quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A origem do Presépio

O fim de Dezembro é desde eras remotas, e para muitos povos e culturas, época de celebrações religiosas, quase todas associadas ao Solstício de Inverno e ao nascimento de um Deus Sol, renovador e salvador. Druidas, persas, egípcios, gregos e fenícios celebravam, também a 25 de Dezembro, tal como o fazem ainda hoje os hindus, o nascimento de um ser divino, criador e eterno, sinónimo de luz e esperança.
A Igreja de Roma sacraliza depois essa data, já há muito assinalada por gentes pagãs, e o dia do nascimento de Jesus adquire uma importância ímpar, desde os primórdios da história cristã, sendo canonicamente instituído como festivo no século IV, pelo Papa Júlio I.
Mas, se a nascença de um Menino-Rei de uma Virgem não é exclusiva dos cristãos, a representação da Natividade de Jesus adquire, ao longo dos tempos e por toda a geografia cristã, contornos únicos.
E de entre as várias manifestações e símbolos do espírito do Natal uma delas sobressai, como sendo talvez a mais universal, popular e significativa: o presépio.
Palavra de origem latina, que significa “local onde se recolhe o gado”, o presépio é uma representação de cariz espiritual da cena do nascimento de Jesus, que assume contornos poéticos e bucólicos, em que não faltam animais de estábulo, pastores, anjos e reis magos.
Atribui-se a S. Francisco de Assis, no século XIII, a ideia de encenar o nascimento de Jesus, tal qual este se deu numa gruta em Belém. Existem registos de que o terá então feito, em 1223, numa gruta da cidade italiana de Greccio, para a qual, se diz, levou uma vaca e um burro e onde mandou instalar uma manjedoura, cheia de feno, para festejar a vinda do Filho de Deus à terra com as mesmas condições que rodearam o seu nascimento: pobreza, simplicidade, humildade, encanto e fraternidade de Deus com os homens. A sua intenção era dar um sentido de actualidade à Natividade e reviver a Eucaristia, trazer de novo o Evangelho para o espaço natural de vida dos homens. O presépio de S. Francisco não tinha, por isso, figuras, Jesus era representado pela hóstia.
Depois desta pioneira representação da descida de Deus à humanidade, outros presépios, já com figuras, começam a surgir. A tendência começa noutros conventos franciscanos em Itália, a que se seguem igrejas e casas particulares, das mais nobres às mais humildes, e estende-se depois a toda a Europa.
Em Portugal, o culto do presépio terá surgido ainda no fim do século XV, sendo do início do século XVI os primeiros documentos que o referenciam. O grande desenvolvimento desta tradição, porém, dá-se sobretudo com as contratações de artistas para a construção de presépios pelos reis D. João II, D. Manuel I, D. João III e, mais tarde, D. João V, o que terá contribuído largamente para a sua generalização no país. Surgem presépios muito famosos como o da Basílica da Estrela e de S. Vicente, em Lisboa, da autoria do escultor Machado de Castro, o do Convento de Mafra, o dos Marqueses de Borba e vários presépios eborenses, entre os quais os dos Conventos do Paraíso, de Santa Clara e de S. Bento de Cástris.
O presépio entranha-se assim definitivamente na cultura portuguesa, entre os séculos XVII e XVIII, e vários são os barristas e escultores famosos que, desde então, e até ao século XX, alimentam a procura de figuras para a encenação da Natividade, quer em conventos, quer em casas particulares. Oriundos de olarias e escolas de Alcobaça, Barcelos, Coimbra, Évora, Estremoz, Lisboa, Mafra e Tomar, entre os principais nomes responsáveis pelas figuras características do presépio popular português encontram-se Francisco de Holanda (residente em Évora), José de Almeida, Joaquim Machado de Castro, Francisco Xavier (eborense) e António Ferreira.
Em Évora, cidade que, como afirma João Rosa, em “Presépios de Évora”, sempre foi “ao longo da sua história, um grande centro de cultura estética e de desenvolvimento de todas as artes (...)”, os presépios “tesouros disseminados por igrejas, mosteiros, capelas, oratórios, dão-lhe o nome de relicário de arte, paraíso de arqueólogos e de aguarelistas” .
Nessa mesma obra, este autor refere o que considera serem os principais presépios do distrito de Évora, começando pelo do Convento de São Paulo, na Serra D’Ossa, no concelho de Redondo; e pelo do Convento de Capuchos, edificado em 1544, nos Passos de Valverde, junto à Serra do Monfurado e ao Castelo de Geraldo, e depois aproveitado pela escola agrícola, onde diz terem existido figuras de barro em tamanho natural, anteriores às influências da primeira metade do século XVIII, dos escultores Alessandro Giusti, italiano, e Machado de Castro, português, natural de Coimbra.
Prossegue mencionando o antigo Convento do Paraíso (antes erguido onde é hoje o Jardim do Paraíso, em Évora), como um verdadeiro “alfobre de arte sacra” e deixando as seguintes referências ao seu presépio: “(...) era o enlêvo de Évora, e arrumava-se no claustro em todas as vésperas de Natal. As figuras são todas de barro, maiores que humanas, mas expressivas (...) tanto parecem estar vivas e respirando como qualquer criatura de Nos’Senhor” . João Rosa lembra ainda como ficou célebre o Menino Jesus do Paraíso, que “apareceu em fôfo leito dourado”, no presépio do Natal de 1826 , e o tríptico de marfim gótico que representa a Vida da Virgem, o Nascimento do Menino e a Adoração.
Seguem-se alusões aos presépios, também em Évora, do Convento do Salvador “(...) em peça inteira, primoroso espécime em torrão, atribuído ao grande mestre Machado de Castro”; o de São Bento de Castris, “possivelmente o maior de Évora”, e que diz ser armado na Sala do Capítulo e incluir figuras de barristas de Estremoz; e o do Convento do Calvário.
João Rosa aponta ainda o presépio do escritor Cunha Rivara, que além de figuras de Estremoz do século XVIII, teria em marfim, e adquiridas na Índia, as três imagens principais, S. José, a Virgem e o Menino, o qual aparecia a chuchar no dedo, numa cama de prata, com um travesseiro ornamentado com pedras preciosas.
E, finalmente, os últimos presépios artísticos em destaque nesta obra são: o da Capela Mor da Sé de Évora, da autoria de João António Pádua, cujas imagens vieram do extinto Convento das Maltesas, em Estremoz; e o do Museu da Misericórdia de Estremoz, antes pertencente ao Recolhimento das Servas, em Borba, considerado dos maiores e melhores em barro do Alentejo.

