quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O caso do Chico Engeitado - Prémio SNI de Teatro Amador (1959)

No primeiro dia de Outubro de 1959 Évora foi surpreendida com a notícia de que o Grupo Cénico da velha Sociedade Dramática e Recreativa Eborense (Antiga Mocidade) havia ganho o Concurso de Arte Dramática Popular, organizado pelo SNI (Secretariado Nacional de Informação), órgão de propaganda do regime salazarista. A estranheza pela escolha prendia-se quer com o facto de a sociedade não ser conotada, nem de perto, nem de longe, com o Estado Novo, quer com a temática da obra apresentada ser pouco cara às gentes abastadas e dominantes da região, apoiantes da situação. Da autoria de um modesto funcionário público, Alexandre Rosado de seu nome, a peça, inscrita na classe B (comédia e farsa), tinha como título “O Caso do Chico Engeitado” (sic) e contava de forma viva e animada o quotidiano de uma pequena aldeia alentejana em que um dos personagens sofria do referido estigma social.

Ajudará a compreender melhor a situação se a situarmos no seu devido contexto. Ora bem, o SNI tinha sido criado em 1944, para substituir a SPN (Sociedade de Propaganda Nacional), lançada em 1933 como órgão público responsável pela propaganda política, informação pública e comunicação social. Fora o intelectual de direita, simpatizante do fascismo e dos regimes autoritários, para além de jornalista brilhante, António Ferro, quem sugerira a Oliveira Salazar a existência de um organismo encarregado de propagandear os feitos do regime.

A derrota, já então previsível, dos fascismos europeus levou o governo português a proceder a uma reorganização quase imediata do recém - criado SNI, que viu a sua área de acção ser alargada com a integração do turismo e da Inspecção dos Espectáculos nos seus serviços e, ao mesmo tempo, ser-lhe cometida a tarefa de aproximação cultural à sociedade, ou, por outras palavras, de definir a actividade cultural das entidades particulares de fins recreativos. O contacto far-se-ia através da Federação Portuguesa das Colectividade de Cultura de Recreio (FPCCR), fundada em 1925, pouco antes do golpe do 28 de Maio, que levaria à Ditadura Militar. Uma das primeiras iniciativas governamentais de natureza cultural foi a organização de um concurso de Arte Dramática para as sociedades federadas dos distritos de Lisboa e de Setúbal. O propósito era o de estimular a renovação do teatro amador, contribuindo para o desabrochar de novos talentos, e deixar ficar patente a ideia do quanto a chamada arte de palco era importante para a educação do povo. Todavia, a FPCCR falhou na sua missão de concitar a adesão associativa ao projecto.

Daí que, em 1949, António Ferro, já perto do seu adeus ao SNI, decida reformular a política cultural e recreativa e elaborar um novo plano de acção que despertasse verdadeiramente as sociedades para uma
colaboração mais activa com os ditos interesses nacionais, propondo «a partilha simbólica de uma identidade comum». A criação do estatuto de utilidade pública, com todo um imenso cortejo de benefícios fiscais e alguns incentivos financeiros, foi um dos instrumentos postos em prática no âmbito da tentativa de consecução dos objectivos propostos. No concernente ao teatro o SNI decidiu estender o Concurso de Arte Dramática a todas as colectividades do género no país, dividindo o certame em duas categorias: a A, aberta ao género dramático e à tragédia; e a B, relativa à comédia e à farsa. As peças a concurso seriam apresentadas em Lisboa, a fim de se proceder à escolha das que participariam na fase final, a realizar no emblemático Teatro da Trindade. Mas logo na 2ª edição, em 1951, o Concurso esteve à beira da extinção, dado que o SNI, numa atitude de reforço à fiscalização da censura, decidiu proibir a apresentação de algumas peças, o que levou ao adiamento do certame para o ano seguinte. Também a Dramática Eborense se veio a queixar de cortes nos textos, o que lhes retirava o sabor da originalidade, obrigando por vezes à substituição por outros, dada a impossibilidade da sua reformulação.

