sábado, 15 de abril de 2017

Casa Nobre do Largo dos Penedos


É atribuída, nos fundamentos, a Francisco de Mendanha, fidalgo da Casa Real de D. Manuel, filho do célebre alcaide de Castro Nuno, em Castela, Pero de Mendanha, que tão dedicado foi à causa de D. Joana, a Excelente Senhora e a D. Afonso V, malograda no desastre de Toro. Aquele monarca, segundo Alvará feito em Almeirim, com data de 19 de Maio de 1508, existente no Arquivo Municipal de Évora, concedeu-lhe as terras e fossos da barbacã situados ao norte das Portas de Alconchel, defronte do Poço da Boa Mulher, que foi substituído, mais tarde e em desvio acentuado, pelo chafariz público existente na actualidade, para neles se plantarem árvores e arbustos na azinhaga de suas casas. Os vastos paços tinham então frentes para os Largos de Alconchel e dos Penedos, Ruas da Carta Velha, Cal-Branca e dos Penedos, ficando esta sobrepujada por amplo passadiço de alvenaria que o falcoeiro-mor de D. João III, Jorge Henriques, lhe construiu em 1550 sobre a adarve da muralha medieval, na intenção de nos terraços dela fazer gaiolas e poleiros onde se espanejassem ao sol as aves de rapina. O edifício quinhentista chegou ao nosso século muito maltratado e subdividido no regime de enfiteuse comum. Parece que um incêndio lhe destruiu parte do corpo superior; formosas salas do rés-do-chão, com abóbadas de cruzaria artesonada, em cantaria e chaves de desenhos zoomórficos, jazeram durante anos no mais confrangedor abandono. Esta cobertura veio por terra há cerca de dez anos e um proprietário recente vendeu tão curiosos vestígios artísticos do estilo gótico- manuelino e cedeu uma curiosa janela de jambas e arcos de ferradura, geminada, de granito, do mesmo período que foi, ulteriormente, reconstituída na fachada posterior da antiga moradia dos morgados de Manedos, que deita sobre o arco da travessa de André Cavalo. Já o ciclone de 15 de Fevereiro de 1941 destruíra, por desabamento, duas alterosas chaminés do séc. XVI que, voltadas para o Largo dos Penedos, ofereciam na empena do edifício pinturesca silhueta. Do velho solar chegou ao nosso tempo, apenas, com merecimento arqueológico, o passadiço de 1550, um enegrecido pavilhão coetâneo, recoberto de fendas e restos de reboco artístico, que ultrapassa a muralha da cerca nova, e a torre cilíndrica de coruchéu cónico da escada de caracol. Este cubelo é abraçado no exterior por duplo cordão de perfis circulares e é iluminado com algumas frestas coevas. Curioso colar de merlões chanfrados arranca da cimalha e envolve a base do coruchéu que, terminado por pináculo de granito, aponta com singular capricho e elegância a linha do céu. Todos os pertences anexos, do casario, além de uma ou outra patinada pedra que surge das empenas fortemente caiadas de branco, com uma insistência que fere a vista, são elementos descaracterizados que o tempo e o utilitarismo apresentam como símbolos de uma época de mau gosto. 

BIBL. Túlio Espanca, A Cidade de Évora, n.° 33-34, 1953, págs. 452-453. 

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