quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O sortilégio da feira de S. João



Em quase todo o território Junho é tempo de folguedo, regozijo, arraiais e espectáculos. No decorrer do mês celebram- se os dias dos três santos populares: Santo António (a 13), S. João (a 24) e S. Pedro (a 29). A religiosidade passa, porém, para segundo plano e é o tempo festivo que alegre e efusivamente impera. O profano então sobrepõe-se ao sagrado, sem que ninguém se empenhe a censurar o atropelo pagão. 

É, pois, no decorrer desse período que em Évora se comemoram as Festas da Cidade, organizadas em torno da Feira de S. João, criada por Alvará do Rei D. Sebastião, datado de 1 de Março de 1568. A sua primeira realização só ocorreu contudo a 24 de Junho do ano seguinte e teve lugar no Terreiro do Rossio de S. Brás, seu cenário de eleição. Pelo tempo adiante viria a converter-se na maior feira ao Sul do Tejo, mexendo – e de que Desde o seu início que a Feira de S. João se caracterizou pelo cariz vincadamente agrícola. 

Na segunda maior cidade do país, por essa altura, o certame impôs-se como o local indicado para os lavradores da vasta planície efectuarem os grandes negócios e transacções de gado. A ele viriam a acorrer, igualmente desde os seus primórdios, mercadores e artesãos que aqui se propunham vender também os seus produtos. Entre estes encontravam- se os cirgueiros, os cirieiros (vendedores de velas), os curtidores, os oleiros, os ourives, os filateiros, os tecelões, os sapateiros e tantos outros. 

Se para os lavradores havia um espaço próprio, para os mercadores e artesãos a Feira era arruada. Estes instalavam as sua tendas – ainda como hoje pequenas barracas onde os vendedores se instalam, expõem e transaccionam artigos e objectos – em ruas próprias, de acordo com os respectivos mesteres e ofícios. Nesta zona de arruamentos obedeciam a igual critério de arrumação as chamadas lojas de capelas que vendiam quinquilharias, fitas, linhas, retrozes e outras miudezas de costura e de modas. 

Espaços especiais havia igualmente para as tabernas, saltimbancos, funâmbulos, acrobatas, aramistas, bonecreiros, comedores de fogo, vendedores de banha da cobra e bailarinas, tal como os aguadeiros podiam circular livremente pelo terrado desde que não perturbassem os outros. Este foi o paradigma quase imutável da Feira até aos princípios do século XIX. Durante duas centúrias e meia foi alargando o tempo de duração, que começou por ser de três dias e paulatinamente se foi estendendo aos oito, ainda que em diversos períodos de instabilidade político-militar tivesse sofrido alguns interregnos. Entretanto, a pacificação das relações com Espanha e o fim das invasões francesas vieram a conferir a todos, lavradores e artesãos, principalmente, uma segurança até aí desconhecida. 

Pode dizer-se que é a partir de 1848 que na Feira começam a ser introduzidos novos elementos, que não a desvirtuam, antes pelo contrário a enriquecem, alargando o leque de actividades que proporciona aos seus frequentadores. Nesse ano as touradas passam a ser incluídas nos festejos, enquanto as companhias de teatro ousam montar tenda na feira para apresentarem os seus espectáculos, escolhidos de propósito para a ocasião. Aparecem em edições seguintes os domadores de répteis, que aproveitam o seu estado de hibernação para os manterem sob controle. Crescem as tabernas episódicas e surgem as primeiras tendas de fotógrafos. Os circos organizados estabelecem-se por vários dias e as bandas filarmónicas e militares, dos regimentos fixados na cidade, exibem-se por todo o lado. 

Nem o novo regime republicano se atreveu a mexer no modelo da Feira, que cresceu desmesuradamente nas décadas seguintes. Com a Campanha do Trigo, os vendedores agrícolas floresciam, o dinheiro circulava com alguma abundância na cidade e a Feira era um bom sítio onde o gastar. O combóio e as camionetas de carreira (assim se designavam ao tempo) lançavam, nesses dias de febril excitação, vagas de forasteiros e muitos eborenses, os quais, tendo saído do seu torrão natal para ganhar a vida noutro lado, aqui regressavam para reviver tempos antigos. 

Na década de 50 do último século, a Feira de S. João tinha atingido o seu auge, acabando por ficar imortalizada na Literatura Portuguesa através de três grandes escritores: Fernando Namora, Vergílio Ferreira e Antunes da Silva. O primeiro, médico em Pavia durante muitos anos, retratou desta forma na sua obra “ Retalhos da Vida de um Médico” (1949) o fascínio que a Feira exercia sobre as gentes do distrito: «(...) Évora tinha, nesse dia o aspecto de um grande arraial provinciano. Tal como nas festanças da minha aldeia, mas em ponto grande. A gente da cidade e os maiorais das vilas, refrescavam-se nas esplanadas, à espera da brisa do entardecer, de jalecas curtas e alforges, com a merenda, andavam por ali como um rebanho atordoado. (...) No poente permanecia um clarão, mas algumas luzes da feira já tinham sido acesas. 
À medida que o céu escurecia, esse delírio de fogachos de várias cores tornava-se fantasmagórico. E excitava como um vinho quente. Obrigava-nos a mergulhar os sentidos na fascinação. As vozes dos pregoeiros, dos mágicos, dos vendilhões, ecoavam com um timbre mais agudo sempre que o pessoal engrossava nas ruas afluentes do imenso largo. A Rosinda já conhecera outras feiras, havia uma lá na aldeia em todos os Junhos, mas esta era uma feira da cidade. Nenhum termo de comparação (...).» 

Também o beirão Vergílio Ferreira, em “Aparição” (1959), não lhe ficou indiferente e fez dela uma síntese extraordinária: «A feira abriu com grande excitação. Todo o Rossio se iluminou de festa com fieiras de barracas, carrocéis, circos, stands de carros e máquinas agrícolas, botequins, tendas de doçaria, de fotocómico, tômbolas, jogos de argolinha, aparelhos de buena-dicha com variantes de passarinhos que tiram o papel da sorte, tiro ao alvo, aparelhos para demonstração de forças, solitários vendedores de água com uma bilha e um copo ao lado, vendedores de mantas, de escadas, de cestos – sob um céu duro de alto-falantes e poeira e vibrações luminosas. 

Noite de S. João, noite cálida de bruxas e de sonhos (...)». Por sua vez Antunes da Silva, eborense de nascimento que por perseguições políticas foi obrigado a ir viver para a Amadora, fez seu o lamento de muitos conterrâneos que não podiam vir a Évora nessa data, em apontamento escrito no seu diário “Jornal I”: «Aproxima-se a Feira de S. João na minha terra, que este ano promete. Évora às janelas, nas ruas, nas igrejas, nos claustros, nas touradas, nos jardins, mas sobretudo em pacífica ebulição de prazeres de uma jovial natureza que se revê em acenos que o marcam para a vida inteira. Por força de uma mórbida passividade ou mágoa, ou ainda por via de teimosas vontades alheias, estou longe». Era este, e ainda hoje é, ainda que mais esbatido, o fascínio da Feira de S.João.

Texto: José Frota

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