A vigilância cerrada do regime salazarista às sociedades culturais e recreativas adensou-se nos anos seguintes, culminando em 1957 com o encerramento de três delas. No rol foi incluída a Sociedade Fraternidade Simão da Veiga, com sede em Lavre, distrito de Évora, tendo os seus bens transitado para a respectiva Casa do Povo. Apesar de tudo, a Antiga Mocidade nunca deixou de se apresentar a concurso, ainda que com peças aparentemente pouco ambiciosas e de autores menos conhecidos. Em 1959 resolveu a sua direcção apostar num texto ligeiro, intitulado “O Caso do Chico Engeitado”, da autoria do entusiasta e estudioso local pelo teatro Alexandre Rosado. A este simples amanuense do Registo Civil, já com 71 anos, coube também a encenação. O certo é que a peça provocou surpresa em Lisboa e foi seleccionada para a fase final, a decorrer entre 20 e 30 de Setembro. As rasgadas loas dos críticos teatrais lisboetas deixaram desde logo antever um bom resultado. No “Diário de Lisboa”, onde moravam os melhores analistas do sector, escrevia-se a 24 : «Com “O Caso do Chico Enjeitado” (escrito aqui correctamente), de Alexandre Rosado, o teatro português criou o correspondente nacional da “Our Town” de Thornton Wilder ». (N. do red.: esta peça do referido dramaturgo norte-americano, que ganhou o Prémio Pullitzer do Drama em 1938, retratava o carácter dos cidadãos de uma comunidade do séc. XX através das suas vidas diárias.) (...) «Utilizando processos por vezes similares, com o pequeno senão do gosto malabarístico, de brincar com as coisas do teatro e não condensar a peça para esta encontrar a sua justa medida, Alexandre Rosado não soube apenas inventar um dos casos mais sérios do nosso teatro, soube ainda reunir o eficiente escol de amadores que constitui o Grupo Cénico da Dramática Eborense».

Ao contrário do habitual, a decisão foi extremamente rápida. Um dia após o encerramento do concurso, a Emissora Nacional e os vespertinos da capital anunciavam a vitória do grupo de Évora na classe B com “O Caso do Chico Enjeitado” (localmente continuava a prevalecer a grafia com g), a que correspondia o prémio Joaquim de Almeida, no valor de 10.000$00, enquanto Alexandre Rosado arrebatava o prémio de encenação Carlos Santos, que era valorado em 5.000$00. Os intérpretes Luíza Moleiro, Jorge Pimentão e José Madeira da Rocha recebiam menções honrosas. Ao espanto na cidade pela obtenção do galardão máximo sucedeu-se a indiferença das gentes oficiais. Coube à imprensa local, com destaque para o “Jornal de Évora”, reagir contra tal «falta de interesse » e pressioná-las no sentido de patrocinarem a realização de uma festa de homenagem ao grupo e à colectividade.

A vontade escassa e a realização próxima  das festividades do IV Centenário da Universidade de Évora serviram de pretexto a dois adiamentos da consagração citadina. Finalmente, a 5 de Novembro, no Teatro Garcia de Rezende, perante uma «assistência escolhida», como salientou o diário “Democracia do Sul”, teve lugar uma sessão solene alusiva ao acontecimento. Falaram o Governador Civil, José Félix de Mira, o presidente da Câmara, João Luís Vieira da Silva, o prelado doméstico José Filipe Mendeiros e o comandante da PSP local. Elogios de circunstância, promessas poucas e vagas de auxílio e pouco mais.

Feita a festa, fez-se o possível e conseguiu-se que a façanha dos amadores da Dramática caísse no esquecimento. Dos enjeitados (rejeitados pelos pais) se pretendia que não rezasse a história. Meio século depois a «Évora Mosaico» decidiu recuperá-la, para que ela permaneça na memória citadina.

Fonte: Évora Mosaico

terça-feira, 23 de novembro de 2010

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

COMEMORAÇÃO DO DIA INTERNACIONAL DOS VOLUNTÁRIOS - 29 Novembro a 5 Dezembro

A Fundação Eugénio de Almeida irá associar-se à Comemoração do Dia Internacional dos Voluntários, valorizando a participação comprometida de pessoas voluntárias na transformação da realidade social.

Conferência: O Voluntariado na primeira pessoa
Fórum Eugénio de Almeida | 2 de Dezembro | 14h30 às 17h30

Conferencista: D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa, Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, Doutorado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana, é Professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa onde foi também Vice-Reitor. (a confirmar)

Destinatários: Público em geral; dirigentes e técnicos que desenvolvem projectos e programas na área do voluntariado.

