quinta-feira, 13 de abril de 2017

Casa Nobre da Rua do Raimundo nº112


Desconhece-se a quem se deve os fundamentos deste interessante imóvel, exemplar de arquitectura civil dos fins do séc. XV, que se construiu cerca de 1492 (data moderna afixada no alçado posterior do lado da horta) e sofreu reparações substanciais em 1894 e 1956, estas feitas pelo proprietário Manuel Dias Descalço, a cujos herdeiros pertence na actualidade. Em 1591 habitavam em casas apalaçadas nesta rua D. Joana de Vasconcellos, viúva do claveiro, e o cónego Francisco de Macedo, personagem da câmara do Cardeal-Infante D. Henrique, irmão do comendador Manuel de Macedo, dono do edifício, que residia em Alenquer mas conservava aqui como feitor o súbdito espanhol Fernando de Ferreira. Uma destas personagens vivia, portanto, neste solar nos fins da centúria quinhentista e é provável que descendente dos fundadores; todavia, a ausência de documentação exacta, numa rua tão comprida como cheia de casas nobres toma difícil atribuir, com segurança, a qual deles pertenceu. O prospecto externo conserva os alçados originais, manuelinos, assentes em sólida albarrada de cantaria aparelhada, com abertura rectangular: as coberturas, de quatro águas, dividem em vários planos os pavilhões antigos, mas restaurados. No corpo mais arcaico levanta-se imponente chaminé de base quadrada e tubo cilíndrico, de tiragem excepcional, certamente obra de época muito avançada mas digna de conservação. A fachada posterior do alteroso pavilhão, que deita para os jardins (sobranceito à nora de telhados de madeira de nogueira, de secção octogonal, muito aguda, em desenho de inspiração árabe, com raios e discos de reminiscências mudejares, quinhentistas), robustecido nos cunhais por aparelho granítico mantém, no piso térreo, embora obstruído, friso de janelas rectangulares, geminadas, de jambas e dintéis chanfrados. Os mainéis, marmóreos, de algumas aberturas, foram destruídos mas subsistem dispersos ou aplicados no lago os capitéis mudejares-manuelinos e muitos bocados de fustes finíssimos. No andar principal, completamente modificado, respeitaram os balcões de granito com cornijas salientes e as grades de ferro forjado das sacadas, sendo uma delas de balaústres quadrados e trapezoidais, seguramente dos fins do séc. XVI. No corpo sul-poente do edifício, que deitava para os lagos do jardim, levantava-se o terraço, com eirado e torrinha terminal, cónica, hoje desaparecidos. Interiormente, no piso térreo, irregular como todas as construções coevas, existem inúmeros vestígios de arquitectura manuelina e do tempo de D. João III, de robustíssimos muros de feição militar, portados com munhoneiras, um duplo arco de volta inteira, de chanfros de granito; passadiço comunicante a pátio outrora ajardinado, de nichos e pinturas fresquistas, que se apoia em pilastras de pedra almofadada, no tipo rústico (séc. XVII) e embebidas em várias paredes mísulas e capitéis prismáticos, do estilo manuelino, ornados de bolas, cordas, mascarões e outros elementos usados na arquitectura portuguesa desse tempo. O imóvel, pelo carácter, assimetria e dignidade de proporções, com os habituais cómodos de casa semi-rústica alentejana, é um belo exemplar da sua época e estilo. 

BIBL. Visitação dos oratórios de Évora em 1591, ms. N.° 61 da Biblioteca da Manisola, fls. 101-103 (Bibl. Púb. e Arq.º Dist. de Évora). 

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