quarta-feira, 11 de julho de 2012

"África Move" no Largo de São Vicente


O Festival Escrita na Paisagem chega à 9ª edição com o tema cosmopolíticas. Tema complexo e de extrema actualidade, permite situar a criação artística contemporânea entre o Alentejo e o mundo, entre a condição local e o apelo global.

As relações entre as culturas portuguesa e africana ganharam forma e centralidade inequívocas, atravessadas pela inquirição sobre as identidades e as diferenças, sobre os processos de cruzamento e miscigenação, sobre, enfim, uma história que se partilha e anda mal resolvida nos planos ideológico e político, mas cujos frutos no campo artístico, e sobretudo no campo musical, são inquestionáveis: a música de raiz africana respira nas várias gerações de criadores musicais dos séculos XX e XXI em Portugal, seja pela circulação de protagonistas, seja pela indústria discográfica e da difusão musical, seja pelas profundas influências que as relações históricas potenciaram (entre os limites do período colonial, a circulação que as independências geraram e as contaminações que o mundo global continuamente (re)faz).

A abrir um espaço à ‘transnacionalização’ o Escrita na Paisagem, em parceria com Mural Sonoro, apresenta África Move, o programa de todas as quartas-feiras, dedicadas à música, no Largo de São Vicente, em Évora. Nove quartas-feiras e onze concertos a não perder!

Dia 11 de Julho vamos ouvir Bilan. Filho de uma família de músicos cabo-verdianos reconhecidos, o contacto com a cidade e uma certa saudade das ilhas da Morabeza, passam para a sua estética e execução sonora/musical. Segundo Bilan, a sua música “reforça uma miscigenação de estilos e influências mostrando, dentro da música urbana, um outro lado de viagem e de diáspora, banhado pela língua crioula e os contornos da ’sabura’ “.

Múcio Sá e Francesco Valente tocam no dia 18 de Julho. Nascido no Brasil (Bahia) Múcio é um músico/instrumentista, que manuseia instrumentos como Mandolim, Ukelele, banjo, baixo, guitarra portuguesa. Francesco Valente, de conjuntos como os Terrakota ou Orquestra Todos, é também um multi-instrumentista, embora frequentemente o ouçamos e vejamos mais ligado ao contrabaixo.

O Dj Leo Leonel, chega ao Largo de São Vicente no dia 25 de Julho. Nascido no Rio de Janeiro, é um apaixonado da música e trará a sua visão ao festival Escrita na Paisagem, num set preparado para o efeito, onde cruzará de forma natural a ‘lusofonia’ com a ‘cultura pop global’. Da ‘tradição à modernidade’, expressões dele.

No 1º dia de Agosto, o festival recebe Cacique 97, o colectivo luso-moçambicano que dispensa apresentações e já marcou presença em prestigiados festivais. Há na sua música uma influência evidente do universo das percussões tradicionais/típicas da região em que assenta a música que produzem. Como os ‘yoruba’, ou estilos locais, como o ‘highlife’ e ‘juju’. Há as mesmas influências que se juntaram ao ‘afro-beat’ de uma época, como o ‘reggae’, o ‘jazz’, a ‘soul’ e ‘funk’.

Dia para ouvir ainda Selma Uamusse, a voz de Gospel Collective, Movimento, Wraygunn e solista nas suas interpretações em tributos, como o recentemente feito a Nina Simone que irá apresentar em Évora.

No dia 8 de Agosto vamos ouvir o grupo brasileiro em digressão por Portugal, Bemba Trio com um conjunto de músicas originais.

E no dia 15 de Agosto o duo Irmãos Makossa, composto por Nélson e Paolo, o italiano e o angolano que encerraram o Festival Músicas do Mundo do ano que passou num ambiente contagiante. A cruzar raízes como poucos, os Irmãos Makossa são uma espécie de ‘autodidactas da procura de raridades’.

A noite de 22 de Agosto é para ouvir o set do Dj Tiago Angelino, com sons que vão da ‘África Portuguesa’ (Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe) à ‘África Negra’ (como o Mali).

Dia 29 de Agosto marca a última quarta-feira de 'África Move' no festival Escrita na Paisagem, com o percussionista Marco Fernandes introduzido pelo músico e compositor Jaime Reis, na apresentação da obra percussion and tape commissioned by Frankfurt Ballet, dance entitled “Walking Music”, para dois percussionistas. Noite em que vamos poder voltar a ouvir mais o Dj Tiago Angelino, a encerrar com o imperativo: dançar!

