Igreja Paroquial de Santo Antão


Ocupa na totalidade o espaço da demolida ermida gótica de Santo Antoninho e do hospital-albergaria do Corpo de Deus, da Ordem dos Templários, além da desaparecida Rua dos Gaios, que corria na linha da dependência da Irmandade do Santíssimo Sacramento e de outro casario da Rua Ancha, que se adquiriu ao fidalgo Roque de Almada em 1549-50 e se deitou abaixo seguidamente, sob direcção do mestre Manuel Pires. No adro dessa remota casa religiosa se deu, em tempos do rei D. Dinis, no dia 6 de Fevereiro de 1286, a histórica reunião entre a corte, concelho, alcaide, juizes, homens bons, vassalos e representantes dos arrabaldes da cidade para ajuste de certa convenção de interesse público. A colegiada-paroquial foi fundada no dia 18-4-1333 e o provimento dos primeiros raçoeiros é de 1380 (L.° dos Originais do Cabido da Sé de Évora - pasta preta, fls. 22-23). O arcebispo D. João de Melo criou o reiturado em 28 de Abril de 1565, prelado que pela primeira vez se designou prior de Santo Antão. O 2.° prior foi o cardeal-infante D. Henrique. A este príncipe da Casa de Avis e último monarca da mesma dinastia se deve a fundação do presente edifício que, para o efeito, obteve assistência de seu irmão D. João III, monarca que, em Fevereiro de 1548, mandou estudar o local pelo arquitecto régio Miguel de Arruda. 

O autor do projecto foi, todavia, o mestre de pedraria eborense Manuel Pires, que deu início à obra no ano de 1557 e a deu como pronta em 1563. Em 17 de Abril de 1568, sábado de Aleluia, um abalo telúrico de certa violência deitou por terra a abóbada da igreja e esmagou nos escombros oito pessoas. O arquitecto das Obras da Comarca, Afonso Álvares, a solicitação do prelado fundador estudou o restauro em 1570, data lamentável para a arqueologia monumental eborense, pois nesta fase das obras D. Henrique ordenou o apeamento do arco triunfal romano da Praça Grande, que lhe ficava sobranceiro, e a subsequente recolha dos seus materiais ao Colégio do Espírito Santo. Do exame técnico de arquitectura saiu a empreitada final do mestre Brás Godinho, oficial de pedraria muito competente que levantou das ruínas todo o edifício. 

De principio, teve de consolidar as colunas das naves feridas pelo desmoronamento mas que aguentaram o terramoto; em 1572 rebocou internamente toda a obra, incluindo os fustes e fechou-se a nova cobertura, construíram-se as capelas laterais, os portados e o adro do tabuleiro ficou completo, com os degraus, em 1577, período limite da empreitada, pois nesta data se lançou a última féria custeada pelo prelado padroeiro. Baltazar Fernandes, mestre pedreiro assistiu a toda a reconstrução como capataz da obra. Na mesma fase o carpinteiro Manuel Gonçalves fez as portas de carvalho de Flandres e as primitivas grades de bordo dos santuários, substituídas posteriormente por outras de ferro forjado e ultimamente pelas existentes, de lamentável fundição novecentista. O monumento foi sagrado no dia 22 de Abril de 1804 pelo arcebispo D. Fr. Manuel do Cenáculo. Numa dependência colegial se guardaram, durante anos, os retratos de alguns condenados pelo Tribunal do Santo Ofício de Évora, em virtude de, no seu adro se armarem, nos sécs. XVI-XVII as tribunas dos bispos-inquisidores durante os Autos da Fé. A galeria de pintura, singular entre nós, foi irremediavelmente destruída na centúria setecentista. 

Em Agosto de 1637 na igreja se reuniu a Junta de Santo Antão, presidida pelo antístite D. João Coutinho e proposta pela nobreza, que pretendeu pacificar, em vão, os motins populares contra a dominação espanhola de Filipe IV. De porte volumoso, severo e pesado, a fachada principal do templo deita para o tabuleiro da Praça de Geraldo, olhando ao lado sul e enche completamente o topo norte do mesmo recinto público, do qual está separado por vasto adro lageado, com degraus de mármore e gradeamento de ferro forjado com seus cancelos, obra executada em Abril de 1794 por ordem do arcebispo Botelho de Lima. 

O alçado frontal, de três tramos apilastrados compostos de janelas rectangulares com enxalços muitos recuados, é abraçado, nos ângulos, por duas torres quadrangulares cintadas de aparelho granítico. A obra de coroamento, compreendendo as cúpulas e frontões de enrolamento separados por pilastras escaioladas, com fachos de alvenaria, embora principiada pelo mestre Brás Godinho em 1575, teve seu desfecho nos fins do séc. XVIII. No eixo existe o relógio de quartos, doação do dr. Baptista Rolo (1902). O remate piriforme da torre do Ocidente é o único da fase primitiva: sotopostos ao olhai do sino régio existem, grande relógio de horas, em placa marmórea de números romanos, hoje avariado, e a lápida evocativa da sua inauguração em 1835 pelo Município Eborense, que diz: REINANDO / D. MARIA II / Á PUBLICA UTILID.E / A CAMARA MUNICI / PAL ANNO 1835 / Três portados vulgares, com portas almofadadas e pregueadas, dão acesso ao templo: o axial, mais ancho, de empena triangular metida em falso arco pleno, é decorado por cimalhete armorejado em campo de oiro com quatro bandas de vermelho (escudo do prelado Botelho de Lima). 