Évora Perdida no Tempo - Coro da Igreja de São Tiago, em Évora


Interior (coro) da Igreja de São Tiago, em Évora. A abóbada é coberta por pinturas murais (finais do século XVII) e nas paredes encontram-se frescos com motivos sacros e profanos. No eixo do coro encontra-se, bastante degradado, um fresco representado a "Exaltação do Santíssimo Sacramento". Esta imagem foi publicada no Inventário Artístico de Portugal de Túlio Espanca, Concelho de Évora, vol.II, est. 411

Autor David Freitas
Data Fotografia 1966 ant. -
Legenda Coro da Igreja de São Tiago, em Évora
Cota DFT4315.1 - Propriedade Arquivo Fotográfico CME

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Arquivo Municipal de Évora

A Câmara Municipal possui os seguintes arquivos: o Arquivo Histórico (depositado no Arquivo Distrital de Évora, desde 1917), o Arquivo Intermédio (que já possui documentação histórica em virtude do Arquivo Distrital não suportar mais incorporações no espaço disponível para Arquivo da Câmara), o Arquivo Fotográfico e o Arquivo de Obras Particulares, todos localizados em diferentes edifícios.

A criação do Arquivo Intermédio da Câmara Municipal de Évora resultou da recolha, catalogação e arquivo do acervo documental decorrente da actividade desenvolvida, pela Câmara Municipal de Évora. Toda a documentação criada por esta entidade pública, indispensável ao desenvolvimento normal dos serviços que presta à população e à cidade, tem que ser organizada em função de uma lógica que articule os conceitos de administração e história, na qual se fundamenta a criação dos Arquivos Públicos, viabilizando, em paralelo, a sua consulta pelos interessados.