Historial da Graça do Divor


Nossa Senhora da Graça do Divor é uma freguesia do concelho de Évora que ocupa uma área de 83,79 Km2, nas belas planícies alentejanas. Esta extensa freguesia dista do concelho 12 Km e é constituída por um núcleo mais antigo e um mais recente, designado por Casas Novas. Tem como zonas limítrofes as freguesias de Nossa Senhora da Guadalupe, Santo Antão, Bacelo e Canaviais, e os concelhos de Montemor-o-Novo e Arraiolos. A sua situação geográfica é caracterizada por ser plana, apesar de ter algumas elevações muito pequenas. Designadas, também, por “cabeços”, destacam-se as seguintes elevações: Milhanos, Falcões, Oliveira, Godel e Serra Morena, sendo a maior com 409 metros.
Desde 1911, Graça do Divor teve anexadas as freguesias de S. Sebastião da Giesteira, Nossa senhora da Boa Fé, São Brás do Regedouro, S. Matias e Nossa Senhora da Tourega. Em 1926, todas estas freguesias foram desmembradas de Nossa Senhora da Graça do Divor, com excepção de S. Matias, que só em 1985 é que integrou na freguesia de Nossa Senhora da Guadalupe.

O estudo da origem e do progresso de Graça do Divor, apontam-na para uma das zonas mais remotamente habitadas do Alentejo. Como tal, a História remete a sua existência humana para a época da Pré-História, na era do Neólitico. Decorreram investigações, na freguesia, em que se descobriram vestígios de actividade neolítica pela presença de fragmentos em cerâmica e utensílios de pedra lascada e polida. Não foram encontrados vestígios de casas, pois o material deveria ser fraco. A fixação das civilizações, neste território, deve-se às boas condições territoriais, quer a nível da habitação, quer a nível do solo. As terras arenosas permitiam que, durante as épocas chuvosas, não houvesse alagamentos, e dos solos poderiam extrair, entre outros produtos, a madeira e os frutos secos. O tipo de rocha que por lá existia, facilmente extraída, permitia o fabrico de utensílios muito utilizados no neolítico, como os machados e os enxós. A caça era um meio de sobrevivência destes povos, e esta zona oferecia-lhes boas condições para tal. Para além destes factores, Graça do Divor possui abundância e qualidade de recursos hídricos devido à confluência das bacias hidrográficas dos rios Tejo, Sado e Guadiana. As épocas do Calcolítico e da Idade do Bronze não foram tão sentidas, havendo poucos vestígios em comparação com o Neolítico. Registam-se marcas dos povos metalúrgicos, sendo as primeiras fortificações como instrumento de apropriação estratégica do espaço. Sucede-se a Romanização da freguesia que, tal como os anteriores povos, aproveita as excelentes condições da terra, de acordo com os seus padrões de exploração latifundiária. Edificam-se as “villae”, e, de todo o concelho de Évora e talvez do país, torna-se a freguesia mais romanizada. Salienta-se, também, a importância estratégica, pois a nível administrativo, a freguesia encontrava-se perto de Évora.
Não existe uma data concreta da sua origem, mas Graça do Divor já existia no século XVI. A origem do nome da freguesia deve-se ao facto dos romanos chamarem a esta zona “campo divorum” ou “Campos Elísios”, isto é, Lugar dos Deuses.
A quantidade e a qualidade dos cursos de água e nascentes de Nossa Senhora da Graça do Divor são de extrema importância. Marcam uma grande estratégica secular face aos abastecimento de água, que existe até à actualidade. O Aqueduto da Água de Prata foi construído, no século XVI, a mando de D. João III, para abastecer e regular a água, evitando a seca. As ribeiras mais importantes são: Divor, Depósito, Penedo, Capelos, Pouca-Lã, Curral do Sabugo, Azinheira, Vale-de-Maria, Bico-do-Anel e Casbarra.
Recentemente, o acontecimento mais marcante, nesta freguesia, foi a Reforma Agrária, levando à ocupação e prosperidade das terras, pelas cooperativas. Esta situação contribuiu para o aumento da taxa de emprego.

HERÁLDICA
- O símbolos heráldicos para a Freguesia de Nossa Senhora da Graça do Divor, tiveram parecer da Comissão de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses a 23 de Setembro de 1998.
- Foram aprovados sob proposta da Junta de Freguesia pela Assembleia de Freguesia em 13 de Novembro de 1998.Foram publicados no Diário da República nº 289/98 de 16 de Dezembro de 1998 da III série.
- Foram registados na Direcção Geral das Autarquias Locais sobre o nº 02/99 de 6 de Janeiro de 1999.
 BRASÃO
Escudo azul, torre de prata com uma janela manuelina, aberta e lavrada do campo; em chefe, flor de lís de ouro; em campanha, um feixe de espigas de trigo e um ramo de oliveira, tudo de ouro, com os pés passados em aspas e atados de vermelho. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: «NOSSA SENHORA DA GRAÇA DO DIVOR».
Memória descritiva e justificativa dos símbolos heráldicos
- Os ramos representam a produção agrícola da Freguesia.
- A torre com a janela manuelina representa o Solar manuelino da Sempre Noiva, por ser a peça arquitectónica mais notável da Freguesia.
- A flor-de-lis representa a Nossa Senhora da Graça, padroeira da Freguesia

O orago desta freguesia, como o próprio nome indica, é Nossa Senhora da Graça.


