domingo, 26 de novembro de 2017

Ermida de São Bartolomeu


A escassas dezenas de metros de distância da antiga Porta de Avis, na banda norte-ocidente e num cabeço saibroso protegido pelos muros trecentistas da Cerca Nova, fundou nos princípios do séc. XVII, em terrenos municipais doados para o efeito, o quartanário da Sé, Pe. Laureano Martins, o templo de S. Bartolomeu, santo a que era profundamente devotado. Já nele, em 1620, se celebravam os ofícios divinos sob capelania do instituidor, homem de virtude e muita religião, a quem a voz pública atribuía o dom e graça especial de fazer milagres. 

No ano de 1651, segundo os elementos entombados pelo inquérito dos Foros do Concelho, dirigido pelo Presidente do Senado, dr. Gaspar Abreu de Freitas e encontrando-se o edifício religioso sujeito a estudo pelos engenheiros franceses para se encorporar num baluarte do sistema defensivo da cidade, sabe-se que o recheio artístico-cultual da ermida, antes das destruições provocadas pelos assédios da Guerra da Restauração, em peças de pintura, mobiliário, escultura e paramentaria era importante. A capela principal, tinha altar dourado, em talhas encaixando o retábulo de pintura do martirológio do padroeiro, e o Calvário de Jesus. 

Nos altares colaterais, crismados de N.ª S.ª do Desterro e N.ª S.ª da Paz, veneravam-se as imagens respectivas, e ainda os Evangelistas S. Lucas e S. Marcos e uma pintura do Presépio. Na sacristia existia outro painel de madeira considerado muito velho, provavelmente pintura gótica, e a imagem da Virgem Maria, em nicho sobrepujante ao paramenteiro. De entre o fundo decorativo, destacava-se a vasta composição cerâmica, do tipo de tapete, policroma, centrada pelo painel da Crucifixão, que forrava de alto a baixo a parede do presbitério, conjunto de azulejaria que foi disperso ou destruído nos fins do séc. XIX. 

As destruições do edifício durante a campanha do Príncipe D. João de Áustria, no Verão de 1663, foram corrigidas a instâncias dos mordomos da confraria, logo após a paz geral, com esmolas obtidas para o efeito, obra que foi entregue em 1670 no regime de empreitada ao mestre pedreiro Manuel Martins, que por fatal acidente, ao dirigir os trabalhos de estuque do frontispício perdeu o pé do andaime e logo ficou morto no solo. 

Nos derradeiros anos do século passado a ermida perdeu-se por desmoronamento e o recheio sacro levou fins diversos: a imagem de S. Bartolomeu, da fachada, desfez-se na derrocada por ser de barro cozido, e a da capela-mor, de madeira estofada, dos princípios da centúria seiscentista, está na posse de um particular. Compunha-se o templete de uma só nave muito ampla e cómoda, coberta de abóbada de meio canhão revestida de caixotões geométricos em estuques levemente coloridos e de relevo. Pilastras de apainelados dividiam os cinco tramos do vão, que eram abertos por igual número de capelas ligadas entre si por um estreito corredor, à semelhança e modelo das igrejas do Espírito Santo e de Santo Antão. 

A cabeceira era constituída por três capelas absidais, como dissemos: capela-mor, com tecto de volta perfeita recoberto de estuques floridos, rosetões e cruzes encerradas em cartelas, e as duas colaterais, muito mais baixas, consagradas a N.ª S.ª da Paz e N.ª S.ª do Desterro. Ao presente, aguentam-se de pé, além do presbitério totalmente descamado, a fachada lateral do lado nascente, alterosa e pitoresca e robustecida por seis gigantes de alvenaria decorados por gárgulas de pedra. No tramo terminal, paralelo à capela-mor, ergue-se o campanário despido de sineta, com vestígios de escaiola colorida. Neste mesmo corpo vêem-se, ainda, as primitivas janelas de ombreiras de granito, rectangulares, e um portado lateral com jambas e verga rematadas por bolas de alvenaria. As ruínas da capela e os terrenos anexos do Forte de S. Bartolomeu, pertencem ao capitão Carlos Vilares. 

BIBL. António Francisco Barata, Évora Antiga, 1909; Túlio Espanca, Património Artístico do Concelho de Évora, 1957, págs. 89-91. 

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