Évora Perdida no Tempo - Interior do Salão Central Eborense

terça-feira, 10 de julho de 2012

Nancy Vieira (Cabo Verde) em Évora


12 de julho - Nancy Vieira (No Amá) Cabo Verde

Fórum Eugénio de Almeida | 19h00

Nancy Vieira mostra o lado mais tradicional da música cabo-verdiana e mergulha nas raízes da Morna, cruzando os sons do arquipélago com as influências que diretamente lhes estão ligadas. No Amá é o seu mais recente trabalho discográfico e reúne composições de clássicos como BLeza, Eugénio Tavares e Amândio Cabral, dos consagrados Teófilo Chantre e Mário Lúcio e de jovens autores como Rolando Semedo, Tó Alves ou Tutin d’Giralda.

Nancy Vieira - voz
Vaiss - guitarra
Miroca Paris - percussão

Entrada: 6,00€ | Bilhetes à venda no Fórum Eugénio de Almeida


Fórum Eugénio de Almeida
Rua Vasco da Gama, nº 13
7000-941 Évora
Tel. 266 748 350 Fax 266 737 145
forumea@fea.pt

Évora Perdida no Tempo - Fábrica de Massas "Leões"

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Exposição na Igreja de São Vicente até 29 de Julho: 'Cosmopolíticas' de Ana Dias


Como pintar o espaço comum, esse espaço de separações e diferenças entre o eu e o outro? Como traçar a fronteira entre países longínquos e culturas próximas quando habitamos este “caos organizado” a que ousamos chamar aldeia global?

É preciso pintar um mapa, pintar o que nos distingue e dar forma ao que nos aproxima; colorir as fronteiras que nos impedem de pensar a igualdade das pessoas e reflectir sobre os problemas que todos, mais ou menos, sabemos localizar. É preciso usar a pintura como plataforma de entendimento mas, como pensar visualmente o conceito de cosmopolítica?

Isso é o que faz a artista Ana Dias, com este lote de trabalhos que apresenta na exposição com que se inaugura o Festival Escrita na Paisagem 2012. Não esquecendo que a imagem é, também, aquilo que nos revela, a artista mostra-nos as linhas que nos cosem uns aos outros, os espaços sobrepostos das nossas vivências, os cheios e os vazios que se criam entre os indivíduos e as definições/instituições, as transparências e as intersecções dos nossos territórios de acção, sublinhando esta ideia (herdada, ainda, dos antigos descobridores) de que um mapa é o maior tesouro: é aquilo que nos permite chegar mais longe sem nos enganarmos no caminho.

Évora Perdida no Tempo - Pormenor do Interior do Salão Central Eborense

domingo, 8 de julho de 2012

Comercial D2D (M/F) - Évora

A Talenter™ promove o talento dos seus colaboradores de acordo com a natureza específica de cada área, proporcionando diferenciadas oportunidades de emprego e soluções na gestão e valorização das pessoas.

Estamos atualmente em processo de recrutamento de um Comercial D2D para prestigiada Empresa de Telecomunicações com atuação na zona de Évora.

Descrição da Função:
- Comercialização de produtos na área das Telecomunicações no mercado residencial.

Requisitos:
- Habilitações literárias ao nível do 9º ano de escolaridade;
- Orientação para objetivos;
- Forte dinâmica e atitude comercial;
- Dinamismo e espírito de equipa;
- Atitude positiva e otimista;
- Ambição;
- Disponibilidade total e imediata.

Condições:
- Formação inicial remunerada;
- Contrato de trabalho;
- Vencimento base + sistema de comissões aliciante;
- Integração em equipa jovem e dinâmica.

Junte-se a nós e desperte o seu talento!

Caso reúna os requisitos exigidos, envie o seu Curriculum Vitae para


mencionando no assunto da mensagem “Comercial D2D – Évora” ou contacte-nos através do 265 730 858.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A esperança no ouro em Évora (Boa Fé)


Mesmo os mais cépticos sonham que na exploração mineira possa estar o filão económico que lhes resgate o futuro. A prospecção de ouro em terras alentejanas tem levantado a curiosidade de muita gente ao longo das últimas décadas. 

