domingo, 2 de julho de 2017

Colégio de S.Manços ou das Donzelas


Instituído no ano de 1592, pelo arcebispo D. Teotónio de Bragança, a sua regulamentação foi compilada em 27 de Setembro de 1625 pelo prelado D. José de Melo, que lhe fundou igreja e procedeu à definitiva instalação no paço velho dos Sepúlvedas, situado defronte do Convento do Calvário. A casa fora construída nos primeiros anos do séc. XVI pelo fidalgo castelhano Diogo de Sepúlveda, proscrito em Portugal por favorecer a causa de D. Joana, a Excelente Senhora e D. Afonso V, e que, matrimoniado com uma filha de Rui de Sousa teve a Manuel de Sousa de Sepúlveda, figura central da epopeia do naufrágio do galeão S. João, nas costas do Cabo da Boa Esperança, em 1552, num dos mais dramáticos episódios da História Trágico-Marítima. D. Maria de Távora viveu no paço nos meados deste século e nele teve bom oratório com capela-mor de abóbada revestida de pinturas a fresco, douradas; por viuvez professou no Convento do Paraíso, passando a residência à posse de sua nora, D. Antónia de Meneses, que nela residia no ano de 1591. 

O colégio, secularizado em época imprecisa, entrou na posse da Família Braamcamp-Reynolds e, no edifício, funcionou a Adega Regional e fábricas de Moagem de Farinha, de Cortiça, de Serração de Madeiras e actualmente, uma secção industrial da PROTEXTIL. Do primitivo corpo palaciego, subsistem restos relativamente importantes de arquitectura manuelina, numa sala térrea da banda norte, integrada no Recolhimento como Sacristia da Igreja de S. Manços e o pavilhão norte-sul de fachada principal para a Rua Cândido dos Reis (antiga Rua da Lagoa). Na empena axial, correspondente ao andar nobre escaparam de obras utilitárias, embebidas nas paredes, três belas janelas da primeira vintena do quinhentismo, elegantemente proporcionadas e impregnadas do hibridismo gótico-árabe comum em Évora no reinado de D. Manuel. As duas primeiras, que correm do alçado imediato ao antigo passadiço de arcos cegos que comunicava com o templete colegial, pousam sobre embasamento saliente, reforçado por sapata de cantaria, e oferecem aspecto de terem pertencido a uma galeria terminal em cujo ângulo existe curioso balcão, obstruído, composto por nodoso e rude tronco de granito, encordoado, que lembra peças similares do Solar Ducal de Vila Viçosa, talvez dirigidas pelo arquitecto Diogo de Arruda. 

A mais bela janela e a principal, geminada e de arcos de ferradura, com molduras concêntricas, tem capitéis e bases naturalistas delicadamente lavrados. Os toros laterais terminam em agulhas de ornatos góticos. O último janelão e o mais ocidental dos três, é de lintel trilobado, guarnecido pujantemente de temas vegetalistas, centrado por emblema heráldico (Sepúlvedas?), repousando em colunelos de capitéis manuelinos e bases prismáticas, calcários. Remate de verga em flexa conopial, toreada. O tardoz e couceira estão trabalhados, igualmente, com ornatos florais e geométricos. O pavilhão inferior, actualmente afogado com os nivelamentos sucessivos da Rua da Lagoa, conserva a estrutura e proporções originais. Primitivo corpo funcional do palácio, talvez adegas, casas da carruagem e depósitos, no séc. XVII foi adaptado a Dormitório Colegial. 

Tem grande carácter e compõe-se de oito vastas salas paralelas, dispostas duas a duas e separadas por arcada de grossas empenas de alvenaria e pedra trabalhada, com arcos redondos ou abatidos. A passagem axial é de arcos de ferradura e as abóbadas nervuradas, umas, de arestas outras, por vezes com chaves circulares, nascem de mísulas rudes, cortadas, servindo de arcos formeiros. Alguns dos artesões, de secção poligonal, sobretudo das salas do lado norte, conservam vestígios muito detalhados de pinturas a fresco, de ornatos renascentistas. As frestas, antigas, do corpo meridional, estão obstruídas. Mais delicada é a sala que serviu de sacristia do templete, situada na ilharga da banda ocidental, hoje utilizada como garagem. Construída nos primórdios do séc. XVI e desenhada em planta rectangular, de arcos redondos, chanfrados, tem belo exemplar de cobertura polinervada, de angras, em composição de estrela ogivada de 12 nervuras de perfis circulares ou rectilíneos, cerrados por bocetes redondos, de pedra, emoldurados com cordas manuelinas. 

Quatro robustas mísulas angulares, prismáticas, ornadas dos tradicionais elementos góticos, enobrecem o recinto, seguramente de arquitectura palaciana do tempo do rei D. Manuel. Tem as seguintes dimensões: Comp. 4,80 m. Larg. 3,60 m. Da igreja resta a arcatura externa completa: era de uma só nave, de tipo corrente do barroco seiscentista, defendida lateralmente por gigantes de alvenaria terminados por fachos ornamentais. A fachada principal, que olha ao sul, de empena mutilada, de singular sobriedade, tem portado e janela de jambas rectangulares, cornijas pouco acentuadas e angularmente duas pilastras de granito trabalhado. A cobertura e o altar perderam-se durante um incêndio que destruiu outras partes do recolhimento. No murete que cerrava a vasta cerca, para ocidente, subsistem vestígios do aqueduto de alvenaria que conduzia a água da Prata, concedida por anéis às comunidades do Calvário e a este Colégio, em 1569 e 1621, respectivamente. 

BIBL. Visitação dos Oratórios de Évora em 1591, ms. da B. P. de Évora, fls. 44, 44, 44 vol.; Pe. Francisco da Fonseca, Évora Gloriosa, pág. 232. 

Sem comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Mensagens populares

Recomendamos ...