quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

“Arcada” o café da tradição



A abertura do Café Arcada em 14 de Fevereiro de 1942, «considerado um dos melhores do País, com mais de 100 mesas, possuindo frigorífico e outras inovações modernas», foi tida como um acontecimento social de grande impacto no quotidiano citadino. Iniciativa conjunta de António Justino Mexia da Costa Praça, Basílio da Costa Oliveira, Celestino Costa e António Borges Barreto, quatro dos maiores comerciantes eborenses, o estabelecimento foi inaugurado com um «jantar à americana (para famílias)», sendo obrigatório o uso de «trajo de passeio». As inscrições para o repasto efectuaram-se no próprio café ou através do telefone 357, permitindo a selecção dos clientes, que no final brindaram com champanhe e ouviram actuar a Orquestra de Jazz Luz e Vida em «alguns números do seu seleccionado reportório», como salientava o relato do “Notícias d’Évora”.

A exploração comercial efectuava-se em regime de aluguer pois o prédio pertencia, como pertence, ao Legado do Caixeiro Alentejano, ocupando o café todo o piso inferior, estando o 1º. andar reservado para várias acomodações tidas por indispensáveis no apoio ao funcionamento. A entrada fazia-se por três portas, sendo a principal a que dava para a Praça do Giraldo. Esta tinha a novidade de possuir uma porta rolante ou giratória igual à do famoso “Café Chave d’Ouro”, situado em pleno Rossio lisboeta, à imagem do qual havia sido projectado e que veio a ser encerrado em 1959. As outras entradas faziam-se lateralmente pela Rua Nova e no topo pela Alcárcova de Cima.

O seu interior havia sido decorado e equipado com grande luxo e requinte, o que fez com que se tivesse tornado o primeiro do género a ser frequentado por senhoras, ainda que geralmente acompanhadas pelos respectivos consortes. As mais de cem mesas espalhadas por uma área considerável eram todas niqueladas, com tampo de vidro, apresentando em complemento cadeiras de grande comodidade. Toda a louça (incluindo os indispensáveis cinzeiros) ostentava a marca Vista Alegre e havia sido adquirida na loja de José Leal Tojo, na Praça do Giraldo, representante da fábrica na cidade.

Ao lado direito ficava o balcão, numa extensão de oito metros e dotado dos mais recentes requisitos na área do frio. Ligado a este ficou a funcionar uma ampla cozinha com bastante luz e grande arejamento. Logo a seguir, e num plano superior, ficavam uma barbearia e um salão de cabeleireiro, explorados pelo casal Viriato. Debaixo ficaram montados os serviços sanitários. Junto à entrada, fora colocada no flanco esquerdo uma tabacaria com atendimento feminino, enquanto o lado direito era, como actualmente, ocupado pela pastelaria onde se confeccionava a doçaria regional, com especial destaque para as soberbas e deliciosas queijadas de Évora e para o doce de escorcioneira apresentado em tarro corticeiro.

Nos primeiros tempos o Arcada foi frequentado pela burguesia local, pequenos grupos de intelectuais, gente do reviralho, profissionais liberais e estudantes liceais. Os latifundiários e os agricultores frequentavam o Café Camões, à Porta Nova. Mas com a perda de centralidade desta zona e o acrescido ganho de importância da Praça do Giraldo, estes passaram a tomar de assalto o Arcada às terças-feiras, dia do mercado semanal. Em plena Praça e no interior do Café se discutiam e apalavravam negócios, tendo ali chegado a funcionar uma informal bolsa de gado. No seu romance “Aparição” o escritor Vergílio Ferreira relata bem o ambiente do Café Arcada quando nele entrou pela primeira vez em 1946, colocando a sua visão na boca do protagonista Alberto Soares. «... acabámos por marcar o encontro para o dia seguinte no Arcada sem que o Moura se lembrasse de que era uma terça-feira, ou seja dia de mercado.

Com efeito, ao entrar no café, após o almoço, tive a surpresa de ver aquele vasto túnel apinhado de gente. O corredor atravancava-se de negociantes, porque era ali, entre bebidas, que se realizava o mercado da semana. A terça-feira era «dia de porcos», como soube mais tarde que lhe chamavam». O escritor ficou aliás com uma marca indelével do “Arcada”, pois foi ali que o seu colega e padrinho de casamento, Alberto Miranda, lhe pagou a boda, a qual consistiu num galão a cada um e bolos, conforme revelou em “Conta-Corrente 2”.