BANDEIRA
- Amarela.
- Cordão e borlas de ouro e azul.
Haste e lança de ouro

SELO BRANCO
Nos termos da Lei, com a legenda:
"JUNTA DE FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DA GRAÇA DO DIVOR"

domingo, 21 de novembro de 2010

Precisa se de armadores de ferro para Évora

Precisa se de armadores de ferro para obra em ÉVORA (Zona Industrial)

-Procura se trabalhadores locais

-C/S transporte

-Tempo Inteiro

-NÃO facultamos Transporte para a obra




URGENTE

Contactos:


Lorenço-918 414 308

André Quaresma -914 805 606


andre.quaresma@bimarsed.pt

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Teatro: Histórias da Monarkia (23/11 a 30/11 no Teatro Garcia de Resende)

Com quantos pontos se conta um conto?

Cinema em Évora de 18 a 24 de Novembro de 2010 - 18h00 e 21h30

ADORO-TE À DISTÂNCIA

De 18 a 24 de Novembro - 18h00 e 21h30

De: Nanette Burstein
Com: Drew Barrymore, Justin Long, Christina Applegate
Género: Comédia Romântica
Classificacao: M/12 EUA, 2010, Cores,



Quando Erin e Garret (Drew Barrymore e Justin Long)  conhecem-se num bar em Nova Iorque, não poderiam imaginar que, o que podia ser apenas uma relação passageira, se fosse transformar tão rapidamente numa grande história de amor. Depois de seis semanas de fusão total, o regresso dela à cidade de São Francisco torna tudo quase insuportável.
Agora, depois de tudo o que viveram um com o outro, como poderão regressar à sua vida normal? Como conseguirá o amor sobreviver à distância, aos ciúmes e aos pequenos mal entendidos?

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

M. C. Escher: Matemático sem o saber




M. C. Escher: Matemático sem o saber
Fórum Eugénio de Almeida | 19 de Novembro I 18h00


Inscrição: 5,00€


Orador: Nuno Crato, Professor do Instituto Superior de Economia e Gestão.


Escher era um artista surpreendente. Não tendo formação matemática, muitas das suas obras revelam uma intuição de princípios geométricos que têm um fundamento mais complexo do que o próprio poderia supor. Escher brincou com a perspectiva linear, criou objectos impossíveis que exploram a ilusão tridimensional, analisou simetrias e a repetição de padrões, criou paradoxos visuais e redescobriu curvas famosas. Não é de espantar que os matemáticos tenham especial interesse pelos seus trabalhos. Todos, no entanto, ficam surpreendidos e intrigados pelas suas gravuras. Perceber alguns dos princípios matemáticos trabalhados pelo artista pode ajudar-nos a ter uma maior apreciação pelo seu trabalho.

Conversas na Praça "A Crise"

A Bruxa Teatro estreia hoje “Antígona em Nova Iorque”

"Antígona em Nova Iorque", com cenografia e figurinos de Miguel Mocho, estreia hoje às 21:30 na ermida de São Bartolomeu, junto às Portas d'Avis, em Évora, onde se manterá em cena até 11 de dezembro.
Trata-se de uma produção da companhia A Bruxa que pela segunda vez encena nesta ermida, desta feita com um elenco constituído por António Abernú, Figueira Cid, Lucília Raimundo, e Pedro Estima.

Cães vivos usados no curso de Medicina Veterinária são apenas os destinados ao abate - Universidade

O diretor do Hospital Veterinário da Universidade de Évora, José Tirapicos Nunes, explicou hoje que os cães vivos utilizados em aulas de anatomia são apenas aqueles que já estavam destinados ao abate no canil da cidade.
Os animais, segundo José Tirapicos Nunes, "são sempre anestesiados e depois eutanasiados, antes de acordarem da anestesia".
Também animais já abatidos são utilizados nas aulas de anatomia do curso de Medicina Veterinária, disse o responsável, garantindo que "são sempre cumpridas as regras".
A Câmara e a universidade têm em vigor um protocolo para a incineração de cadáveres, como o caso de cães vítimas de atropelamento na via pública.
O presidente da Câmara de Évora já revelou hoje à Lusa que abriu um inquérito para averiguar o funcionamento do canil municipal e apurar eventuais responsabilidades, após denúncias mútuas entre o responsável do serviço e duas veterinárias.