Sobrepujante e enchendo na totalidade o tramo frontal conserva-se a lápida da fundação, aberta em caracteres latinos sobre placa de granito, de homenagem ao Cardeal D. Henrique: DIVO ANTONIO ARCHIMANDRITE SACRVM D. EMANVELIS LVSIT. REGIS PII FEL. INVICTI FI. HENRICVS S. R. E. PR. CARD PRIMVS EBOR. ARCHIEP. PRIORE DIRVTO NOVVM HOC LONGE CAPACVS FORMA STRVCTVRA QVE AVGVSTIORE RELIGIO- NIS ERGO EREXIT. A torre do Nascente, por outro lado, tem uma lápida moderna, rectangular, de mármore de Estremoz, comemorativa das Alterações de Évora em 21 de Agosto de 1637, particularizando os nomes de João Barradas e Sesinando Rodrigues, juiz e escrivão da Casa dos Vinte e Quatro, que foi inaugurada em 21 de Agosto de 1928. Os alçados laterais, de cinco tramos, são protegidos por robustos botaréus de pedra lavrada, em dois andares, constituindo varanda no primeiro, correspondente às coberturas das capelas laterais e no superior defendendo as cornijas do telhado de duas águas. Na linha paralela do cruzeiro erguem-se duas meias torres quadrangulares que, segundo o plano original se destinavam a receber os sinos, conforme o tipo adoptado por Afonso Álvares na igreja colegial do Espírito Santo. Grande lanternim circular, hoje tapado, coroa a ábside e os telhados das lanternetas colaterais são desenhados em linhas radiadas ou de quatro vertentes. Exemplar notável de arquitectura funcional do Renascimento, é a escada helicoidal da torre do lado nascente, composta por 78 degraus de granito, apoiados numa nervura central, chanfrada, que conduz aos terraços. É obra de pedraria da primeira época do edifício, atribuível a Manuel Pires, de c.ª 1560. 

Nos olhais deste torre existe um carrilhão de 8 sinos de bronze, fundidos em Lisboa por Cândido Rodrigues Belas, em 1856, os quais são dedicados a S. João, S. José, Santo António e a outros santos do nosso hagiológio. Têm as imagens esculpidas. Mais dois sinos de construção recente - 1938, - completam o carrilhão e foram fundidos na Nova Lusitânia, de Ermezinde. O principal é consagrado a Santo Antão, e substitui o que caiu na década de 1920 e se desfez em mil bocados, no solo, em pleno dia, sem atingir, felizmente, qualquer pessoa. A torre velha, reformada no fim do setecentismo, mantém os dois sinos grandes, primitivos, destinados aos repiques reais, fundidos em bronze e decorados com as armas da casa reinante de Portugal, do último período de D. João III ou dos alvores do governo de D. Sebastião. Adaptados no século actual à relojoaria mecânica, o da banda do ocidente foi destinado aos quartos e o maior e mais nobre que deita para a praça, às horas. Este está ornado com bela inscrição latina rebordada de caracteres góticos floridos, intervalados por estrelas esculpidas, que diz: EMITE + SPIRITUM + TUUM + ET + CREABUNTUR + ET + RENOVABIS + FACIEM + TERRAE O terceiro sino, auxiliar dos quartos, é estampilhado de 1706 e tem, também, gravada, cruz disposta em tabelas losangulares, de andares, com punções estrelados e o emblema de J.H.S. Na fachada lateral do edifício, sobranceiro à Rua Nova e encravado no vão da primeira capela (desornada), com licença da Colegiada, edificou a Irmandade do Senhor Jesus dos Passos o seu quinto passo, feito de mármores de Estremoz, em 1723. Trata-se de exemplar do estilo barroco, absolutamente igual aos restantes da cidade, talvez mais perfeito arquitectonicamente, no qual se venera uma tela pintada a óleo, da mesma época e de pobre factura artística, na representação de Cristo a caminho do Calvário. INTERIOR Disposto em três naves de cinco tramos (incluindo o coro), em planta rectangular de 33 m. de comprimento por 17 m. de largura, oferece pelos volumes e proporções das colunas da ordem jónica, dispostas em tambores de granito e pela altura da cobertura, certa imponência aliada à severidade peculiar aos edifícios sagrados do fim da Renascença Portuguesa. A abóbada, quase plana e lançada ao nível das três naves, reforçada com nervuras de aresta viva onde subsistem vestígios acentuados de cintas de cal de obra a imitar pedra, é da reforma de 1570-75, dirigida pelo arquitecto Brás Godinho. Protótipo de uma série de monumentos levantados na província do Alentejo a partir da última década do reinado de D. João III e sob influência, manifesta do arcebispo D. Henrique, é exemplar muito curioso de templo-salão inspirado nas hallenkirchen da Alemanha. 

O projecto original de Santo Antão, sob assistência do arquitecto Manuel Pires, demonstra que ele deu começo ao grupo de igrejas que ainda em vida do mesmo prelado se ergueram em Estremoz, Vila Viçosa, Veiros, Olivença, Monsaraz e Alcáçovas. As colunas foram rebocadas no período de 1570 e ornamentadas com arabescos florais e círculos dourados, no espírito da arte barroca, cujos restos são visíveis nos arcos e fustes do presbitério. Dos restauros do tempo do arcebispo D. Fr. Joaquim Xavier Botelho de Lima (1784-1800), são os janelões marmóreos das empenas laterais, que substituíram as lunetas primitivas, estreitas como as da fachada principal e que davam pouca luz ao edifício, e o guarda-vento de madeira que, todavia, foi acabado com subsídios do cónego Miguel Remígio de Lima, em Dezembro de 1815. Os corpos laterais que o fecham completamente, são modernos. A este douto sacerdote, de origem italiana, grande benfeitor da Colegiada se deve, também, aliado ao cónego Lourenço Saraiva, a construção do coro e das cadeiras que o guarneciam. Interessante é o púlpito da nave central, de granito escuro, com base circular dividida em secções aneladas e apoiado em pedestal constituído por coluna toscana. 

Tem características da arte seiscentista. A cavaleiro dos arcos mestres das capelas transeptais, existem dois volumosos painéis pintados a óleo sobre tela, ao alto, dedicados à Exaltação do S. Sacramento e à Aparição de Cristo à Virgem, obra de pouco valor pictórico devida ao pincel do artista eborense José Xavier de Castro, datada de 1738, assim como outro que se guarda numa sala representando As Bodas de Canaã, muito maltratado e que figurou na parede sotoposta ao arco do coro. Das várias campas perpétuas, de mármore, que pavimentam o chão do templo, a maior parte perdeu, pela acção do tempo, a identificação das pessoas que nelas se enterraram. Uma delas, na entrada principal, foi brasonada e as restantes apenas têm simples epitáfios. 