Respeitando o princípio do “respect des fonds”, por forma a preservar a identidade inerente aos documentos de cada fundo, ultrapassou-se o sentido de colecção para, em alternativa, valorizar o da constituição de um fundo em que fossem tidas em conta a origem do documento e a sua representatividade contextual intrínseca.

Depois da recolha inicial e do tratamento do material em causa, esgotada que foi a sua utilização específica, e porque os documentos guardam entre si uma relação orgânica que deve ser respeitada, tentou então dar-se a este arquivo, um tratamento arquivístico adequado, identificando, organizando e indexando a documentação aqui existente. Transformando-se, assim, uma enorme massa documental dispersa num fundo documental uniforme, com o objectivo de tornar mais fácil o acesso à informação e mais rápida a consulta, não esquecendo, porém, a segurança, conservação das espécies e sua localização. Após esta fase de tratamento documental, verificou-se terem sido analisadas 23 794 caixas e 2751 livros, distribuídos por 4 salas de depósito, os quais ocupam cerca de 3 000 metros lineares de prateleira.

Com o objectivo de salvaguardar e difundir a sua documentação, a Câmara Municipal de Évora procedeu à remodelação das instalações deste Arquivo Municipal, oferecendo condições adequadas para a consulta de investigadores e dos serviços autárquicos, e à criação de um espaço expositivo. Estas novas instalações foram inauguradas no dia 14 de Novembro de 2008, apresentando-se, em simultâneo, uma exposição subordinada ao tema “O Abastecimento de Água a Évora”.

O Arquivo, cuja entrada principal é pela Rua de D. Isabel, possui um catálogo on-line na intranet da Câmara e um serviço de digitalização, fotocópias e microfilmagem.

Visite este serviço e fique a conhecer um património que é de todos e para todos.

Évora Perdida no Tempo - Nave da Igreja de São Mamede

Nave, capela mor e tecto da Igreja de São Mamede, em Évora.

Autor David Freitas
Data Fotografia 1950 - 1969
Legenda Nave da Igreja de São Mamede
Cota DFT4215 - Propriedade Arquivo Fotográfico CME

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O abastecimento de água na cidade de Évora, do passado à actualidade

O abastecimento de água na cidade de Évora, desde a sua origem até aos nossos dias, é um tema bastante interessante, devido à sua complexidade e à existência de um riquíssimo património hidráulico, que tem sido preservado e revitalizado.
Na Antiguidade, o abastecimento de água incluía a sua captação em cisternas, nascentes e poços, e a sua posterior condução para chafarizes, fontes, tanques e termas da cidade – podendo estas últimas ser hoje visitadas no edifício dos Paços do Concelho.
Apesar de não haver provas científicas consistentes, considera-se a possibilidade do Aqueduto da Água da Prata, do período renascentista, ter sido construído no trajecto de um outro mais antigo, que terá sido edificado no período da cidade romana, então denominada Ebora Liberalitas Iulia.
Chegados à Idade Média, o crescimento da cidade e o possível desmoronamento, e desactivação, do hipotético aqueduto romano dificultaram o abastecimento de água, que se baseava ainda em captar água em cisternas, nascentes e poços, para alimentar os chafarizes e os banhos públicos. Para além disso, também as ribeiras eram usadas para satisfazer necessidades domésticas e industriais.
Com a construção do Aqueduto da Água da Prata, que era urgente, e que ocorreu já na Idade Moderna, na primeira metade do século XVI, a nova água passou a ser fornecida em fontes próprias, tal como em chafarizes, tanques públicos e particulares, existindo fiscalização por parte dos Vereadores, do Juiz e do Provedor do Cano.
Mais tarde, no século XIX, o aqueduto corria riscos de ruína e faz-se então uma grande obra para a sua reconstrução. Com as novas técnicas da época foi possível construir alguns novos troços do aqueduto, mais eficazes.
Durante o século XX, dá-se a remodelação e a ampliação das captações do aqueduto, surgindo a Central Elevatória de Águas (CEA). Esta, localizada no centro histórico da cidade, presentemente é uma unidade museológica que testemunha a grande inovação tecnológica que permitiu o sistema de distribuição de água ao domicílio. Com a sua sede na Rua do Menino Jesus, a unidade museológica está patente ao público em permanência.
Após a construção da CEA, e ao longo do tempo, criaram-se soluções para aumentar o caudal de água. Primeiramente, através da perfuração de novas captações e da construção de poços e, numa segunda fase, em 1966, a cidade passou a receber água da nova Albufeira do Divor, o que reforçou bastante o caudal do aqueduto.
Contudo, em 1995, como a água daquela albufeira não apresentava a qualidade necessária, o abastecimento à cidade passou a ser garantido por uma nova albufeira, a do Monte Novo.
Assim, com a construção da Barragem do Monte Novo, o abastecimento à cidade deixou de depender da região da Graça do Divor e, nomeadamente, do Aqueduto da Água da Prata. A evolução tecnológica passou a permitir a adução de água por condutas.
Actualmente, está em fase de conclusão a ligação da Barragem do Monte Novo ao canal do Alqueva, eliminando-se o risco de falta de água nos períodos de seca. Mas, o Aqueduto da Água da Prata continua a funcionar, sendo a sua água ainda aproveitada, o que é um orgulho para a cidade e um caso raro no contexto nacional. O ponto de recepção da sua água, bem como o da água da Barragem do Monte Novo, é nos reservatórios do Alto de São Bento, os quais substituíram, na década de 70 do século passado, a Central Elevatória de Águas.

