quinta-feira, 19 de abril de 2012

Personalidades Eborenses - Garcia de Resende


Poeta, cronista, músico, desenhador e arquitecto humanista, Garcia de Resende nasceu em 1470, em Évora, e aí faleceu em 3 de Fevereiro de 1536 no convento de Espinheiro, sendo sepultado na capela que mandara edificar na cerca desse mesmo convento em 1520, em honra de Nossa Senhora.

Filho de Francisco de Resende e de Beatriz Bota, criados do Bispo de Évora, D. Garcia de Meneses. Depois da morte de seu pai, como ainda era jovem, foi acolhido por um dos seus tios, que provavelmente terá sido Dr. Rui Boto, desembargador do paço que gozava de grande prestígio na época. Desta forma, tem uma educação esmerada, sendo criado no Paço.

Muito novo, 1490, ingressou na corte como moço de Câmara de D. João II. Mais tarde foi nomeado moço de escrivaninha, uma espécie de secretário particular, cargo que ocupou até à morte do monarca, em 1495. Soube, também, conquistar a difícil estima deste monarca. Ainda durante o reinado deste monarca, em 1490, foi escolhido para acompanhar o seu filho, o príncipe D. Afonso que passava a ter casa própria. Mas após a sua morte, em 1491, volta aos serviços de D. João II.

D. João nunca pode dispensá-lo, acabando por ser seu amigo e confidente. Sendo a sua função moço de escrivaninha, Garcia de Resende, naturalmente, seguia tudo quanto D. João escrevia e tomava conhecimento dos mais secretos negócios do estado. Desta forma, explica-se a confiança do soberano, que se transformou na maior intimidade. Acompanhou-o em todos os momentos de solidão e melancolia, distraindo- -o com os seus cantares à guitarra.

Continuou a desempenhar importantes funções na corte depois da subida ao trono de D. Manuel I em 1495, do qual mereceu, também, afecto e confiança. Em 1498, acompanha, como secretário, o soberano e a sua esposa, D. Isabel a Castela e Aragão, quando os reis de Portugal foram jurados herdeiros dos Reis Católicos, em Toledo. Fez parte da faustosa embaixada enviada ao Papa Leão X, em 1514, como secretário-tesoureiro (cargo muito ambicionado por outros). Nesta viagem, Resende visita Roma e outras cidades italianas e toma contacto com o esplendor do Humanismo e do Renascimento. Recebe também o título de fidalgo da casa do rei.

Em 1515, é-lhe atribuída uma tença de 2000 reis e um ano depois é feito escrivão da fazenda do príncipe herdeiro, futuro D. João III. Através deste cargo recebeu grandes provendas em especiarias da Índia.
Ainda chegou a servir D. João III , durante os primeiros 15 anos do seu reinado, que igualmente lhe concedeu grandes mercês. Garcia de Resende gozava de grande prestígio na corte.

Pela dedicação com que serviu os 3 reis provieram-lhe avultados bens, entre os quais grandes casas na cidade de Évora e propriedades agrícolas na região vizinha.

Apesar de ser uma pessoa forte, era uma figura espirituosa e insinuante, cuja convivência era desejada e procurada. Com uma grande sensibilidade lírica e artística, possuía uma cultura vasta e completa. Joaquim Veríssimo Serrão, na obra Crónica de D. João II e Miscelânea, chega mesmo a fazer referência ao testemunho de Gil Vicente “ Resende ... de tudo entende”.

A sua obra é constituída por Cancioneiro Geral; Crónica da Vida e Feitos Del-Rei D.João II; Miscelânea e Variedades de Histórias; Sermão dos três Reis Magos e Breve Memorial sobre a Confissão.
Tem um gosto apurado, uma visão de artista, é bastante observador e tem uma preferência pelo pormenor, com os quais descreve os acontecimentos, nas suas obras, com tanta veracidade e vigor dramático que parece torná-los presentes no espírito de leitor.

Foi o último e um dos melhores poetas da escola de trovadores e o primeiro que, em verso, escreveu sobre a morte de D. Inês de Castro. Tinha o dom de transformar em verso as impressões e sentimentos que o quotidiano gera, através do seu poder de observação e do seu saber feito.

A sua obra mais referida, Cancioneiro Geral, é uma colectânea de cerca de 1000 composições, de autoria de 286 poetas palacianos, incluindo ele (sendo suas as 48 trovas com que a obra termina), resultante de uma longa, paciente e exaustiva recolha. As composições poéticas são amorosas e satíricas, escritas em português e castelhano, pertencentes a um período desde o começo da segunda metade do século XIV. Sendo a sua primeira edição em 1516, em Lisboa, tinha como objectivo evitar que todas estas composições se perdessem e também incentivar os seus contemporâneos à redacção de obras de maior fôlego. Garcia de Resende terá sido estimulado pelo Cancionero General de Muchos Y Variados Autores de Hernando del Castilho, de 1511, para elaborar esta obra.

A sua obra Sermão dos três Reis Magos, cheia de bom-humor, foi escrita para se confortar do desgosto das frustradas negociações relativamente às missas quotidianas na capela que mandara erigir, no convento do Espinheiro. Escreveu ainda Breve Memorial sobre a Confissão editada em 1521.