À entrada da nave lateral do Evangelho jaziam os membros da Colegiada, como se lê ainda numa lage: S. DOS PADRES DESTA CAZA e mais abaixo, noutras linhas, que prosseguem ilegíveis: E. IAZ O PE ANT. LOPEZ Aos pés do púlpito: S. DE IOANA RO IZ E D. ERDS. Defronte da capela do Senhor Jesus dos Terramotos, em campa de mármore branco: S.A DO P.E JOZE NVNES DE AZEVEDO CO TRIM INDIGNISSIMO SACERDOTE SECV LAR E HVMIDISSIMO DEVOTO DA SACRO SANTA IMAGEM DE CHRISTO CRVCIFICA DO COLLOCADO NES TA CAPELLA. RECORDARE DOMINE CRE ATURE TUEQUAM PRETI OSISSIMO SANGUITUORE DIMISTI PONE PASSIONEM CRU CEM ET MORTEM TUAM IN TER JUDITIUM TUUM ET A NIMAM MEAM. As dez capelas laterais, com exclusão das do transepto e da 1.ª do lado direito, que nunca foi terminada, estão fechadas por ridículas grades de ferro fundido, dos finais do séc. XIX, que substituíram altos cancelos seiscentistas, durante as lamentáveis reformações dos mesmos santuários, quase todos redoirados a purpurina. São abertos em arcos de volta perfeita, de cantaria aparelhada e foram construídos entre 1570-75. 

Comecemos a sua enumeração pelo lado do Evangelho e a partir da primeira capela. BAPTISTÉRIO Está forrado na totalidade por apainelados de azulejos de esmalte branco e decoração azul, de dois tipos emoldurados - em desenho floral e geométrico -, valorizados, no centro, pelo painel de nove azulejos coloridos a amarelo e branco representando o armorial do arcebispo protector D. Fr. Luís Teles da Silva (1691-1703). Sobre a pia baptismal, peça vulgar, de mármore da região, de bojo circular apoiado em base quadrada, existe o grande retábulo pintado a óleo sobre tela do Baptismo de Jesus, que enche completamente o tramo fundeiro. É trabalho de oficina local de c.ª 1735, atribuído a José Xavier, sem valor artístico. CAPELA DE N.ª S.ª DA ALEGRIA Actual de Santo António. Altar de talha esculpida, de transição do classicismo para o barroco, dos alvores do seiscentismo, reformado e marmoreado no dealbar do séc. XVIII no espírito da arte rocócó do tempo de D. José I. Do período original conserva a estrutura retabular com colunata coríntia, de canduras, e o terço coberto de temas fitomórficos e no friso da banqueta, opulentas cartelas de vários desenhos, esculpidas e douradas. 

O nicho central, com aplicação de talha e os fogaréus terminais, são posteriores: sobrepujante ao conjunto, na empena, em forma de pórtico, de fustes clássicos e frontão circular, enquadra-se o painel do Menino entre os Doutores, pintado sobre tela. Nos espaços intervalares do altar, mais quatro composições da mesma época e factura, medíocres como obra de arte, constituem o recheio do santuário: representam a Anunciação da Virgem, dois painéis, no corpo superior, e Santa Ana e S. Joaquim, no inferior. A imagem padroeira, antiga, de somenos mérito artístico, recolheu-se na sala da Irmandade do S. Sacramento. As paredes laterais estão revestidas de azulejaria do tipo de maçaroca, formando discos explendentes, polícromos, de interessante efeito ornamental. São da 1.ª metade do séc. XVII. CAPELA DE SS. CRISPIM E CRISPINIANO Hoje de N.ª S.ª de Fátima. 

O altar, carregado de talhas barrocas, é decorado por colunas salomónicas recobertas de folhagem, com pinturas de tons verdes, azuis e doirados, sendo a arquitrave engalanada por tabela túrgida que anuncia as formas do estilo rocócó do último período joanino (c.ª de 1750). Anjos simbólicos e ceroferários, de madeira policromada, decoram os acrotérios. No corpo central, mísulas enobrecidas com dosséis são suportadas por atlantes de relevo envolvidos em volutas engrinaldadas. Curioso, o conjunto escultórico da Sagrada Família, de madeira bem estofada, com características oficinais do último terço do séc. XVII, da extinta Irmandade de S. José dos Carpinteiros. Vieram trasladados para aqui em 4 de Março de 1839, precedendo despacho da Junta do Governo de então. Medem, as imagens: S. José e Nossa Senhora, 1,00 m. Menino Jesus, 0,55 m. Diz-se que o retábulo de talhas veio da capela-mor de Santa Catarina de Sena pouco antes da demolição deste convento da Ordem de S. Domingos. As paredes estão guarnecidas de azulejos verdes e brancos, enxadrezados, dos começos do seiscentismo; no tecto, a composição é disposta em linhas paralelas formando pequenos quadros gradeados. 

