terça-feira, 11 de abril de 2017

Casa Nobre da Rua do Paço


Fundação da família Baldeira dos Reis, é obra do período final do reinado de D. João V. Nela habitou desde finais da centúria setecentista o bispo auxiliar da diocese, D. Jacinto Carlos da Silveira, titular do Maranhão e irmão do instituidor da casa, que, pela sua atitude patriótica durante a invasão napoleónica, no solar foi barbaramente assassinado pelos soldados de Loison, na tarde de 29 de Julho de 1808. Moradia de descendentes, ao presente vivem nela o eng. José Sebastião de Torres Vaz Freire e sua esposa D. Maria Guilhermina Nunes Mexia, que reuniram, no seu recheio, núcleo importante mobiliário, de objectos de arte antiga no tradicional hábito português. A fachada principal do edifício está voltada para a Rua do Paço (actual da República, n.° 79) e é constituída por elegante empena de cinco janelas de sacada, no corpo nobre e duas de peito no térreo, sendo a axial, mais elevada, sobrepujante ao portado, de arco abatido, ladeado por pilastras almofadadas, que terminam em pináculos barrocos, de andares. As vergas das janelas, de molduras reentrantes, têm dintéis de volutas e frontões semicirculares, de granito; os balcões, em ferro forjado, são de balaústres cilíndricos encimados por granadas e esferas estilizadas. É obra dos meados do séc. XVIII, exemplificadora do estilo barroco regional, de arquitectura civil. O brasão do cunhal, de mármore de Vila Viçosa, feito em 1948, é do bispo D. Jacinto Carlos da Silveira. A fachada meridional, adornada de janelões do tipo setecentista, foi alteada no 2.° terço do séc. XIX com um pavilhão destinado a quartos, o qual está composto por gradeamento de ferro batido do tipo de barrinha, com papagaios e adornos. Datada de 1854 é a grade do mesmo estilo do portão da carruagem, que dá acesso aos quintais do paço. Muito mais antigas são as dependências desta banda, que se estendem pela travessa da Caraça, em cujo murete exterior existe um modilhão antropomórfico, quinhentista, de pedra recoberta com argamassa e que deu o topónimo à artéria. Tem curiosa frente, assimétrica, de frestas chanfradas e torrinha cilíndrica com remate cónico, outrora revestido de azulejos andaluzes, polícromos e relevados, da arte mourisca dos princípios do séc. XVI. Interiormente, a moradia, de grande conforto e comodidade, poucos elementos de merecimento artístico oferece ao arqueólogo. A capela é coeva dos fundadores e está composta com numerosas lâminas de pintura em cobre, tela e vidro e núcleo de imaginária de marfim, madeira e terracota, além do busto de N.ª S.ª das Dores, obra setecentista de mestre cerieiro. No tecto da nave subsiste o armorial do bispo do Maranhão, pintado a fresco, e em gavetões guardam-se alguns paramentos de tecelagem bordada a oiro e matiz do infortunado prelado. Um dos salões principais, voltado para a Rua da República, conserva em tecto dos fins do séc. XVIII, delicada obra de entalhamento com filetes dourados e caixotões geométricos, rectilíneos e de trompas angulares. As paredes estão ornamentadas a têmpera com grandes painéis rectangulares, figurados por símbolos mitológicos sotopostos a albarradas florais: Ceres, Diana, Neptuno, Baco e Minerva, além de frisos e emolduramentos revestidos de ornatos e retablitos guerreiros alusivos a episódios das campanhas da Guerra Peninsular. No eixo da parede norte, temas históricos da primeira viagem marítima à Índia e recepção, pelo Samorim de Calicute, do almirante D. Vasco da Gama. É agradável trabalho pictórico do 1.° quartel do séc. XIX, inspirado na Arte Etrusca introduzida entre nós pelos ingleses. Do valiosa recheio de Artes Decorativas que exuberantemente compõe o palácio, além do núcleo importantíssimo de cerâmica oriental, enumeramos algumas espécies que, pelas suas características mais importam à arte portuguesa. MOBILIÁRIO ARMÁRIO - De pau-santo e aplicações doutra madeira exótica, dividido em dois corpos de portas almofadadas, com desenhos losangulares: pilastras nos extremos, esculpidas e ornadas de quimeras estilizadas, zoomórficas. Cornijas muito salientes e suportes de pés de garra. Fechaduras, espelhos e puxadores de latão. Estes são guarnecidos de máscaras antropomórficas, do mais estranho exotismo. Trabalho português do último terço do séc. XVII. Dim.: Alt. 2,48 m. Larg. 1,80 m. Fundo, 0,76 m. CONTADOR - De pau-santo, com cinco corpos almofadados e avental de talha esculpida. Pernas de bolachas e torneados. Ferragem de metal amarelo, coeva. Belo móvel português, do séc. XVII. Alt., 0,98 m. Larg. 1,26 m. Fundo, 0,54 m. MEIA-CÓMODA - De nogueira (restaurada), de talha esculpida, alçados e pernas de balanço. Trabalho português do estilo Luís XIV. Época de D. José I. Alt. 0,80 m. Comp. 1,10 m. PAR DE MESAS DE JOGO - De nogueira ou casquinha, com tampos de secção romboide rebordados a oiro, figurados por cenas de caça grossa, exóticas, pintadas a óleo. Suportes de garra, dourados. Trabalho inglês do estilo Chippendale, c.