Évora Perdida no Tempo - Capela do Seminário Maior


Capela do Colégio de Nossa Senhora da Purificação (Seminário maior), em Évora.

Autor David Freitas
Data Fotografia 1950 - 1966
Legenda Capela do Seminário Maior
Cota DFT4333 - Propriedade Arquivo Fotográfico CME

domingo, 7 de agosto de 2011

RAIS recruta ELECTRICISTAS/ AJUDANTES DE ELECTRICISTA - EVORA- URGENTE

Rais - Empresa de Trabalho Temporário encontra-se de momento a recrutar para empresa cliente ELECTRICISTAS e AJUDANTES DE ELECTRICISTA para EVORA.

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- Experiência anterior na função (Factor eliminatório);

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Para formalizar a sua candidatura deverá dirigir-se à nossa agência que está situada em Setúbal, na Av.ª Bento Gonçalves, Nº 10 B/D 2910-431 Setúbal

Ou proceder ao envio do CV devidamente actualizado para: rita.gomes@gruponett.com (expondo no assunto "Electricista_EV" ou "AJDElectricista_EV")

Contactos telefónicos:

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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Igreja de Nossa Senhora do Carmo

A Igreja de Nossa Senhora do Carmo era a igreja do Convento do Carmo, construído, na segunda metade do século XVII, pelos Frades Carmelitas Calçados, pertencentes à Ordem Religiosa do Carmo, e desse foi parte integrante até 1834, ano em que o convento foi desactivado. A Igreja, cuja construção se iniciou por volta do ano de 1670 e cuja sagração se deu em 1691, está situada entre o Largo da Porta de Moura e a Rua D. Augusto Eduardo Nunes, antiga Rua da Mesquita. As especificidades topográficas deste local influíram na construção desta Igreja, nomeadamente a existência de um desnivelamento do solo, que no plano mais elevado da rua tem a cota de 286.9 e no plano mais baixo, onde se ergue a Igreja, de 282.2.
O mestre-escola da Sé, Dr. Jerónimo Madeira, impulsionou o início da obra e foi um dos contribuintes da primeira fase da construção da Igreja, em 1678, tal como o foram também: D. Luísa da Silveira de Figueiredo, em 1676; o arcebispo D. Luís da Silva Teles, que subsidiou mais tarde a sacristia e as dependências anexas; e os alcaides-mor de Palmela, padroeiros da capela-mor como descendentes de D. Maria de Vilhena, fundadora, em 1562, do presbitério original do primeiro Convento do Carmo da cidade de Évora, construído em 1531, igualmente pelos Frades Carmelitas Calçados, e situado na Porta da Lagoa.
O interior da Igreja de Nossa Senhora do Carmo compreende uma única e ampla nave, de abóbada de berço, com seis capelas laterais do estilo barroco e rococó, coro-alto e galerias pelas quais se ilumina a nave. Sob o cruzeiro ergue-se uma cúpula octogonal de excepcionais dimensões. O altar-mor, de talha dourada e marmoreado, pertence ao período joanino, e nele se venera ainda a imagem de Nossa Senhora do Carmo. No seu exterior, existem vestígios da época quinhentista, destacando-se a grade de ferro forjada com os brasões ducais de D. Jaime e o portal, constituído por toros salomónicos.