Num cubículo do altar guarda-se tosca inscrição de caracteres romanos gravada em bloco de mármore branco, que diz: ESTA CAPELA HE DA IRMANDADE DOS GLORIOZOS M ARTIRIS SÃO CRIS PI CRIPINIANO ERA DI EI 20 (1720?) CAPELA DE SANTA ANA Mais tarde de N.ª S.ª dos PRAZERES e actualmente de Santa Terezinha do Menino Jesus (altar das Missões). Tem retábulo de talhas pintadas e douradas, com colunas do tipo berniniano, do barroco tardio, rematadas por fachos e nicho central, muito amplo, revestido de obra de marcenaria do estilo rocócó, doirada e mais recente à da factura geral. No corpo superior existe um curioso painel de tábua, de secção rectangular, com a Adoração dos Pastores, delicada pintura da Escola Maneirista, de mestre anónimo mas bom oficial do seu mister, datável de c.ª 1580. Em represas laterais veneram-se algumas pequenas imagens modernas; de interesse e antiga, apenas, a de madeira policromada, de S. Francisco Xavier. Outrossim, no altar, conserva-se uma credencia de talha esculpida e dourada, do estilo D. João V. CAPELA DE N.ª S.ª DOS REMÉDIOS Foi de particular devoção do arcebispo D. Fr. Miguel de Távora, membro da Ordem de Santo Agostinho, que a enriqueceu e dotou e nela se conserva no tímpano, embora mutilado, o armorial da sua casa, tapado à ordem do Marquês de Pombal, em 1759. Altar e talha do estilo rocócó, ainda de colunata salomónica recoberta de temas naturalistas, foliácios, com empena circular de medalhão decorado por grinaldas. Infelizmente, o retábulo foi muito retocado em épocas modernas. Belíssimo quadro a óleo sobre tela, bem emoldurado, de Santo Agostinho, atribuído a Francisco Vieira de Matos (Vieira Lusitano), enobrece o santuário. Pintura de c.ª 1740, é presumível réplica do painel do Museu Nacional de Arte Antiga, de Lisboa, e admite-se ter sido dádiva do infeliz prelado de Évora. 

As paredes laterais estão forradas por azulejos polícromos, de bom desenho, dos meados do séc. XVIII. Altares do lado da Epístola, a começar pela CAPELA DE N.ª S.ª DA SAÚDE, antiga de S. ROQUE. O retábulo é um discreto exemplar de talha do estilo jónico, concebido dentro das linhas do classicismo final, de c.ª 1600, decorado por duas colunas caneladas revestidas de elementos florais pendentes, e o terço inferior de corte muito sóbrio. Empena dupla, de elegante medalhão orlado de lóbulos, com figuração do Anjo Custódio de Portugal, infelizmente perdido por repinturas hodiernas. No centro, em maquineta envidraçada, de talha rocócó envolvida por grinaldas, venera-se N.ª S.ª da Saúde, imagem de roca e vestia de rica tecelagem de seda bordada a oiro, que foi adquirida custosamente em Julho de 1816, pela mordomia e aqui colocada depois da grande obra de restauro do altar. 

Os cetros e coroas de prata lavrada, que as adornam, são coevas entre si; além de outros vestidos ricos a padroeira possui adereços e jóias de alto valor artístico, antigos, que se guardam no cofre paroquial. A escultura mede, de alto 1,20 m. e o cetro, 60 cm, sendo esta peça ricamente esculpida e ornada de pedras coloridas; minas novas, crisólitas, etc. CAPELA DAS ALMAS Altar de talha dourada, da ordem coríntia, datável de c.ª 1600, com frontão duplo, aberto por medalhões lobulados que encaixam o painel da Santíssima Trindade: lateralmente, esvoantes, dois serafins papudos. Volumoso retábulo pintado a óleo sobre tábua, ao alto, de secção rectangular, preenche e valoriza o corpo do santuário, na representação de S. Miguel e as Almas do Purgatório. Pintura do tipo maneirista da Escola Eborense, impregnada do espírito tridentino onde o realismo de certas personagens acusa a tradição flamenguisante, foi atribuído por Barbosa Machado ao poeta-pintor Jerónimo Corte Real. É obra de merecimento artístico datável de c.ª 1570. Sobre o altar, vê-se pujante Crucifixo de pau-santo, trabalho exemplar da arte rocócó da 2.ª metade do séc. XVIII, guarnecido nas pontas da cruz, resplendor, legenda e cravos da figura de Jesus, por peças de prata arrendada. As paredes da capela estão revestidas de painéis cerâmicos, de tapete, em dois tipos correntes dos meados do seiscentismo, de esmalte colorido. CAPELA DE JESUS DOS TERRAMOTOS Primitiva do Senhor dos Reis, actual do Sagrado Coração de Jesus. Retábulo de madeira fortemente entalhado, barroco, de colunas salomónicas revestidas de folhagem, que se apoiam em mísulas ornadas de acanto de enrolamento e anjos afrentados. 

Conjunto da época joanina, de c.ª 1745, foi passado a purpurina, que lhe imprimiu um tom de oiro falso. Aos pés do altar, na nave, jaz por devoção particular, em campa rasa do séc. XVIII, o padre Azevedo Cotrim, cuja leitura se fez noutro lugar. CAPELA DE N.ª S.ª DA PURIFICAÇÃO Actualmente do Beato Nuno de Santa Maria. Foi da corporação dos alfaiates. Altar de talha clássica, de colunata coríntia, com canduras e o terço envolvido por motivos de flora. Frontão duplo e largo medalhão axial, com moldura de óvulos e festões de grinaldas laterais. Na facial subsiste grande tela seiscentista da Apresentação do Menino no Templo, obra de técnica e desenho medíocre e, no corpo inferior pintados em tábua, ao alto, dois santos padroeiros. Na credencial e no friso correspondente às peanhas dos fustes, vêem-se mais seis retablitos de secção rectangular, pintados igualmente a óleo sobre madeira, na figuração de S. Pedro, Santa Luzia, Santa Apolónia e S. Bento, todos em meio corpo e intervaladas duas cenas de milagres dos patronos da Irmandade, infelizmente muito repintados por amadores inconscientes. É obra oficinal eborense, popular, dos fins do séc. XVI. Paredes e tecto recobertos de dois géneros seiscentistas de azulejos polícromos, e molduras de guarnição de óvulos entrançados e cabeças de anjos. A imagem primitiva de N.ª S.ª da Purificação, obra de madeira estofada e policromada, do tipo comum do barroco final de c.ª de 1700, guarda-se numa dependência da Colegiada. Mede, de alto, 1,20 m.