Entretanto, com o passar do tempo, aos lavradores veio juntar-se uma corte de gente ligada ao mundo dos touros e ao marialvismo rural, composta por ganadeiros, toureiros e aprendizes, moços de forcados, apoderados, equitadores, aficionados e professores e alunos da Escola de Regentes Agrícolas. Com a subida do Lusitano à I Divisão em 1952 a fama do Café chegou a Lisboa. Os adeptos do Sporting, do Benfica e do Belenenses, do Vitória de Setúbal e do Barreirense, que aos milhares se deslocavam a Évora para apoiar as suas equipas, conheceram-no, apreciaram-no e dele fizeram grande propaganda na capital e arredores.

Com tão grande afluência o Arcada tornou-se um espaço de enorme concentração de gentes onde predominava a vozearia, o barulho e a fumaceira que nem as grandes ventoinhas do tecto conseguiam eliminar. Pequenas alterações foram feitas. No balcão foram instalados tamboretes.
Por baixo da barbearia foi aberta uma espécie de cave, excelentemente decorada, para instalar o restaurante. Naquela, uma sedutora manicura, morena, madura e roliça, bem ao jeito da época, passou a fazer as unhas e as delícias dos clientes mais endinheirados. E cá fora, na rua, bem encostado à vitrina da pastelaria, o Licas, um ardina local, e respectiva família montaram a sua banca de jornais. Durante duas décadas o Café viveu os seus melhores tempos e tornou-se uma referência incontornável da cidade

Por meados dos anos 60 o estabelecimento começou a dar sinais de algum declínio. Em 1964 faleceu António Borges Barreto, o mais dinâmico dos sócios da empresa e na prática o dono do Café; no final de 1966 o Lusitano foi despromovido ao escalão secundário do futebol português; a agricultura regional, por sua vez, começava a enfrentar algumas dificuldades e a generalização no acesso à TV começava a fazer mossa na frequência nocturna, pelo que a orquestra privativa emudeceu definitivamente e foi desmantelada.

A Revolução de Abril acentuou-lhe a decadência retirando-lhe a antiga frequência dos terratenentes e seareiros, engolidos na voragem do PREC. No seu interior tudo se começara a degradar, sem que os novos gerentes se manifestassem favoráveis a um investimento de fundo. Os empregados mais antigos ainda o tomaram em auto gestão. Em vão. O encerramento foi a solução encontrada depois de duas tentativas goradas de reabertura por pouco tempo.

Esta situação durou alguns anos e causava o desgosto de quem por ali passava e o tinha conhecido na sua época áurea. O poeta algarvio José Murta Lourenço, que em Évora morou algum tempo, escreveu assim em visita posterior à cidade quando deparou com o Café fechado mas onde ainda se podia vislumbrar através das vidraças a fotografia da orquestra que animou as suas noites durante anos a fio: “(...) E elevando-se sobre tudo e todos / cortando a distância desde o fundo / da fotografia amarelecida no tempo / um violino derrama a melodia / de um choro distante e plangente. Viva... / Apenas a orquestra parada, morta / mas mais viva que o vazio do Café Arcada / onde ouvi a sua orquestra não tocar / como a ouviu alguém / com o Arcada cheio de gente a abarrotar. Talvez por isso / se cale hoje a orquestra... / Ou só toque para as mesas de físico vazias / quando os fantasmas vierem para a festa / ausentes os vivos de almas insensíveis e frias.”

Mas mesmo ao findar o século passado a Cervejaria Trindade resolveu ocupar o espaço, remodelá-lo por completo, num investimento de um milhão de euros, e manter-lhe associado o nome de Café Arcada. Reaberto no início da nova centúria o estabelecimento conserva muita da estrutura anterior, incluindo a velha porta giratória. Sem o “glamour” de antanho, ainda hoje é ponto de encontro de muitos eborenses e de demanda de turistas nacionais e estrangeiros.

Texto: José Frota

2 comentários:

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