscrito na base de fundo chato: asa de madeira. Decoração de friso gravado, com grinaldas. Estilo D. Maria I. Punção do Porto (1768-92) Iniciais do ourives MHP. Alt. 0,76 m. BACIA DE BARBA - De prata branca, em forma de concha, muito rara na ourivesaria portuguesa. Punção do Porto registado em 1784: ourives IPP. Peça de influência barroca. CAFETEIRA - De prata branca em forma de pêra alongada com tampa em cúpula hemisférica rematada por uma pequena urna. Inspiração da antiga arte persa. Punção do Porto (1792-1810): iniciais do ourives VR. Alt. 0,35 m. Muitos outros objectos de ourivesaria, principalmente do estilo neoclássico subsistem no recheio da sumptuosa moradia, apesar do saque que sofreu durante a ocupação francesa de Loison em 1808.

BIBL. Reinaldo dos Santos e Irene Quilho, Ourivesaria Portuguesa nas colecções particulares, 1959, vol. I. págs. 83-87. 

domingo, 9 de abril de 2017

Casa Nobre da Rua de Avis (nº41-47)



Desconhecem-se os seus fundadores mas pertenceu, no séc. XIX, à Família Tormenta, do ramo dos Condes da Serra da Tourega e aos Morgados Paes Aleixo. É património actual do eng. Raul Veríssimo de Mira. O edifício apresenta, exteriormente, dois corpos distintos: o nobre e o do 2.° andar. Aquele tem sete janelas de sacada com soleiras graníticas, jambas e cornijas direitas, de massa, moldadas na tradição local do seiscentismo, fechadas por grades férreas de fortes vergalhões cilíndricos terminados em estilizadas campânulas, estas já de época avançada do séc. XVIII. O último andar é excrecência utilitária do século passado. No entre-solo principal, iluminado para a rua pública, existem duas salas e um gabinete totalmente revestidos de pinturas a fresco, de interesse artístico, histórico e literário, em obra datável de c.ª 1800, fortemente inspirada no estilo pompeiano ou etrusco, mas moldado ao gosto nacional. A primeira dependência, antecâmara a partir da escadaria e a mais sóbria, tem apainelados rectangulares nas sobreporias e circulares nas paredes, envolvidos com grinaldas de flores e sanefas, representados por chinoiseries, cenas galantes, paisagens e marinhas ou temas burlescos e circenses, populares. O salão nobre, imediato, de planta acentuadamente trapezoidal e o mais notável de todos, é curiosíssimo exemplar decorativo da Arte neoclássica, onde imperam os mais perturbantes elementos profano-mitológicos e quadros retabulares de personagens da História de Portugal, como os monarcas D. José e D. Maria I, os Príncipes do Brasil D. João e D. Carlota Joaquina de Bourbon, segundo cópias de retratos da galeria do arcebispo D. Fr. Manuel do Cenáculo, e em medalhões ovóides D. Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique de Portugal, o Navegador, extraído da gravura de Jean Charles Baquoy, de 1758; os Vice-Reis e Governadores da índia D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque, D. Vasco da Gama, D. Nuno da Cunha e D. Henrique de Meneses; os escritores Luís de Camões e Manuel de Faria e Sousa e o célebre ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal. Toda a restante superfície parietal se encontra recoberta de atributos intensamente coloridos, de frisos, molduras e tabelas onde dominam retablitos guerreiros, animais fantásticos, sereias, cariátides, esfinges, centauros, faunos, querubins, grinaldas, palmetas e outros florões naturalistas. O tecto, abatido, de pequena flexa, em caixotões de estuque, tem, no eixo, grande painel de secção romboide, figurado pela Fama conduzida por Graças e lateralmente outros quadrinhos elípticos com cenas pagãs, sendo os ângulos compostos pelas quatro partes do Mundo: Europa Ásia, África e América, ornamentadas pujantemente com figuras simbólicas humanas, zoomórficas e naturalistas dos Continentes. O gabinete, a mais meridional das câmaras pintadas, está dedicado às Belas-Artes. Tem retratos de homens célebres da antiguidade clássica e do iluminado século XVIII, alegorias extraídas do Velho Testamento e da Mitologia, além de interpretações das Ciências Matemáticas, Geografia, Física, Astronomia, Artes Industriais, História, Filosofia e da Literatura, etc. O elemento natural, por outro lado, completa o revestimento a fresco, que é iluminado, no centro da abóbada pelo retábulo da Eternidade Humana: A Vida e a Morte. A sala de jantar foi ornamentada modernamente com três portados de mármores embrechados, do estilo rocócó, setecentista e provenientes de destruídas casas religiosas da cidade. São lavrados com pilastras almofadadas e empenas compostas por cartelas ovoladas e circulares ilustradas na simbologia celeste: o Sol, a Lua, Estrelas, frutos, fachos de fogo, a torre e o Anjo, a coroa marial e o emblema de AM. Um quarto portal, de mármore branco e de linhas de fantasia, com acrotérios esferóides e jambas curvilíneas ornamentadas com palmetas e acantos, dá acesso à estufa da casa, onde se aplicaram em forma arquitectural, três arcos redondos de colunas também calcárias, salomónicas e de capitéis compósitos, e nas paredes, além de pia de água benta, dois nichos apilastrados, com frontões de enrolamento, cruzes e flores de liz. Aquele, é adaptação de uma roda conventual: está datado de 1722. Estas últimas peças arqueológicas, que se diz terem pertencido à Igreja do Hospital da Misericórdia, são do estilo barroco. 

Informação retirada daqui

terça-feira, 4 de abril de 2017

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