A derradeira capela desta banda, que nunca teve culto, foi decorada em tempos modernos com o retábulo de S. Roque, interessante pintura maneirista dos começos do séc. XVII, de execução secundária e provável trabalho de oficina local. Na tábua, que mede 2,20 x 1,65 m. figuram, além do padroeiro, S. Sebastião, S. Cristóvão e S. Maurício (?). Sotoposta afixou-se em placa de mármore a memória da consagração do templo, feita solenemente em 1804 pelo arcebispo D. Fr. Manuel do Cenáculo. DEO OPT MAX TEMPLUM HOC DICATUM IM MEMO D ARCHIM ANTONI CONSE CRAT FUITINTEGRO SOLLEMNIRITU PER EX ACREV D D F EMMANUELEM ACOENACULO VILLAS BOAS METR ARCH EBOR AN REP S MDCCCIV XKAL MAII. A abside da igreja compõe-se de três capelas, as mais nobres e favorecidas: CAPELA-MOR e colaterais do S. SACRAMENTO e de N.ª S.ª do ROSÁRIO. 

Comecemos a descrição pelo santuário principal. De planta rectangular é pouco profundo e mantém as proporções originais quinhentistas; todavia, o belo altar de talhas douradas e policromadas e o escadório de mármores regionais guarnecido nos topos com embrechados ao gosto florentino, foram custeados pela generosidade do arcebispo D. Fr. Luís Teles da Silva, que governou a diocese eborense de 1691 a 1703. O mesmo prelado empregou, também, noutras importantes reformas da igreja e suas dependências, verbas volumosas. O retábulo e a tribuna, muito aparatosos, enchem totalmente a ousia e atingem, em excepcional altura o arco redondo da abóbada. Compõe-se de opulenta massa de talhas do estilo barroco, em obra de ensamblamento e fina marcenaria dividida por duas colunas salomónicas esculpidas com querubins, aves, parras e uvas apoiadas em anjos atlantes simples ou cavalgando águias, de alto relevo. No tímpano, combinam-se a arquitrave, de modilhões revestidos de palmetas e um equilibrado pórtico apilastrado rodeado por figuras simbolizando os trombeteiros da Fé sobrepujados, no frontão de enrolamento ornado de volutas e anjos, pelo armorial esquartelado e colorido do fundador: dois quartéis de oiro pleno e dois de prata, com um leão de púrpura armado de azul. Nos acrotérios, as esculturas douradas, em vulto, personificando a Fortaleza e a Prudência. Foi terminado entre 1703-1705. 

Enquadrando o conjunto retabular, conservam-se as pinturas a óleo sobre tela, coevas, devidas ao artista lisbonense Bento Coelho da Silveira. Representam a que cobre a boca do camarim, a Ceia de Cristo, e a da composição da empena, A Matança dos Inocentes. Esta parece conservar os tons originais, mas aquela, porque era frequentemente apeada durante a exposição do S. Sacramento, sofreu irremediáveis malfeitorias e restauros pouco escrupulosos. De excepcionais dimensões é, todavia, de limitado valor artístico. Custou 60 000 reis. No eixo da credencial, completamente forrada de apainelados de talha dourada, com ornatos foliáceos, palmetas, serafins e outros elementos decorativos do mais forte barroquismo, ergue-se o nicho do padroeiro guarnecido de pilastras coríntias, querubins policromados e ancha vieira no arco, toda revestida de temas naturalistas. A imagem de Santo Antão, de madeira, que mede de alto 1,80 m., é uma severa mas nobre peça barroca dos fins do séc. XVII, com mantéu estofado de negro laivado de oiro fino. 

O frontal do altar, desligado do retábulo, é constituído por curioso baixo-relevo de mármore branco representado pelo Apostolado, escultura da arte gótica da Escola Eborense do séc. XIV, do ciclo dos mestres lavrantes da Catedral, que pertenceu à primitiva ermida de Santo Antoninho e os arquitectos do novo templo preservaram, cuidadosamente, da destruição. Mede de comp. 1,00 m. e de alt. 0,55 m.: esteve longos anos tapado pelo frontal rico, de forte linhagem, por sugestão do cónego Remígio de Lima, peça que se guarda hoje dependurada e encaixilhada no alçado do presbitério. Do tipo de três alturas, é formado por sebastos de capas de asperges bordados a fio de ouro e conserva, por motivo de segurança, as bandas das bordaduras. São 22 figuras de santos, apóstolos e evangelistas com seus símbolos, sentados ou de pé, metidos em edículas sexifoliadas, com a particularidade de terem os pés e mãos pintados sobre seda. No eixo, fazendo a divisão da peça, as cenas de Cristo na coluna e o Calvário. Obra de tecelagem espanhola dos fins do séc. XVI, do estilo clássico, mede 2,80 m. de comp. e 1,00 m. de largura. A capa de asperges, igualmente metida em caixilho envidraçado na parede sobranceira, é tecida em brocatel de ouro bordado a matiz, com ornatos tulipados e de cravos, e aplicações de sebastos de três panos bordados, do mesmo modo, a fio de ouro. Neles existem as figuras de seis santos metidos em nichos da Renascença: S. Pedro, S. Paulo, Santo André, S. João Evangelista, S. Bartolomeu e S. José. Parece, de igual modo, trabalho têxtil do sul de Espanha, do ocaso da época quinhentista. Ainda, de merecimento, no santuário, conservam-se duas mesas de corporais, de talha esculpida, com pés de garra e tampos de pedra de Sintra do estilo português de D. João V. Tem as dimensões: comp. 1,36 m. e alt. 0,86 m. Também tem interesse artístico um banco de couro lavrado de três assentos, pregaria amarela, pés de garra, aventais e costas de talha dourada, da mesma centúria mas ainda do tempo de D. Pedro II. 