O assunto não é novo, mas continua a alimentar a esperança de todos. Aliás, é até mais velho do que alguns dos habitantes das freguesias da Boa Fé (Évora) e do Escoural (Montemor-o-Novo), entre as quais se encontra o centro das sondagens levadas a cabo pela empresa canadiana Colt Resources. "Há mais de 50 anos que ouvimos falar disto, mas nunca se chegou a lado nenhum. Será que é desta?!", questiona Margarida Banha, residente na Boa Fé.

Estão 40 graus no interior do Alentejo. A calma de um dos dias mais quentes do ano é quebrada pelas conversas que, nos poucos sítios frescos que se encontra na região – cafés e pastelarias –, vão sempre desaguar ao mesmo assunto: o ouro alentejano. Entre o cepticismo e optimismo, muitas são ainda as questões que se levantam quando o tema é abordado. Para muitos, o verdadeiro ouro do Alentejo não está debaixo da terra. Está no azeite, na cortiça, no património, no turismo e na gastronomia, mas há quem tenha fé de que possa nascer uma mina na região.

"Eu acredito que seja desta vez. Nunca vimos os trabalhos com tanta força como agora", disse à Domingo Margarida Banha, proprietária do café Banha, um dos principais ‘pontos de apoio’ aos trabalhadores que por estes dias manobram máquinas de perfuração no seio do montado que fica mesmo na frente da pequena aldeia da Boa Fé, na herdade da Chaminé.

Tem sido bom para o negócio, mas a visão de Margarida vai mais além. "Apesar de toda a vida ter ouvido falar nisto, agora parece que é a sério. Nota-se algum movimento a mais aqui na casa, vendem-se mais umas cervejas e eu acredito que possa trazer coisas boas para a terra", explicou a comerciante.

A empresa Colt Resources, que desde Dezembro de 2011 sonda o solo alentejano, diz que sim. No último relatório, tornado público em Junho, mostrou que nenhuma das sondagens tinha revelado os actuais teores do metal precioso por tonelada de rocha extraída. Em alguns locais, sobretudo na zona de Casas Novas, freguesia de Boa Fé, chegam a atingir os 31,7 gramas.

Contudo, a média de 2,74 gramas por tonelada (g/t) e o número total de onças (363 400) existentes na serra do Monfurado (que abrange os concelhos Évora e Montemor-o-Novo) que equivalem a 11 toneladas, não se alteraram desde os estudos elaborados na região no final da década de 90 do século XX. Ao concretizar-se a exploração, o ouro extraído poderá render, face à cotação actual da onça, 467, 3 milhões de euros.

Cherifa (Marrocos) hoje em Évora


6 de Julho 2012
22h00 - Palacio Cadaval

Cherifa
A Poetisa do Médio Atlas
Marrocos

Que ela seja camponesa das montanhas e dos vales, dançarina ou cantora profissional como os Cheikhats ou os Rwayyes dos Souss, a mulher marroquina está ligada à sua terra, à sua língua, às tradições da herança oral transmitidas de geração em geração. Neste sentido, ela é parte de uma universalidade. As mulheres carregam com elas o ritual íntimo da existência, uma intimidade que os homens por pudor têm ignorado demasiado.

As Cheikhats são principalmente originarias do Atlas Médio e da região de Beni-Mellal. Todas elas são mais que simples cantoras e dançarinas, algumas delas estabeleceram-se como cantoras a tempo inteiro. Estendem-se por uma antiga tradição poética que se adaptou ao longo do tempo. Cherifa foi descoberta quando era apenas uma jovem camponesa, pelo grande mestre e cantor Rouicha de quem será corista durante muito tempo.

Originalmente de Khenifra, a pequena cidade de cor ocre das montanhas vizinhas, Cherifa pode parecer, à primeira vista, austera e masculina. A vida como cantora profissional dá-lhe um modo de vida diferente, um estatuto diferente do que a das mulheres tradicionais marroquinas.

As Cheikhats têm um estatuto ambíguo: mulheres livres, ao mesmo tempo são portadoras de uma palavra que pertence à comunidade e revela os pensamentos ocultos de cada ser. No "tamawayt", tipo de canto Berbere do Médio Atlas, ela recita as palavras dos poetas da aldeia, acompanhado pelo alaúde "Lotar" Aziz Aarim, músico de rara delicadeza e que evoca as cores orientais e tons africanos de música berbere. O registo emocional alterna entre sentimentos de alegria e de sofrimento.

