Convento de Santa Mónica


Foi a primeira casa religiosa do sexo feminino da Ordem de Santo Agostinho, em Portugal, e teve seus primórdios no reinado de D. Fernando. No ano de 1380 duas virtuosas damas eborenses, Constança Xira e Maria Fernandes, moradoras próximo da igreja paroquial de S. Mamede, instituíram um beatério onde praticavam, juntamente com outras mulheres e donzelas, actos de muita virtude e religião. Construída, mais tarde modesta igrejinha que se dedicou a Santa Mónica e falecidas as fundadoras em cujo chão tiveram jazida, as sucessoras do recolhimento obtiveram no ano de 1421 a obtenção de votos sacros na Ordem de Santo Agostinho, com absoluta sujeição dos superiores da mesma Regra. 

Em 1541, após lamentável incidente com o Provincial Fr. André, provocado por reacções da observância monástica, o Geral da Ordem declinou afiliação da casa, que foi entregue à administração directa da Mitra, que lhe introduziu, pouco depois e sem problemas graves, a clausura determinada pelas actas do Concílio de Trento, em 1564, e em cujo seio se conservou até à extinção das Ordens Religiosas. Em 1571 passou à história com a crismação piedosa de Convento do Menino Jesus, em virtude de certos acontecimentos internos e devotos da Abadessa perpétua, D. Catarina de Sousa, atribuídos à célebre imagem do Deus Menino segurando a esfera celeste, que se conservava em sacrário dourado no coro da igreja. Secularizado no último quartel do séc. XIX breve entrou no abandono e consequente ruína. Todavia, a igreja só foi destruída nos princípios do século actual. 

Era um curioso exemplar de arquitectura manuelina, de fachada amparada por torrinhas cilíndricas rematadas com ameias quinhentistas e coruchéus cónicos, de uma só nave revestida de azulejos policromos, do tipo de tapete, do séc. XVII. Pitoresco pavilhão, de planta quadrangular e telhado de quatro águas, com aberturas de grilhagem mourisca, levantava-se no corpo do coro monástico. Perdido o templo, na derrocada desfez-se, também, o lanço oriental do claustro confiante com a construção. É esta parte do edifício a que oferece maior curiosidade artístico-arqueológica, pois conserva três restantes lanços antigos, embora de valores construtivos desiguais. O mais arcaico, a ocidente, bem contrafortado e de ogivas góticas, tem cinco tramos de arcos redondos apoiados em pilastras e colunas toscanas, de granito. As duas restantes galerias, desiguais e mais pobres de arquitectura, são ligeiramente posteriores. A do lado norte, com seis tramos de arcadas duplas, de volta abatida ou de meio canhão, protegidos por botaréus de alvenaria, é obra nitidamente popular mas muito curiosa. Foi beneficiada no ano de 1630. 

A sua abóbada conserva os artezões estrelados e painéis geométricos de estuque, decorados por cartelas engrinaldadas, laçarias e outros arabescos usados no fim do Renascimento e princípios do Barroco. Observam-se vestígios de pinturas murais, coloridas, nos intervalos das nervuras, que sofreram inúmeras caiações modernas. Neste corpo existe a Sala do Capítulo, nobre e vasta dependência de planta rectangular, dividida em sete tramos, coberta por tecto abatido de aranhiços encadeados, de aresta viva, abraçados por cordão emoldurado, de alvenaria, que envolve toda a construção. A porta de entrada, de jambas de granito, modestíssima tem, na padieira, gravadas as iniciais A. G. L. D. F. E. Toda esta parte da quadra oferece características dos finais do quinhentismo. Ainda, de mencionar, da época das religiosas agostinhas, subsistem algumas salas de abóbadas nervadas, nichos vazios, uma galeria com arcos de volta inteira, a ocidente, sobrepujada recentemente por varandim de arcaria abatida e a Portaria, composta de nobre salão de planta quadrangular, com alto pé direito e tecto apainelado ao gosto barroco, do séc. XVII, de nervuras apoiadas em mísulas de volutas rebocadas. 

No claustro também existiu, de merecimento, a Capela de N.ª S.ª do Rosário, revestida de azulejaria setecentista e de altar de talha dourada, decorado por raríssima série de painelinhos de esmaltes policromos, com cenas sagradas, indevidamente retiradas e hoje inlocalizáveis. Exteriormente, demolido o alpendre de três arcos e cúpula piramidal, do género e estilo do existente na fachada do extinto convento de Nossa Senhora do Carmo, ficou, deslocado do interior da portaria, o portado de mármore branco, com moldura simples e dintel ornamentado por volutas floridas sobrepujado por elegante vieira. Sotoposto tem a data: ANNO 1726. 

A silhueta do edifício, nesta frente principal, com seus gigantes de pedra aparelhada, em dois andares, oferece severo aspecto apenas atenuado pela brancura das empenas, que sofreram grave abalo e ruína durante o sismo de 1926. A cerca conventual, de área murada relativamente pequena, era delimitada ao norte-oriente pela horta dos Duques de Cadaval, e a ocidente com o outeiro público de S. Mamede, onde ficavam as oficinas e a porta da carruagem, zona que sofreu completa amputação, recente, do primitivo casario monástico, onde se incluía a grande Capela do Jordão, datada de 1781, com forro de azulejos barrocos e donde se retirou o conjunto escultórico do Baptismo de Jesus, actualmente reconstituído na igreja de S. Francisco. A parte central esteve ocupada, muitos anos, pela Escola Primária Oficial, Cantina Escolar e Escola do Grupo de Amadores de Música Eborense. 

BIBL. Pe. Manuel Fialho, Évora Ilustrada, ms. da Biblioteca Pública de Évora; Pe. António Franco, Évora Ilustrada, edição Nazareth, 1946, págs. 314-317; Gabriel Pereira, O Convento de Santa Mónica, in O Manuelinho de Évora, 1881. 

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