O camarim e o trono da capela-mor, complemento da obra de D. Fr. Luís Teles da Silva, aparatoso e rico, é constituído por forramento de talha apainelada, dourada, recoberto de ornatos fitomórficos, serafins e retablitos com emblemas reais de Portugal. O baldaquino de exposição do Santíssimo Sacramento, de madeira polícroma, rodeado de anjos ceroferários, é composto por bela moldura de secção ovóide revestida de anjos de baixo-relevo. CAPELA COLATERAL DO EVANGELHO: NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO Antiga de N.ª S.ª dos Prazeres. Teve confraria de muita devoção e ainda existe a preciosa imagem de prata, que se guarda no tesouro paroquial. A Irmandade de N.ª S.ª do Rosário veio para este lugar logo após a extinção do Convento de S. Domingos, em 1834, e era muito antiga, pois temos conhecimento escrito da sua existência já no ano de 1597. O altar que a guarnece é obra do estilo neoclássico dos meados do séc. XVIII, feito de mármores brancos e raiados de negro, da região, com colunata coríntia e frontão entrecortado, tendo no tímpano duas figuras personificando a majestade e expansão da Igreja, com símbolo de constelações celestes. Sobrepujante, outro corpo apilastrado, com facho de coroa real e tabela de baixo-relevo encomiástico da Virgem Maria. 

A composição esteve, outrora, encimada pelo armorial barroco figurado por rosário em disposição ovalada com remate de coronel fechado, peça de mármore branco subsistente numa dependência interna do edifício e que se não armou pelo facto de exigir maior altura. Esse espaço foi substituído pelo actual lanternim, obra moderna envolvida por painéis e florões de estuque colorido, sem qualquer valor artístico. A padroeira, imagem de madeira dourada e policromada, dos fins do séc. XVII, que mede de altura 1,45 m., está metida em maquineta axial, envidraçada e ornada de filetes foliáceos, de talha dourada. Escapou, do primitivo conjunto do santuário, o revestimento de azulejaria polícroma, seiscentista, que atinge a cimalha, constituído por dois tipos cerâmicos muito curiosos, sendo um de padrão idêntico ao da capela do S. Sacramento. Interessante é o par de mesas de corporais, obra de marcenaria portuguesa da época de D. José I, em madeira entalhada, com pernas recurvas e tampos de mármore cor de rosa. Fecha a capela uma grade de ferro forjado e dourado, do maneirismo peculiar no reinado de D. Maria I (fins do séc. XVIII), com ornatos e arabescos, de dois batentes rematados por fachos estilizados. No solo jaz António de Mira Solteiro, sob campa de mármore branco esculpido com dossel de baixo-relevo prenunciando as formas da arte rocócó. 

Diz a inscrição: S.A DE ANT.O DE MIRA SOLTEIRO E DE SEOS ER DEIROS QVE FALECEO A 10 DE 8BRO DE 1734 CAPELA DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO (Colateral da Epístola) Foi sede de notável confraria, ao presente extinta. É fechada por elegante e leve grade de ferro forjado, revestida de oiro, dos finais do séc. XVIII. Belo retábulo de talha dourada, do estilo barroco, do período derradeiro do reinado de D. João V, preenche na totalidade o fundo da ousia, disposto em coluneis salomónicos apoiados em peanhas suportadas por figuras de vulto, estantes ou afrontadas. Na credencial, nobre sacrário de dois corpos com a imagem do Salvador, de baixo-relevo. Sobrepujante, formoso baldaquino esculpido e entalhado, seguro por querubins, tendo no centro o Cordeiro Místico e um Crucifixo de marfim, do séc. XVII; rompente, de amplos raios alternados e coroada, venera-se a Sagrada Partícula. As credências da banqueta, de talha pintada e de pernas onduladas, com mesas de mármore polido, de Pero Pinheiro ou Sintra, são da 2.ª metade do setecentismo. O forramento das paredes laterais, cúpula e lanterneta é feito por três tipos diferentes de azulejaria lisbonense da 1.ª metade do séc. XVII, policromos e inspirados em modelos de tapeçaria oriental. Dominam os elementos naturalistas: pinhas, alcachofras, ramagens e composições rombóides divididas por cercaduras também dissemelhantes. As trompas cupulares são ornamentadas com pelicanos cerâmicos, coloridos, sobre fundo branco. 

A série de painéis de azulejos da igreja de Santo Antão constitui, pela variedade e qualidade de modelos seiscentistas, repositório notável para estudo da cerâmica similar e das artes decorativas portuguesas em geral. SACRISTIA De planta rectangular e abóbada de meio canhão, foi profundamente modificada na 1.ª vintena do séc. XIX, com horríveis pinturas estucadas, a escaiola e apenas conserva de época mais antiga o rodapé de azulejos correntes, azuis e brancos, de c.ª 1700 e o lavabo coevo, de mármore, mas sem interesse artístico. Paramenteiro e anuário de parede, de madeira, também de pobre marcenaria. Aquele está encimado por retábulo do Calvário, entalhado, com frontão triangular e pilastras laterais, estriadas, do estilo jónico. A mesa dos cálices, de calcário e peanha circular, anelada e tampo rectangular com as pontas boleadas, deve-se a subsídio concedido pelo cónego Miguel Remígio de Lima, em 1815.

Numa parede conserva-se curioso painel de pintura sobre tela, dos fins do séc. XVII, representando a Assunção da Virgem. Tem boa moldura de ornatos de talha dourada, com óvulos entrelaçados. As casas da antiga Colegiada de Santo Antão - Secretaria e Sala da Comunidade - dispõem-se em dois pisos abraçando os volumes da igreja nos alçados lateral e principal Norte-Poente. Devem-se, na quase totalidade ao esforço do arcebispo D. Fr. Luís Teles da Silva, que as mandou construir de raiz ou as restaurou no ocaso do séc. XVII. As escadarias, de vários lanços, de arcos redondos, apilastrados, são de granito e os lambris foram guarnecidos de painéis de azulejaria dessa época, autenticados pelos escudos esquartelados do protector. A sala das reuniões, vasta e de planta rectangular, está absolutamente descaracterizada, desde que o reitor Pimentel Sancas, em 1816, ao restaurar a Confraria das Almas, então quase extinta, ordenou as obras infelizes de escaiola berrante, que subsistem nas paredes. Do estilo joanino, de c.ª 1740, são o jogo de cadeiras de braços e canapé de três assentos estofados e de coxins soltos, que aqui se conservam. Trata-se de três boas peças de nogueira esculpida, com costas de lira e pernas recurvas apoiadas em garras. Estão pintadas, indevidamente, de negro. Muito mais interesse tem a sala da Irmandade do Santíssimo Sacramento, que deita para a banda da Rua Ancha e em cuja fachada posterior conserva vestígios decorativos, barrocos, em obra esgrafitada, de ornatos, quadro retabular da Santa Hóstia e tabela sobrepujante cronografada de 1686. 