Os cantos de Cherifa muitas vezes terminam ao ritmo de Ahidous, a dança e o canto da comunidade de aldeias no Médio Atlas. No Ahidous original, o poeta penetra ao centro de um círculo humano, tanto masculino como feminino para recitar uma perspectiva que poderia ser contrariada por outro membro da aldeia. Os coros dos bailarinos aquiescido por um conjunto de fórmulas responsaria em festas que podem durar mais de 4 horas. A energia dessas danças catalisadas pelo raïs para a música e ritmo, e o ma'llem para a organização da dança, mantém um papel unificador dentro da aldeia.

Chamados Berberes pelos antigos conquistadores gregos e romanos que chamaram àqueles que não falavam a sua língua, este povo hoje reivindica uma verdadeira identidade cultural e linguística. A sua língua de origem karito-semita e, portanto, relativamente perto do árabe, divide-se em grupos diferentes, o dialecto Tuaregue das montanhas Aures, do Imazighen e do Médio Atlas.

Hoje, os berberes tentam adaptar os seus dialectos respectivos à escrita Tuaregue. São eles que por sua nobreza "bárbaro", forjaram, por sua marca, a música marroquina de hoje.




Évora Perdida no Tempo - Sala de Projecção do Salão Central Eborense em 1945

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ana Moura hoje em Évora


5 de Julho 2012
22h00 
Palacio Cadaval

Noite de solidariedade com Moçambique
Ana Moura
Fado
Portugal


As datas, os dias, os números, os factos: se ao menos pudessem explicar o que faz Ana Moura. O que nos faz Ana Moura. Mas para o que nos interessa, e que é esse mistério, o que aconteceu na carreira de Ana é apenas a parte palpável dessa arte do indizível que a fadista domina como poucos. Essa força, esse sentimento que não tem mapa nem estradas e que para facilitar chamamos alma. É isso e só isso que faz de Ana quem ela é; é isso que a sua voz devolve, embrulhando as palavras dos poetas.

Mas limite-mo-nos por agora ao que é factual, o rasto visível da vida e alma de Ana Moura.

As mães, na sua sabedoria do coração, nunca se enganam. E quando Fernanda Pereira ouvia a sua filha cantar repertório vário desde tenra idade sempre lhe dizia: «É no fado que a tua voz se nota mais.». Não era só a voz, mas isso só mais tarde se descobriria. Para a pequena Ana Moura, crescer no meio de uma família com amor pelas canções e pelo fado em particular ajudou secreta e docemente à sua vocação. Em Coruche, onde viveu até à adolescência, a voz de Ana já se tornava conhecida. As suas paixões musicais estavam, como é natural, longe do fado: o rock e o pop eram mais próximos da urgência de viver característicos desses anos de descoberta, e Ana não era excepção.

Nunca iremos saber se se perdeu uma carismática vocalista pop; mas o que se ganhou é demasiado precioso para se ignorar. Depois de um ritual iniciático, em que Ana foi convidada por guitarristas para cantar em várias casas de fado, Maria da Fé ouve-a e contrata-a para o Sr.Vinho. Foi o princípio de tudo.

Para quem quer viver o fado, a casa onde se canta transforma-se em escola. Foi o que aconteceu com Ana Moura nos anos em que cantou na casa de Maria da Fé. Mas o destino sabe escolher quem o procura: e foi no Sr.Vinho que Ana encontrou o cúmplice musical – o cantor, autor, produtor e compositor Jorge Fernando. Fadista de coração, Jorge Fernando, conviveu com os grandes – foi durante anos viola de Amália Rodrigues. Compositor e escritor de canções excelente, Fernando é também um produtor de visão e sensibilidade extraordinária. E desta união musical nasce o primeiro passo para uma grande carreira: o disco Guarda-me a vida na mão (2003) apanhou público e crítica de surpresa. Sou do fado, sou fadista, um dos temas do álbum, tornou-se um clássico instantâneo. Há muito que não se ouvia uma voz assim, tão cheia, tanto nas palavras como nos silêncios. A crítica enalteceu o disco e Ana Moura começou a ser chamada para actuações no estrangeiro, onde o seu talento era ainda mais reconhecido. E o melhor ainda estava por vir.