Évora Perdida no Tempo - Capela-mor da Sé de Évora

Autor Inácio Caldeira
Data Fotografia 1920 ? -
Legenda Capela-mor da Sé de Évora
Cota CME0354 - Propriedade Arquivo Fotográfico CME

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Megalitismo em Évora

O Lonely Planet, considerado o mais importante guia de viagens e de turismo cultural de todo o mundo e tido
como de leitura obrigatória para todos os operadores dos respectivos sectores, afirma que, este ano, Portugal será um destino incontornável para os viajantes de toda a parte. E recomenda as experiências que o turista não pode perder ao visitar o nosso país: a prova dos vários vinhos do Porto, um passeio pelas remotas povoações graníticas da Peneda-Gerês, passar por Lisboa e provar o pastel de Belém e, finalmente, ver um pôr-do-sol nos monumentos megalíticos junto a Évora.

Este alvitre vai, decerto, trazer à cidade muitos viajantes estrangeiros com o objectivo explícito de visitar estes locais onde a aventura do homem, enquanto ser social, se começou a desenhar. Será então desolador ver muitos eborenses e homens de cultura do país exibirem o seu desconhecimento em relação a esses lugares, vestígios de um tempo mítico fundador sacralizado pelos deuses, quando outros virão de tão longe para apreciar o espectáculo indizível que é contemplar o ocaso do astro-rei num cenário quase primordial. 

Neste contexto se entende que é necessário promover tão valioso património, espalhado pelas imediações da urbe e que tão esquecido tem sido na divulgação do melhor que Évora tem, fornecendo informação susceptível de suprir tão grave lacuna.

Asseveram os estudiosos do passado que as primeiras sociedades agro-pastoris, próprias do Neolítico, se sucederam aos primitivos grupos errantes de caçadores-recolectores que viviam do que a natureza lhes dava, característica da época mesolítica. A sedentarização, produto do domínio das técnicas agrícolas e da domesticação dos animais, veio criar uma nova forma de vida que implicava o trabalho em favor da comunidade. Esta profunda alteração na vivência humana ocorreu sobretudo na Europa Ocidental.

Em Portugal, os historiadores apontam para que os primeiros pastores tenham vindo dos concheiros do Tejo e Sado, locais de exploração de moluscos marinhos e terrestres, onde erguiam sazonalmente acampamentos que tinham a exacta durabilidade dos meios de subsistência procurados: água em abundância e caça com fartura. Por essas alturas era a natureza da paisagem que impunha a fixação, ainda que temporária ou eventual. Ao posterior movimento de deslocação interna, gerador do mundo rural alentejano, veio a referir-se desta forma o arqueólogo Manuel Calado: «abandonar as margens dos estuários e mudar-se de armas e bagagens para os arredores de Évora foi, certamente, uma ruptura profunda no quotidiano das populações do VI milénio a.C..

 De um dia para o outro houve (o homem) que adaptar-se a novos horizontes, novas actividades, novos valores». No Alentejo (zona de Évora, particularmente) e na Bretanha (Oeste francês), duas das áreas de maior concentração demográfica neolítica, foram pela primeira erguidos os grandes monumentos megalíticos com base nos menires, cravados no solo e por vezes de alturas insuspeitas, relacionados com o culto da fecundidade (símbolos fálicos) ou indicando marcos territoriais. Isto pressupõe já a existência de povoados próximos de afloramentos graníticos com gente em larga escala para construir, levantar e transportar monólitos de dimensão impressionante, empenhada também, por outro lado, no desbravamento de bosques e florestas. O uso de instrumentos de pedra polida, nomeadamente de machados, era-lhes, por certo, essencial. Passemos então à descoberta dos grandes megálitos do concelho.


Num cabeço localizado a 12 quilómetros a poente de Évora, situado na freguesia de Nossa Senhora de Guadalupe, encontra-se o maior monumento megalítico estruturado da Península Ibérica e um dos mais antigos da história da Humanidade. É o Cromeleque dos Almendres, constituído actualmente por 95 menires de granito (chegaram a ultrapassar centena) e começado a construir há cerca de 7.000 anos, tendo passado  3 fases antes de atingir a feição última (forma oval) em finais do terceiro milénio a.C.. Uma dezena deles está decorada, exibindo património o megalitismo eborense  relevos e gravuras de grau de visibilidade diferente. Em metade são todavia bem notórios.