A escada de acesso situada por detrás do trono da capela-mor, assim como a dependência propriamente dita ostenta nos prospectos, friso e tecto, velhas composições fresquistas, alegóricas, datadas de 1708, com abundância de legendas latinas, arabescos, filetes, albarradas, brutescos e as imagens de S. José e N.ª S.ª da Conceição. É curiosa obra da arte barroca. A cobertura, sobretudo, de bom efeito ornamental, em cores vivas, é engalanada no eixo pelo escudo em pala de besantes dos Melos e por chaveirão com a empresa de AVE MARIA e os atributos das máximas teologais - Fé, Esperança e Caridade, esta última representada pelo Sagrado Coração de Jesus. Acantonadas, as virtudes personificadas: Prudência, Temperança, Fortaleza e Justiça. De entre muitas imagens de madeira e terracota guardadas na sala, apenas a escultura gótica das Santas Mães, tem valor arqueológico e artístico. Concebida em calcáreo regional, policromado, deve agrupar-se ao ciclo oficinal dos mestres da Catedral, dos fins do séc. XIV. Pertenceu ao altar próprio de Santa Ana, da sufragânea igreja colegiada de S. Tiago. Mede, de altura 0,48 m. 

O cubículo da obra de Freguesia, situado no canto lateral da capela de N.ª S.ª da Saúde, é de planta rectangular, com tecto de barrete de clérigo, em cujo eixo em tabela esgrafitada, do séc. XVII, existe o símbolo da hóstia santa sobre o cálix. Em friso de pedra lê-se gravada a inscrição: BENDITO E LOUVADO SEIA O SANTÍSSIMO SACRAMENTO TESOURO DA IGREJA DE SANTO ANTÃO Conserva precioso conjunto de alfaias de prata e jóias de muito merecimento artístico, que pertenceram às extintas Irmandades de N.ª S.ª do Rosário (de S. Domingos), N.ª S.ª da Saúde e de São Crispim e Crispiniano. De entre elas merecem particular referência as seguintes: NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO. Imagem de prata repuxada, de base poligonal de volutas ornamentadas com querubins de baixo-relevo. Roupagens marteladas ao gosto adamascado. Peanha circular de cabuchões, anjos, e inscrição gravada em português: ESTA IMAGEM MANDOV FAZER DIOGO DE BRITO Coroas de prata e opulento resplendor oval de raios ondeados revestidos de pedras falsas, solidárias com a escultura. Rosário de ouro. Peça portuguesa de estilo barroco, da 1.ª metade do século XVII. Alt. 0,70 m. Da extinta Irmandade de N.ª S.ª do Rosário. CRUZ PROCESSIONAL - De prata cinzelada e batida, apoiada em colunas caneladas, do estilo coríntio, que se apoiam em pelicanos coroados. 

Nó circular, fortemente repuxado, com ornamentos de querubins de baixo-relevo, tintinábulos e cabuchões dourados ostentando crisólitas e minas novas. No bojo, uma urna de medalhões ovóides com a figuração do Evangelista S. João, outro Santo e emblemas da Eucaristia. Fortes chanfros de relevo e cartelas barrocas. Imagem de Cristo de prata dourada. Legenda latina no timbre: CARO MEA VERE EST CIBVS SANGVIS SANGVIS MEVS VERE ESTE POTVS. Haste circular de prata lavrada composta por oito canudos. Peça portuguesa do estilo barroco, dos meados do séc. XVII. Alt. da cruz: 1,20 m. NOSSA SENHORA DOS PRAZERES - Imagem de prata cinzelada, branca e dourada, com manto ornado de rosetões e flores de liz. Peanha rectangular com legendas latinas metidas em cartelas ovóides e circulares, aplicadas, de glória à Virgem: REGINA COELLI LETARE / ALLELVYA / QVIA QVEM / MERVITI PORTARE / ALLELVYA / RESVRRE-XII SICVT DIXIT / ALLELVYA / QVIA QVEM / MERVISTI PORTARE / ALLELVYA. Base de serafins dourados. Escultura de arte barroca, do séc. XVII e peanha rocócó da 2.ª metade do setecentos. Alt. 0,50 m. Foi salva da pilhagem francesa de 1808, em virtude de ter sido escondida num poço pelo beneficiado Francisco Pinto, que a restituiu à igreja em Agosto de 1817. Perdeu-se na altura a coroa original. CUSTÓDIA - De prata dourada, com peanhas ornamentadas por cabeças de anjos, volutas, grinaldas e medalhões de secção ovóide figuradas pela Flagelação de Cristo, Jesus no Horto e Ecce Homo. 