Túlio Espanca atribui a autoria desse portal, denominado “Portal dos Nós”, ao arquitecto Diogo de Arruda, que o terá concebido em 1525, e a sua pertença ao antigo Paço de Bragança. Mas, no século XVII ouve uma reconversão histórica da simbologia associada ao referido portal, e aos “Nós” passa a ser atribuído o significado de ruptura do nó existente com a Espanha, durante a dinastia Filipina, dando-se consistência à legenda premonitória de D. Jaime: “Depois de Vós”, dinastia Filipina, “Nós”, dinastia de Bragança.
Têm também interesse arquitectónico nesta Igreja: a galilé da portaria-mor, de estilo barroco; o portal do adro, datado de 1716; a escadaria; e o pátio, de granito regional.
Porém, o Convento do Carmo do Largo da Porta de Moura, erguido na segunda metade do século XVII, e no qual se situa a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, não foi o primeiro existente na cidade. A Ordem dos Carmelitas Calçados já antes tinha construído um outro junto à Porta da Lagoa, no século XVI. A Frei Baltazar Limpo, Vigário Geral e Reformador da Ordem do Carmo de Portugal, se ficou a dever a construção do originário Convento do Carmo. A 6 de Outubro de 1531 recebeu aquele frei a doação da então ermida de S. Tomé, situada extra-muros, à porta da Lagoa, e sobre ela erigiu o convento.
Na obra “Muralhas e Fortificações de Évora”, de Miguel Lima, está desenhada a planta desse primeiro convento, que acabou destruído por um fogo, causado pelos bombardeamentos castelhanos dos assédios da “Guerra da Restauração, em Maio-Junho de 1663. Ao fugir do incêndio, os padres apenas salvaram a imagem de Nossa Senhora do Carmo. E essa comunidade religiosa fixou-se então em casas particulares e depois em moradias na Praça do Peixe (actual Praça de Sertório). Até que, o Rei D. João VI concede, por doação, a esta ordem religiosa, o Paço da Casa de Bragança situado no Largo da Porta de Moura, como o testemunha um documento de 1665, e ali surge o novo Convento do Carmo.
A secularização de 1834 levou à reintegração do convento nos bens da Casa de Bragança que, em 1850, o cedeu provisoriamente ao Seminário Metropolitano, a pedido do arcebispo D. Francisco da Mãe dos Homens Anes de Carvalho, mas tendo assim funcionado apenas três anos. Mais tarde, foi vendido pelo Estado à família Margiocchi, que autorizou ali a instalação do Colégio das Irmãs Doroteias, entre 1896 e 1910. E em 1914, D. Augusto Nunes transformou-o em residência Arquiepiscopal. Actualmente funcionam nesse edifício alguns serviços da Universidade de Évora.
No que se refere à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, esta é, desde 16 de Julho de 1934, devido a uma decisão de D. Manuel da Conceição Santos, a sede da paróquia da Sé, e permanece até hoje como um local de culto, de extraordinária beleza e esplendor, merecedor de uma visita.

Évora Perdida no Tempo - Antiga Estação de Serviço Sacor


Antiga Estação de Serviço (garagem e posto de combustível) da Sacor (actual Lagril).
Autor David Freitas
Data Fotografia 1950 - 1969
Legenda Antiga Estação de Serviço Sacor
Cota DFT5411 - Propriedade Arquivo Fotográfico CME

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O Mobiliário Pintado Alentejano