ª de 1750 Alt. 0,75 m. Comp. do tampo, 1,15 x larg. 0,84 m. PAR DE CADEIRAS DE BRAÇOS - De meio espaldar, de madeira de nogueira, guarnecidas de talha e de torneados. Fundo e costas de couro lavrado, com ornatos e armorial dos Silvas, envolvido por aves e flores. Grossas brochas de latão. Trabalho português do séc. XVII. Dim.: alt. 1,30 m, larg. 0,59 m; fundo, 0,44 m. alt. do assento, 0,49m. ONZE CADEIRAS DE ESPALDAR - De nogueira e couro repuxado e pregueado. Suportes torneados e tabelas de talha esculpida. As costas são ricamente ornamentadas com temas fito-antropomórficos, sendo o medalhão axial composto por figura feminina segurando um falcão. Trabalho português do séc. XVII. Alt. 1,40 m. Alt. do assento, 0,49. Fundo, 0,48 m. PAR DE MESAS - De nogueira entalhada, com espelhos e fechaduras de latão dourado. Pernas recurvas. Obra portuguesa do estilo D. José I. ARCA - De pau-santo, com duas gavetas no corpo inferior, guarnecida de brochas de metal estanhado, bem recortadas. Tampo interior laçado de vermelho com cenas douradas de caça grossa, paisagens e motivos exóticos. Arte portuguesa de influência oriental. Último quartel do séc. XVIII. Alt. 0,80 m. Comp. 1,50 m. MESA - De teca com aplicações exóticas, de marfim. Suportes ornamentados por aves de bico estilizadas. Arte Indo-Portuguesa. Séc. XVII. Comp. 0,79 m. Larg. 0,42 m. LEITO PARA PESSOA SÓ - De pau-santo, com ornatos esculpidos e embutidos. Pernas de volutas serpenteantes e pés de garra. Peça portuguesa do estilo D. João V. Alt. da cabeceira, 1,80 m. Alt. dos pés, 0,84 m. Comp. 1,83 m. Larg. da cabeceira, 1,28 m. Outros objectos preciosos: COLCHA - Bordada a seda e matiz sobre fundo de linhagem de algodão. Dominam as cores verde, pérola, amarelo, azul e rosa: franja dourada. Ornatos barrocos, vegetalistas. No eixo, em medalhão de forma elíptica, o armorial esquartelado de Marcos Vaz de Brito Freire Zuzarte, cuja legenda o envolve. Trabalho português do séc. XVIII. Dim.: Comp. 2,36 m. Larg. 2,12 m. GRANDE CANDEEIRO - De latão martelado, de quatro lumes representados por golfinhos, haste espiralada e prato circular decorado com ornatos florais, de baixo-relevo. Curioso trabalho português do estilo barroco. Época de D. João V. Alt. 1,20 m. Diâm. do prato, 0,78 m. RETRATO DE MENINA - Por Domenico Pelligrini. Pintura a óleo sobre tela realizada em Portugal (1803-1810). Ass. nas costas. Alt. 0,70 m x larg. 0,54 m. GRANDE SAMOVAR - De prata branca, em forma de urna sulcada de largos sectores e assente sobre quatro pés de voluta. Decoração de laços e festões delicadamente gravados. Peça muito elegante e bem proporcionada da época de D. Maria I, sugerindo o estilo Adam. Punção do Porto (1792-1810). Iniciais do ourives AIS - António José Soares da Silva. Alt. 0,65 m. LEITEIRA - De prata, em forma ovóide assente sobre pé moldado e bico reproduzindo uma língua. Bojo ornado de grinaldas. Punção do Porto (1792-1810). Iniciais do ourives IAP - José Álvaro Pinheiro - registada em 1806. Alt. 0,25 m. CASTIÇAL - De prata, da época de D. Maria I. Base circular ornada de pérolas e haste de duas secções caneladas. Rebordo de folhagem. Punção do Porto (1768-1792) e as iniciais do ourives IR. Alt. 0,26 m. BULE - De prata branca, em forma elíptica, de bico direito inscrito na base de fundo chato: asa de madeira. Decoração de friso gravado, com grinaldas. Estilo D. Maria I. Punção do Porto (1768-92) Iniciais do ourives MHP. Alt. 0,76 m. BACIA DE BARBA - De prata branca, em forma de concha, muito rara na ourivesaria portuguesa. Punção do Porto registado em 1784: ourives IPP. Peça de influência barroca. CAFETEIRA - De prata branca em forma de pêra alongada com tampa em cúpula hemisférica rematada por uma pequena urna. Inspiração da antiga arte persa. Punção do Porto (1792-1810): iniciais do ourives VR. Alt. 0,35 m. Muitos outros objectos de ourivesaria, principalmente do estilo neoclássico subsistem no recheio da sumptuosa moradia, apesar do saque que sofreu durante a ocupação francesa de Loison em 1808.

BIBL. Reinaldo dos Santos e Irene Quilho, Ourivesaria Portuguesa nas colecções particulares, 1959, vol. I. págs. 83-87. 

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