Palácio dos Conde de Murça


Foi fundado na antiga Rua de Alconchel, por D. Rui de Melo, conselheiro de D. João III e avô de D. António de Melo, que o terminou nos fins do séc. XVI. Deste cavaleiro e de sua mulher D. Francisca Henriques (descendente do caçador-mor do rei Piedoso), D. Jorge Henriques, nasceu o ilustre varão D. Jorge de Melo, grande patriota e um dos nobres aclamadores de D. João IV, em Évora, o qual, sendo casado com D. Margarida de Távora, filha de D. Pedro Guedes, senhor de Murça, foi progenitor de D. João de Melo, bispo-conde de Coimbra, instituidor do morgado da Figueira da Foz (1624-1704) e de D. Pedro de Melo, governador da Província do Maranhão, no Brasil. O1.° morgado da Figueira, D. António José de Melo, foi consorciado com D. Joana de Mendonça, primogénita de D. Pedro Guedes de Miranda, senhor de Murça, e tiveram a D. Pedro José de Melo, o qual se matrimoniou com D. Maria de Bourbon, filha de D. Jorge Henriques, senhor das Alcáçovas e descendente do rei de Castela, D. Henrique de Trastâmara. Deles descenderam D. José Maria Rita de Castelo Branco, 1.° Conde de Figueira da Foz, morto sem geração, e D. Miguel António de Melo, 3.° neto do fundador da casa de Évora, que morreu no ano de 1836 investido no título de 1.° Conde de Murça. 

A última donatária do solar, D. Antónia José de Melo, casada com o oficial de engenharia Bernardino Pinheiro Correia de Melo, vendeu o imóvel ao lavrador José Rosado de Carvalho, que o transformou, profundamente, a partir de 1894. Em 1948 foi adquirido pelo Estado a Alberto Leger Rosado de Carvalho, conhecido proprietário do Monte do Barrocal, e nele se instalou a Delegação Provincial da F. N. A. T. O edifício, que era primitivamente de pequeno porte e delimitado por habitações de Damião Fernandes, Belchior da Silva e do cavaleiro Duarte Afonso, veio a absorver, em 1542, por compra de D. Rui de Melo à Câmara, parte dos terrenos públicos, compreendendo um beco e o vão sobrepujante ao chafariz dos cavalos, onde se armou uma frontaria com balcões contíguos ao adro da ermida de Santo Antoninho para se verem os touros e demais cavalhadas na Praça Grande (Geraldo). A D. Jorge de Melo e sobretudo a seu filho D. António de Melo se deve, em conclusão, o remate da obra, a qual, segundo escritura lavrada em 1590, com o Senado, se delimitou entre a esquina da Rua dos Caldeireiros e o terreiro da nova Colegiada de Santo Antão, lugar onde se armavam as tribunas dos Inquisidores do Santo Ofício. Neste pavilhão do palácio, em passadiço sobre o chafariz público guardava-se interessante e original colecção de retratos dos condenados em Autos da Fé, que se perdeu por destruição intencional, depois de 1730. 

O vasto solar, que chegou aos fins do séc. XIX com as fachadas primitivas do quinhentismo, perdeu, em absoluto, a silhueta clássica, substituída pelo arranjo monótono e descaracterizado actual, de rasgadas janelas de sacada com guarnições de massa e balcões de ferro fundido. Nas obras respeitaram-se, todavia, no corpo térreo, algumas aberturas rectangulares, de duplas molduras paralelas, de granito e o alto portal, rematado em padieira rectilínea de volutas barrocas, sobre o qual existia, segundo parece, o brasão de armas dos donatários, que esteve muitos anos no Monte do Barrocal servindo de tampo de um poço. Este armorial, de mármore branco, de oiro, com seis bilhetas deitadas, de vermelho, cada urna carregada de um besante de prata, foi colocado conjecturalmente na fachada sobrepujante ao chafariz, a instâncias da Comissão Municipal de Turismo, no ano de 1946. O chafariz, que continua encravado no paço após as modificações introduzidas nos fins de novecentos, quase no topo superior da Rua de Serpa Pinto, foi construído pelo Município afim de aproveitar as águas correntes da Fonte da Praça do Geraldo, anos depois da fundação do Aqueduto da Água da Prata, na 2.ª metade do séc. XVI. Na feição actual nada de particular o recomenda no domínio arqueológico. Grande arco abatido com moldura de alvenaria, de ornamento central escaiolado, protege alta taça de placas de mármore e, no vão, duas carrancas do mesmo material, de representação antropomórfica, do quinhentismo, desfiguradas pela acção do tempo. Escapou, quase intacto, o famoso claustro da Renascença, dos meados do séc. XVI, em colunata dórica e pilastras de forte aparelho granítico, patinado, composto por três faces abertas, de quatro tramos e vãos de volta perfeita, sendo o do lado oriental fechado com dependências térreas, de amplos salões coevos, de planta assimétrica, de grossos pilares quadrados suportando abóbadas de aresta, arcos abatidos e de volta redonda. 

A galeria superior, de colunelos toscanos, de mármore branco, também da ordem dórica, com friso clássico ornamentado por triglifos na arquitrave, está obstruída por caixilharia envidraçada, moderna; foi, recentemente, beneficiada pela Direcção Geral dos Edifícios Nacionais, que lhe apeou uma falsa platibanda com reposição de algumas boas peças de cantaria. Esta quadra é a melhor construção do seu género de arquitectura civil existente em casas nobres de Évora: os tectos, são de aresta viva ou de nervuras de alvenaria, e o corpo de entrada, vasto como um grande salão, elegante obra de arte palaciana, está robustecido por colunas toscanas de granito, suportando o arranque da abóbada, com estrela polinervada, de aresta viva, tendo ao centro curioso boceto esculpido na figuração da Cruz de Cristo. A escadaria de acesso ao primeiro andar, aberta em sóbrio mas bem proporcionado portal granítico, concebido nas linhas sóbrias do classicismo final, conserva as linhas originais, que foram, todavia, estruturalmente refeitas no século passado e as paredes revestidas de estuques em relevo, ao gosto neo-clássico, por artistas de Afife. Numa das salas do corpo nascente subsiste interessante lavabo de mármores regionais, negros e brancos, do estilo barroco, com depósito de três almofadas e frontão interrompido, cronografado de 1690. O oratório antigo, que conservava baixo rodapé de azulejos seiscentistas, foi completamente transformado. 

BIBL. Túlio Espanca, A Cidade de Évora, n.º 25-26, 1951, pág. 498-500. 

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