O ano seguinte foi mais um degrau conquistado na carreira de Ana Moura. O novo disco era ambicioso: Aconteceu (2004) era uma aventura conceptual, um duplo cd que se dividia em fado tradicional («Dentro de casa») e caminhos possíveis para fora e à volta do fado («À porta do fado»). Para reforçar esta nova abordagem foram convidados letristas e músicos de outros universos musicais, como Tózé Brito, Tiago Bettencourt ou Miguel Guedes (Blind Zero).

E de facto, a partir deste disco, aconteceu: as fronteiras começaram a desaparecer para Ana Moura, que cada vez mais era reconhecida no estrangeiro. O seu sucesso nos Países Baixos levou a que fosse nomeada para um Edison, o equivalente a um Grammy holandês para a world music ; e para consagração total, a história recordará que a primeira artista portuguesa a pisar o palco do Carnegie Hall de Nova Iorque (uma das mais famosas salas do mundo) foi uma jovem tímida chamada Ana Moura.

Só que o mundo queria mais e começava a ser pequeno para a alma de Ana. Vai a Cannes, durante o Festival de cinema. Canta no Getty Museum. Esgota salas famosas por todo o globo. E, durante esses dias, no longínquo Japão, um músico compra uma série de discos de fado. Coloca um deles no leitor de cd e poucos minutos depois pára de escutar, boquiaberto: tinha encontrado a voz que há muito procurava. Esse homem era Tim Ries, saxofonista residente dos Rolling Stones e mentor de um projecto paralelo: o The Rolling Stones Project, onde junta grandes vozes do planeta para cantar versões pessoais de temas dos Stones. Ao ouvir os primeiros minutos de Aconteceu, Ries não hesitou um segundo e convidou Ana para participar no projecto.

Escolheram-se dois temas, adaptados por Jorge Fernando e pelo guitarrista Custódio Castelo. Faltava que a mítica banda conhecesse a fadista. Aconteceu em Lisboa, na véspera do concerto dos Stones no estádio Alvalade XXI. Na Casa de Linhares, a casa de fados onde Ana costumava cantar, Mick Jagger, Keith Richards e companhia ficam deslumbrados pelo concentrado de alma que sai da voz de Ana. Jagger, depois da actuação da fadista pede-lhe uma palavra em particular. E foi assim que no dia seguinte cerca de 40 mil pessoas renderam-se à versão de No Expectations cantada no mais inesperado dueto: Mick Jagger e Ana Moura, num momento em que a artista considera ter sido dos mais inesquecíveis que até agora viveu.

Com uma agenda mais do que preenchida, só em finais de 2006 começa a preparação do disco que finalmente iria chegar ao coração dos portugueses, num reconhecimento um pouco tardio mas mais do que justo: Para Além da Saudade (2007) é a maturidade de uma fadista, a segurança no estúdio e a vitória de um conceito. Regressando a uma sonoridade em que apenas conta o essencial (baixo, viola de fado, guitarra portuguesa), Para Além da Saudade abre a porta ao novo que vem da herança. É o caso das novas parcerias, em que se incluem Amélia Muge (Fado da Procura), Fausto (Viemos Nascidos do Mar) ou Nuno Miguel Guedes (Mapa do Coração). Como colaboradores musicais, este disco conta também com o mítico Patxi Andion e Tim Ries, que aqui «retribui» a participação de Ana no seu projecto. E sobretudo é em Para Além da Saudade que Ana Moura ganha o seu primeiro grande fado emblemático: Os Búzios, da autoria de Jorge Fernando, torna-se tema mais do que obrigatório em todos os concertos e cantado em uníssono com a plateia.

Para Além da Saudade obtém o Disco de Platina. Fora de Portugal, Ana Moura é cada vez mais requisitada e para além de grandes digressões na Europa conquista o México e os Estados Unidos. Mas o seu mérito também é reconhecido dentro de portas, com a atribuição em 2007 do Prémio Amália para Melhor Intérprete do ano, atribuído pela Fundação Amália Rodrigues.

Dito isto, Ana estava pronta para outro grande desafio: os Coliseus de Lisboa e Porto, que aconteceram em 2008. Duas noites mágicas, captadas num DVD que também conquistou a Platina. Com duas convidadas lendárias – Maria da Fé e Beatriz da Conceição – e com a cumplicidade em palco de Jorge Fernando, Ana Moura enche uma sala que é raro o fado encher. Outra vez: enche a sala de alma. E entretanto Para Além da Saudade chega à Tripla Platina e fica cerca de 120 semanas no top nacional.