Como historiador, é reconhecido como cronista palaciano, despretensioso mas encantador. Embora não se possa comparar a Fernão Lopes, a sua obra é um importante documento para o estudo das relações sociais, da corte e do carácter da época. Em 1533 conclui a sua obra de historiador com a obra, Chronica que trata da vida e grandissimas virtudes e bondades, magnânimo esforço, excellentes costumes e manhas, e claros feitos, do Christianissimo Dom João, o segundo deste nome. Esta obra começou a ser redigida em Évora, em 1530. Apesar de Resende ter pedido, em 1534, para ser publicada, só é editado o Livro da Obras de Garcia de Resende em 1545. Este foi impresso com o patrocínio do seu irmão Jorge de Resende.

A obra, baseada nas notas e lembranças que o autor fora reunindo ao longo da vida, relata episódios da vida do rei e da sociedade palaciana. Apesar das diversas críticas por vezes pouco agradáveis, a crónica desperta interesse pelo colorido dos acontecimentos. A obra tem como base a crónica manuscrita de Rui de Pina, o cronista da corte, em que Resende modelou alguns capítulos, dando-lhe uma feição original. Mas o autor não escapou às várias críticas, sendo acusado de plágio, nomeadamente por Braamcamp Freire, em Crítica e História, e por Alberto Martins de Carvalho, na introdução à 2ª edição da Croniqua delRey Dom Joham II. Apesar de se servir de algumas ideias, completou a crónica com o seu testemunho, com dados mais íntimos da vida pessoal do monarca.

Ao fazer um relato minucioso dos atributos físicos, das suas qualidades morais e da sua vida na corte, D. João é apresentado como o Príncipe Perfeito. Garcia de Resende faz o culto ao grande monarca, não só como governante mas também como homem, dotado de altos dons.

D. João II, segundo as palavras de Resende, é apresentado como sendo “justo e amigo da justiça”, “de ardido coração”, “grandíssimo esforço”, “prudência”, “altos pensamentos” e “desejos de cousas grandes”.
Resende ao dar mais relevo à vida íntima do monarca, ou seja, em evidenciar o homem mais do que o próprio rei, faz o traçado psicológico do monarca. É a primeira vez que se faz em Portugal. Para isso serviu-se da sua experiência como homem da corte e das suas lembranças enquanto confidente, tendo estado presente em muitos factos que narrou. A referência a estes factos, que sem ele não teriam sobrevivido, são fundamentais para se entender o pensamento e as formas de actuação do monarca. Para além de D. João II, esta obra narra alguns factos relativos a D. Manuel, à Infanta D. Beatriz e alguns assuntos religiosos

Também Miscelânea e Variedades de Histórias, costumes, casos e cousas que em seu tempo aconteceram foi publicada depois da sua morte, em 1554. É uma crónica rimada (novidade literária) dos factos mais importantes da sua época, servindo, muitas vezes, como documento para a investigação histórica da sociedade portuguesa e também do mundo então descoberto através da Expansão. O autor justifica o nome da obra pela mistura, pela variedade de temas que trata.

Garcia de Resende foi um dos primeiros autores a tomar consciência das mudanças que estavam a ocorrer na sociedade, devido a vários factores, nomeadamente a Expansão, como é visível nos versos “Estas novas novidades, / mudanças, e grandes fectos / em Papas, Reys, dignidades, / em reynos, villas, cidades, / vimos fectos, e desfectos”. Para além da consciencialização da revolução tanto na sociedade como nas mentalidades, esta obra deixa transparecer a indignação do autor perante a falta de vontade de mudar por parte da maioria da população, “mas a natureza he tal, / que poucos querem ouvir, / nem aprender, nem saber / cousas certas, nem verdades”.

Nesta obra, dirigida a D. João II, o autor apela ao rei para relembrar os grandes sucessos da História da Europa dos últimos anos. Primeiro, narra acontecimentos e refere figuras europeias do século do século XV. Depois narra acontecimentos do século XVI, dando particular realce aos Descobrimentos e à vida portuguesa, “Outro mundo encoberto / vimos entam descobrir, / que se tinha por incerto”. Resende deixa transparecer o seu deslumbramento perante o grande feito dos portugueses, defendendo a legitimidade do domínio político dos portugueses sobre as terras descobertas.

Ao serem tratados diversos assuntos, nomeadamente a geografia, o comércio, a natureza, a guerra e o exotismo, torna-se numa importante fonte histórica.Devido ao clima de grande agitação, Miscelânea responde a muitas das inquietações da sociedade da época. Segundo Joaquim Veríssimo Serrão, na obra Crónica de D. João II e Miscelânea “constitui um documento único para a compreensão dos Descobrimentos na vida nacional e para a melhor integração de Portugal na história europeia do tempo.”

Foi também um hábil desenhador e arquitecto. Provavelmente desenhou a admirável custódia feita por Gil Vicente e admite-se a hipótese de ter elaborado o plano da sua capela de Espinheiro. Traçou também o plano de uma fortaleza que D. João II pensou erguer onde depois foi construída a Torre de Belém, chegando a ser atribuída a autoria do desenho desta a Resende.

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