O mobiliário pintado alentejano é um estilo de mobiliário de características populares e regionais, que se enquadra no artesanato tradicional e envolve três actividades profissionais: a carpintaria, o empalhamento e a pintura.
Este mobiliário é um produto da cultura alentejana, relacionado com as formas e as funções tradicionais (usos e costumes). Sofreu alterações ao longo dos anos, consoante a realidade cultural do tempo em que era produzido e nos nossos dias é um testemunho real de permanências e inovações culturais. Tem uma componente marcadamente pessoal (o gesto), e reflecte uma atitude de criação colectiva. É esta característica que, para além da natureza dos materiais e das técnicas utilizadas, lhe confere uma identidade própria e nos leva a considerá-lo como uma etnotecnologia.
O seu sistema técnico de produção é composto por três processos operativos: o tradicional, de origem antiga, complexo, com um tempo de realização longo e executado manualmente; o contemporâneo, que recorre a tecnologias mecanizadas, resultando numa redução de esforço e tempo necessários à execução de determinadas tarefas e no recurso a produtos industriais; o terceiro, é uma simbiose dos dois anteriores.
Não conhecemos elementos que comprovem a sua criação ou a menção do(s) seu(s) criador(es) e respectiva datação. No entanto, há uma correspondência entre os elementos formais e funcionais das peças, sobretudo, das mais antigas (Museu de Estremoz, finais do século XVIII, e Solar dos Condes de Portalegre, em Évora, princípio do século XIX) e as do mobiliário nacional. Esta comparação permitiu identificar que o corte ou talhe da madeira e a pintura decorativa no mobiliário pintado alentejano são uma reinterpretação popular de elementos de dois estilos portugueses – D. José e D. Maria. Esta reinterpretação não deve ter surgido repentinamente; é possível que tenha sido desenvolvida por algum pintor ou carpinteiro mais atrevido, inspirado nos modelos de móveis eruditos, que executou e difundiu os seus próprios modelos.
É a partir de meados do século XIX que encontramos menções escritas às cadeiras de Évora ou cadeiras alentejanas e muito raramente referências a outras peças deste estilo de mobiliário. Estas referências conduzem-nos a considerar que a sua criação deve ter ocorrido em Évora e terá sido, posteriormente, difundida para outras localidades alentejanas, através, por exemplo, das feiras tradicionais. Além da sua função utilitária e decorativa, estas peças tinham também uma função de prestígio social.
O segundo momento do seu processo evolutivo reporta-se à acção desenvolvida pelo Estado Novo, que definiu estilos regionais de mobiliário. Defendia a animação e a orientação da indústria decorativa regional, pela integração em regras de arte e promoveu a decoração e o mobilar de instituições do Estado, iniciando-se pelas Casas do Povo, com a utilização do estritamente tradicional em cada região.
Porém, como resultado do desenvolvimento industrial, verificou-se em Portugal, na década de sessenta do século XX, uma progressiva decadência do artesanato, com a substituição dos seus produtos pelos de origem industrial e a diminuição, adulteração, e até desaparecimento, de produtos e formas produtivas próprias. É na década de oitenta que se assiste ao ressurgimento da actividade artesanal e à redescoberta do seu valor sócio-económico e cultural, levando à criação de riqueza e à resolução de problemas de emprego, mediante a absorção e fixação de mão-de-obra, sobretudo, de jovens, mulheres e desempregados. As artes e os ofícios cresceram no quadro de programas de emprego e formação profissional.
Em Évora, um dos grandes divulgadores da pintura alentejana foi o Mestre Joaquim António dos Santos, “O Belizanda”. Nascido na freguesia de Santo Antão, em Évora, a 15 de Março de 1890, este artesão cedo aprendeu o ofício, com o Mestre João da Feira, tendo começado a trabalhar com apenas doze anos.
Numa entrevista que deu por volta de 1980, o Mestre Belizanda afirmava que os temas destas mobílias eram muito antigos, tendo sido “deixados pelos mouros”. Para decorar os móveis ou qualquer outro objecto dava um aparelho, com tinta de óleo, quando este secava, aplicava o esmalte de base: creme, azul, branco, encarnado, verde ou preto e depois de este secar é que começava a decoração. Fabricava as suas próprias tintas, misturando óleo de linhaça e secante, com pigmentos comprados em Lisboa. E dizia: “Pinto a tacto, a meu gosto. Olho para a peça e faço cá a meu modo. Dá bom dinheiro, há pouco quem faça e mais a mais perfeito.”
Gostava muito de pintar as cabeceiras das camas de capela, pois tinha espaço para fazer belos ramos de flores coloridas. A mão de mestre manejava dezenas de painéis e as tintas de variadas cores, sem régua ou compasso, desenhando simetricamente as suas florinhas e os belos ramos de rosas, numa combinação de cores.
Queremos com este pequeno texto relembrar o mobiliário pintado alentejano e prestar uma singela homenagem a todos os artesãos que ao longo de muitos anos a ele se dedicaram.