Na placa interpretativa que figura junto ao parque de estacionamento, clareira cavada entre o montado de sobro e azinho ali existente e rodeada de medronhos, se informa ser desconhecida a sua função. Adianta-se todavia que os dados arqueológicos recentes têm colocado em evidência a disposição e implantação de alguns monólitos em coincidência com os movimentos elementares do Sol e da Lua, permitindo a marcação dos equinócios e solstícios, o que deixa antever a possibilidade de ter sido usado como posto de observação astronómica.

E acrescenta-se que «alguns dos elementos decorativos e a aparente esquematização dos menires, poderão constituir, à escala monumental, a primeira representação escultórica de entidades tutelares ou mesmo das mais ancestrais linhagens do poder». Lá do alto avista-se Évora, que por esses tempos nem sequer existia. 

A partir de Guadalupe, alcançada a partir de um desvio na EN-114, o caminho para o Cromeleque, à distância de 4,3 Km, é de terra batida mas perfeitamente acessível a veículos ligeiros. Entra-se em caminhos particulares e deve seguir-se com cuidado, até mesmo para não deixar passar despercebida a estreita vereda que o proprietário abriu para aceder ao Menir dos Almendres, exemplar isolado de forma ovóide alongada, decorado com um báculo gravado em baixo relevo, indicativo da actividade agro-pastoril e idêntico a outras insculturas vistas em outros monumentos da altura. 


A sua localização está ligada ao Cromeleque, dado que, observada a partir deste, se aponta para a posição do nascer do Sol no dia do solstício de Verão. No regresso a Guadalupe, é tomar a estrada para Valverde. São quatro quilómetros de belíssima estrada até à povoação. Atravessa-se a ponte sobre a ribeira do mesmo nome e, antes de chegar ao Aqueduto da Mitra, curva-se à esquerda e entra-se em terrenos da Universidade. Ao fim de pouco mais de dois quilómetros em percurso revestido a gravilha chega-se a uma clareira, resgatada entre azinheiras velhíssimas, daquelas que já não sabem a idade, deixando-se o carro, dado que só é possível prosseguir a pé. Duzentos metros percorridos é necessário passar por uma ponte rudimentar de madeira, mas oferecendo bastante segurança. Meio quilómetro à frente, a meio de uma encosta suave, aparece a Anta Grande do Zambujeiro, considerada a mais alta do mundo, sustentada em grandes pedras verticais graníticas com cerca de 6 metros de altura.


As antas ou dólmens eram monumentos tumulares colectivos, relativos à fase derradeira do Neolítico, compreendida entre o fim do V milénio a.C. e o III milénio a.C.. Na sua essência, a anta do Zambujeiro é composta por uma câmara apoiada em 7 pilares aprumados, ou esteios, a que se segue um longo corredor cujo acesso está hoje vedado por uma porta protectora de madeira. A laje de cobertura encontra-se sob a mamoa, ou seja, um pequeno montículo artificial de terra, composto de várias pedras, que servia para encobrir o monumento.


Devido a uma intervenção antiga, que afectou a estabilidade do monumento, foi necessário construir uma cobertura provisória do conjunto, esperando-se a realização de uma acção que faça a sua recuperação definitiva. Estes são os três principais monumentos megalíticos do concelho. Mas outros existem disseminados ainda pela zona de Valverde, entre os quais são de assinalar as Antas do Barrocal. Entrando-se ligeiramente na freguesia de Santiago do Escoural (termo de Montemor-o-Novo) pode ver-se a Anta-Capela da Senhora do Livramento e a Necrópole de Vale Rodrigo.

No caminho para a Azaruja, e cortando para os Canaviais, chama a atenção a Anta do Paço das Vinhas. Retomando o caminho e seguindo para a Igrejinha, fica o Menir da Oliveirinha, caído e de grandes dimensões, o maior do concelho de Évora. Na zona de Torre de Coelheiros sobressaem as antas do Zambujalinho, da Bota, do Freixo de Cima e a de Cabacinhitos, com as suas notáveis placas de xisto gravadas, expressando promessas e pedidos. A não perder, principalmente ao entardecer, dizem os homens do “Lonely Planet”. E com razão, acrescente-se.


Texto: José Frota