Mais viagens, mais espectáculos, mais reconhecimentos. Como este: o Prémio Internacional da PALCUS (Portuguese American Leadership Council Association), a maior associação Portuguesa nos Estados Unidos, e atrbuído durante uma Gala realizada no City Hall de San José, Califórnia. Esta ida aos Estados Unidos coincidiu com os concertos de apresentação do disco “Stones World: Rolling Stones World Music Project” nas cidades de Nova Iorque e São Francisco.

Com uma carreira tranquila mas sem cedências, Ana Moura vivia dias felizes. Mas a fasquia estava de facto muito alta e o próximo disco seria decisivo para distinguir maturidade de aparente estagnação. E felizmente mais uma vez foi a alma inquieta de Ana quem superou as armadilhas do sucesso. Repetindo um núcleo duro de parcerias oriundas de Para Além da Saudade, o recente disco Leva-me aos fados (2009) é mais um passo em frente que evita rupturas que procuram o novo pelo novo. Com duas guitarras a suportarem uma voz cada vez mais segura de si, Leva-me aos fados conjuga a beleza do fado tradicional com os caminhos inesperados de Não É Um Fado Normal, assinado por Amélia Muge e com a participação dos Gaiteiros de Lisboa. A isto acrescente-se as mais-valias preciosas que são as espantosas contribuições de José Mário Branco e Amélia Muge e tem-se um disco belíssimo e equilibrado, cujo tema-título é outro enorme êxito popular, justo herdeiro de Os Búzios.

Mal foi editado, Leva-me aos Fados foi disco de Ouro; daí à Platina foi um passo muito pequeno.
Ainda em 2009, durante um concerto em Paris, um espectador muito especial ficou maravilhado. Era Prince, que reconheceu que já tinha antes ouvido Ana. Confirmaram-se talentos mútuos, descobriram-se cumplicidades. E foi assim que, um ano depois e de forma natural, Ana Moura cantou dois fados com Prince, durante a histórica actuação do génio de Minneapolis no SuperBock SuperRock . Se haverá mais alguma colaboração desta admiração musical ainda esta por saber.

A verdade e que a estrela de Ana tem fulgor e vida própria, como o prova os reconhecimentos e sucessos acontecidos durante 2012. O Globo de Ouro na categoria de Melhor Interprete veio confirmar o seu reconhecimento a nível nacional, contando ainda com o efeito que teve o extraordinário Leva-me Aos Fados, que aliás iria ultrapassar fronteiras, como veremos. Ainda em Portugal, e em ano de euforia pela participação da selecção nacional na fase final do Mundial de futebol, a fadista e escolhida para cantar o hino nacional perante um Estádio do Jamor repleto para o concerto dos Black Eyed Peas, que marcou a despedida da equipa portuguesa para a África do Sul, onde se realizaria o torneio.

Foi um ano intenso de concertos para Ana Moura. E foi durante a sua digressão inglesa que a fadista chegou ao segundo lugar do top de vendas da Amazon britânica. O álbum Leva-me Aos Fados, disponível para o planeta através da maior e mais conceituada loja online, viajava pelo globo, levando as sombras e a luz do fado de Ana Moura.

O ano de 2012 foi também o tempo de um novo desafio musical, que a permanente curiosidade e desejo de acrescentar da artista acolheu de braços abertos: os concertos de Frankfurt com a Frankfurt Radio Big Band provaram da melhor maneira que o jazz e o fado se podem seduzir e andar juntos. A alma não conhece barreiras e foi isso que sentiram os espectadores privilegiados que estiveram na sala alemã. Felizmente, e devido ao sucesso desses espectáculos, a artista decidiu partilha-los com o publico português em duas das mais nobres salas do pais: e ´e assim que em Abril de 2011 os coliseus de Lisboa e Porto irão receber esta inesperada mas luminosa combinação musical.

O brilho de Ana Moura continua a fazer-se sentir logo no inicio de 2011, com a nomeação para Melhor Artista pela prestigiada revista de world music Songlines, e pela rodagem de um documentário para o canal Mezzo sobre a carreira.

Onde chegará a alma de Ana? É difícil dizer

Entretanto, e por esse mundo fora, Ana vive o dia a dia fazendo o melhor que sabe: espalhando com a sua voz a imensa alma que apenas se adivinha por detrás de um frágil sorriso de menina.


Évora Perdida no Tempo - Acessos Interiores do Salão Central Eborense