Évora Perdida no Tempo - Vista parcial do claustro de S. Bento Cástris


Vista parcial do claustro do Convento de São Bento Cástris, antes das obras de beneficiação.

Autor David Freitas
Data Fotografia 1940 dep. - 1957
Legenda Vista parcial do claustro de S. Bento Cástris
Cota DFT336 - Propriedade Arquivo Fotográfico CME

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O Dia da Espiga

O Dia da Espiga, coincidente com a Quinta-feira da Ascensão, é uma data móvel que segue o calendário litúrgico cristão e que este ano é celebrada a 21 de Maio.
Mas, se actualmente poucas são as pessoas que ainda vão ao campo nessa quinta-feira, abandonando as suas obrigações, para apanhar a espiga, ou que se deslocam às igrejas para participar nos preceitos religiosos próprios da data, tempos houve em que, de norte a sul do país, esta foi uma data faustosa, das mais festivas do ano, repleta de cerimónias sagradas e profanas, que em muitas zonas implicava mesmo a paragem laboral. A antiga expressão “no Dia da Ascensão nem os passarinhos bolem nos ninhos” deriva dessa tradição.
A origem gaudiosa deste dia é, contudo, muito anterior à era cristã. Este dia é um herdeiro directo de rituais gentios, realizados durante séculos, por todo o mundo mediterrâneo, em que grandiosos festivais, de intensos cantares e danças, celebravam a Primavera e consagravam a natureza.
Para os povos arcaicos, esta data, tal como todos os momentos de transição, era mágica e de sublime importância. Nela se exortava o eclodir da vida vegetal e animal, após a letargia dos meses frios, e a esperança nas novas colheitas.
A Igreja de Roma, à semelhança do que fez com outras festas ancestrais pagãs, cristianiza depois a data e esta atravessa os tempos com uma dupla acepção: como Quinta-feira de Ascensão, para os cristãos, assinalando, como o nome indica, a ascensão de Jesus ao Céu, ao fim de 40 dias; e como Dia da Espiga, ou Quinta-feira da Espiga, esta traduzindo aspectos e crenças não religiosos, mas exclusivos da esfera agrícola e familiar.
O Dia da Espiga é então o dia em que as pessoas vão ao campo apanhar a espiga, a qual não é apenas um viçoso ramo de várias plantas - cuja composição, número e significado de cada uma, varia de região para região –, guardado durante um ano, mas é também um poderoso e multifacetado amuleto, que é pendurado, por norma, na parede da cozinha ou da sala, para trazer a abundância, a alegria, a saúde e a sorte. Em muitas terras, quando faz trovoada, por exemplo, arde-se à lareira um dos pés do ramo da espiga para afastar a tormenta.
Não obstante as variações locais, de um modo geral, o ramo de espiga é composto por pés de trigo e de outros cereais, como centeio, cevada ou aveia, de oliveira, videira, papoilas, malmequeres ou outras flores campestres. E a simbologia de cada planta, comumente aceite, é a seguinte: o trigo representa o pão; o malmequer o ouro e a prata; a papoila o amor e vida; a oliveira o azeite e a paz; a videira o vinho e a alegria; e o alecrim a saúde e a força.
Além destas associações basilares ao pão e ao azeite, a espiga surge também conotada com o leite, com as proibições do trabalho e ainda com o poder da Hora, isto é, com o período de tempo que decorre entre o meio-dia e a uma hora da tarde, tomando mesmo, nalguns sítios do país a designação de Dia da Hora. Nas localidades em que assim é entendida esta quinta-feira, acredita-se que neste período do dia se manifestam os mais sagrados e encantatórios poderes da data e nas igrejas realiza-se um serviço religioso de Adoração, após o qual toca o sino. Diz a voz popular que nessa hora “as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e até as folhas se cruzam” . Nalgumas povoações era também do meio-dia à uma que se colhia a espiga.
Noutras regiões ainda, esta data é dedicada ao cerimonial do leite. Na aldeia da Esperança, no concelho de Arronches, este é aliás o “Dia do Leite” e os produtores de queijo ordenham o seu gado e oferecem o leite a quem o quiser. Também em Guimarães, e em muitas freguesias do concelho de Pinhel, o leite ordenhado neste dia é oferecido ao pároco. Em Santa Eulália, no concelho de Elvas, esse leite é dado aos pobres, acreditando-se assim que a sarna não atingirá as cabras.
Nas zonas onde esta data é associada à abstenção laboral, cessam-se muitas actividades como a cozedura do pão ou a realização de negócios. Na Lousada, em Penafiel, não se cose nem se remenda e há quem deixe comida feita de véspera para não ter de cozinhar neste dia.
No que diz respeito ao sul do país, e sobretudo na actualidade, a maioria das tradições do Dia de Espiga resume-se à apanha do ramo da espiga, ao qual, em muitos sítios, se adiciona também uma fatia de pão, para que durante todo o ano não falte este alimento em casa.