O nó, ricamente cinzelado, é composto por brutescos estantes e querubins, entre símbolos da Sagrada Eucaristia. Resplendor de raios direitos e alternados, guarnecidos de serafins de baixo-relevo. Trabalho de ourivesaria portuguesa de c.ª 1700. Oferta do arc. D. Fr. Luís da Silva. Alt. 0,74 m. Custou, em Lisboa, 786 200 rs. CÁLICE - De prata dourada e base circular, com nó em forma de urna decorada por grinaldas clássicas de gravadinho. Legenda gravada em português antigo, de caracteres redondos, com abreviaturas: ESTE CA DEXOV DESMOLA JOÃ DESTREMOS PA. A CÕFRA. DE NOSA SNR DO ROSAIRO SRA. ROGAI POR ELE. Patena com legenda latina, de letra gótica: AGNVS DEI QVI TOLI PECATA MVNDI MISERERE. Peça portuguesa do fim da Renascença. Ultimo terço do séc. XVI. Altura, 0,24 m. Da extinta Irmandade de N.ª S.ª do Rosário. PÍXIDE - De prata dourada, circular, com ornatos esculpidos de intenção fitomórfica. Tampo de secção piriforme. Peça portuguesa do estilo D. João V. Altura, 0,27 m. ARCA DE SACRÁRIO - De tartaruga, com tampo abaulado e aplicações de prata esculpida: pés representados por golfinhos. Serve de guarda-jóias. Peça portuguesa da 1.ª metade do séc. XVIII. Altura, 0,14 m. Comprimento, 0,22 m. RELICÁRIO DE S. CRISPIM - De prata, com base circular ornamentado por pétalas-palmetas e haste de secção piramidal, de vidro, apoiada em esfera celeste contendo uma relíquia óssea do padroeiro dos sapateiros, a cuja irmandade pertenceu. Arte portuguesa do séc. XVII. Altura, 0,40 m. SANTO LENHO - Peça de prata branca, arrendada e composta por grinaldas esculpidas. Cruz com relíquias, de cristal da rocha. Pendente, na peanha, coração de ágata: base de três pés de volutas lisas, estilizadas. Arte neoclássica de provável factura italiana, de c.ª 1800. Altura, 0,32 m. Oferta do cónego Miguel Remígio de Lima ao reitor da Colegiada de Santo Antão, Pe. José Lúcio Limpo Pimentel Sancas, em 13 de Julho de 1822. VASO DOS SANTOS ÓLEOS - De prata arrendada, de secção ovóide. O prato é ornamentado por pétalas e o vásulo, em forma de pêra terminado por uma águia miniatural, está revestido de cordão de pérolas e gravadinho floral. Arte portuguesa do estilo neoclássico. Época de D. Maria I. Dim.: Comp. máx. da bandeja, 0,20; vaso, altura, 0,14. Altura total, 0,25 m. VASO DA EXTREMA UNÇÃO - De prata. com base hexagonal revestida de ornatos flordelizados e a imagem de Cristo gravada a ouro, com as letras: S. X. Nó de quatro serafins e vásulo de secção piriforme sobrepujado por Crucifixo. Peça portuguesa, sem marcas, do fim do séc. XVII. Alt. 0,33 m. CRUZ PROCESSIONAL - De prata branca e dourada, ornamentada discretamente com palmetas. Base em forma de urna, com volutas. Peça portuguesa do estilo neoclássico, do 1.° terço do séc. XIX. Punções do Porto. Marca de fabricante: APS. Alt. 0,98 m. Da extinta confraria de N.ª S.ª do Rosário. VIEIRA BAPTISMAL - De prata rebordada por cordão de gravadinho floral. Obra executada pelo ourives eborense António Nunes, em 1804. Mede, de comp. 175 mm. As duas derradeiras peças, a seguir mencionadas e existentes na Capela de N.ª S.ª do Rosário eram, do mesmo modo, da respectiva confraria. CRUZ DE ALTAR - De prata branca, esculpida sobre fuste salomónico revestido de uvas e parras: nós circulares compostos por serafins de baixo-relevo envolvidos por elementos de flora, com volutas. Peanha de três anjos de inspiração grega, de ornatos florais apoiada em bolas de garras felpudas, de águia: no eixo, igual número de medalhões de secção ovulada com a efígie, dourada, de N.ª S.ª do Rosário, envolvida pelo símbolo e tendo sobrepujante coroas reais fechadas, do tipo de D. João V. Formosa peça de ourivesaria portuguesa do estilo de transição barroco-rocócó, com punções de Évora e marca do fabricante: ANS (António Nunes da Silva, ourives da prata estabelecido no Poço de S. Manços em 1778). Peso, 14,100 k; Alt. 1,114 m. LAMPADÁRIO - De prata cinzelada, constituído por três lâmpadas piriformes com ornatos vegetalistas e florões de tabelas ovóides: suportes de volutas. Correntes do mesmo metal, em forma de cinturões com rosetas transfuradas. Arte portuguesa do estilo rocócó. Punções do Porto; fabricante APS. (1810-1818). Dim. Alt. da lanterna, 0,70 m., tampo 0,30 m. Peso total de cada lanterna 7,600 k. No cofre da Freguesia ainda existem outras alfaias sumptuárias, de prata e marfim, da Irmandade das Almas (com sede em Santa Marta), e um interessante Crucifixo, do extinto Convento de Santa Helena do Monte Calvário. 

Esta peça, embora arruinada é valiosa e tem as seguintes características: Cruz de pau-santo com aplicações de prata arrendada e lavrada, ornada de rosetões, ramos, volutas nas pilastras e atributos do Calvário. CRISTO, de marfim, com diamantes servindo de cravos. Arte portuguesa do estilo neoclássico, da 2.ª metade do séc. XVIII. Alt. total, 1 m. 

BIBL. Códice CVI-1-27, de Biblioteca Pública de Évora; Barbosa Machado, Biblioteca Lusitana: Gabriel Pereira, Estudos Eborenses - A Igreja de Santo Antão, 2.ª ed. 1947; Reinaldo dos Santos e Raul Proença, Guia de Portugal, II, 1927, pp. 52-53; Túlio Espanca, Artes e Artistas em Évora no séc. XVIII, in A Cidade de Évora, 21-22-1950; Flávio Gonçalves, Os painéis do Purgatório e as origens das alminhas populares. Boletim da Biblioteca Municipal de Matosinhos, 6-1959, pp. 71-107. ADENDA Na capela das Almas, da igreja de Santo Antão, existiu, até épocas recentes, no altar, um curioso S. Miguel, de madeira estofada, de características barrocas, com c.ª de 1,00 m de alt., actualmente considerado perdido. 

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