Évora Perdida no Tempo - Aldeia da Torre de Coelheiros


Vista parcial da aldeia da Torre de Coelheiros.
Autor David Freitas
Data Fotografia 1950 - 1966
Legenda Aldeia da Torre de Coelheiros
Cota DFT2783 - Propriedade Arquivo Fotográfico CME

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Fábio ‘Cigano’ caçado no McDonald’s de Évora

Fábio Fernandes Santos, conhecido por Fábio ‘Cigano’, de 19 anos, era o fugitivo mais procurado do Algarve. Liderava um gang de roubos e tráfico de droga e costumava andar armado com uma Kalashnikov, sempre em carros escuros topo de gama. Foi detido em Évora, pela Divisão de Investigação Criminal da PSP de Lisboa, numa operação que levou ainda à apreensão de 11,5 quilos de haxixe.O suspeito foi apenas sujeito a termo de identidade e residência ao abrigo desse processo, ontem, mas acabou por ficar em prisão preventiva devido a um mandado de detenção relativo a uma recente condenação a sete anos e meio de cadeia, por furtos e roubos nos concelhos de Silves e Albufeira.
Fábio ‘Cigano’ foi detido pelas 13h30 de sexta-feira, nas imediações do McDonald’s de Évora, de onde acabara de sair com a namorada e um outro jovem de 19 anos. Seguiam num BMW novo, conduzido por Fábio, quando foram bloqueados pela PSP. Dentro do carro foi apreendido um revólver de calibre 38. Numa casa na cidade de Évora, onde alegadamente Fábio estava escondido, foram depois encontrados 11,5 quilos de haxixe.
Durante a noite ocorreram buscas a residências em Olhão e em Albufeira, relacionadas com Fábio, e foram apreendidos seis automóveis. Segundo o CM apurou, Fábio foi localizado devido a escutas telefónicas a familiares. Usaria o telemóvel de um empresário do Algarve, que lhe terá emprestado a casa onde estava escondido na cidade de Évora. A PSP teria conhecimento do encontro no McDonald’s e preparou a captura.
A kalashnikov AK-47 continua nas mãos do gang liderado por Fábio ‘Cigano’, o jovem de 19 anos capturado pela PSP, em Évora, por suspeitas de vários assaltos violentos e tráfico de droga. Na operação esteve envolvido o GOE (Grupo de Operações Especiais).
A PSP apreendeu um revólver de calibre .38 (municiado e pronto a disparar), duas viaturas de alta cilindrada, que se encontravam escondidas numa quinta na zona de Silves, e cerca de 11,5 kg de haxixe. Mas, a perigosa arma metralhadora de fabrico russo, que se suspeita ter sido usada em ajustes de contas contra uma casa e um carro e no assalto ao INATEL de Albufeira, a polícia não conseguiu apreender. Apesar da apreensão desta arma ter sido apontada como um dos objectivos da missão.
Esta e outras armas automáticas estarão agora na posse dos restantes quatro elementos do grupo, depois das detenções dos líderes do grupo, ‘Cigarrinho’ e Fábio ‘Cigano’. Entre os restantes jovens (com 18 e 19 anos), está um familiar de um ex-militar da GNR. O grupo formou-se na zona de Lagoa e tem agora elementos de Silves e Albufeira.