sexta-feira, 19 de julho de 2013

Inácia Angélica Ramalho Barahona - a mãe dos pobres


Inácia Angélica Ramalho Barahona foi porventura a mulher mais rica da cidade e, simultaneamente, a mais generosa de quantos a habitaram. Nasceu a 27/7/1844, no seio de uma família abastada, e o fato de ter enviuvado de dois matrimónios, contraídos com dois poderosos proprietários eborenses, sem que de ambos houvesse descendentes, levou a que concentrasse nas suas mãos uma fortuna fabulosa, consubstanciada em inúmeros prédios rurais e urbanos e um vultuoso número de ações disseminadas por diversos bancos. Mas nunca deixou de ser uma pessoa atenta aos problemas dos mais carenciados, quer através do financiamento de diversas associações filantrópicas, quer através da construção do monumental Asilo Ramalho Barahona, para o qual contou com o apoio sucessivo dos seus cônjuges, mas que só veio a ser concluído em 1908, em tempos da sua dupla viuvez. 

Neta do negociante Sousa Matos e do lavrador José Joaquim Fernandes (três filhas do primeiro consorciaram-se com outros tantos filhos do segundo, dando origem à mui abastada e poderosíssima família dos Matos Fernandes), Inácia Angélica, menina prendada, casou-se ainda não havia feito 20 anos com José Maria Dinis Ramalho Perdigão, nascido e residente no Monte da Oliveirinha, na freguesia da Graça do Divor. Ramalho Perdigão era 14 anos mais velho, pessoa discreta, amante das artes e lavrador de elevado mérito, tendo revolucionado a agricultura local com a introdução de novas práticas e metodologias nas suas explorações. Inácia Angélica possuía carácter sensível e bondoso, era senhora de maneiras requintadas, aprendidas entre a elite da cidade, que frequentava, para mais sendo a família a mais influente na administração concelhia, e tinha espírito determinado, procurando levar a bom termo tudo aquilo a que metia ombros. Para residência o casal mandou construir, em espaço herdado, um grande palácio que impressionou a cidade e os forasteiros pela sua dimensão, grandiosidade e beleza arquitetónica. 

Mas, para lá do levantamento de tão aparatosa mansão e da ajuda prestada ao município na abertura do Passeio Público, o par não ficou sossegado no afã de contribuir para o desenvolvimento da cidade. O ano de 1881 será marcante para ambos. Por alvará régio de 6 de Agosto, Inácia Angélica vê aprovados os estatutos do Asilo da Infância Desvalida de Évora, especialmente dedicado a acolher órfãos abandonados e no qual a filantropa se empenhou pessoal e financeiramente. Por sua vez, o marido fazia vingar um projecto muito caro à elite citadina encabeçando uma lista de 280 notáveis, que constituíram o grupo de acionistas da Companhia Eborense, a qual adquiriu, em 8 de Agosto, «uma casa térrea situada à Praça de D. Pedro» para aí instalar o Teatro Garcia de Resende. 

A obra visava ainda contribuir para resolver a grave crise de desemprego que grassava por essa altura em toda a região. Ramalho Perdigão viria a falecer a 29 de Janeiro de 1884, sem ver o seu palácio nem o teatro concluídos. Em testamento viria a constituir um legado de 12 contos para construção de um Asilo de Mendicidade para alojar os trabalhadores rurais inválidos da sua casa agrícola, uma grande aspiração de sua mulher, a quem condoía o coração ver deixados ao abandono aqueles que os tinham servido. 

José Celestino Rosado Formosinho, homem de posses, consideração pública e tendência republicana, viria a escrever, em tirada de grande apreço e admiração: «E se, em vida de seu marido a Srª. D. Inácia fizera o bem que podia, continuou na sua viuvez com mão larga e munificiente a derramar à flux os dons da caridade». Não ficaria muito tempo sozinha tão beneficente mulher. Da sua distinção, do seu porte, da sua personalidade assaz cativante e sedutora e da sua grandeza de alma se veio a encantar Francisco Eduardo de Barahona Fragoso, nascido em Cuba e apenas um ano mais velho que ela, filho do 1º. Visconde da Esperança, bacharel em Direito e Par do Reino, senhor de vastos domínios fundiários, opulentos rendimentos e apaixonado pelas artes clássicas. Depois das núpcias celebradas em 16/5/1887 e com a anuência da esposa, Francisco Barahona incute nova dinâmica e requintes de exceção, reforçados pela adição de novas verbas, às obras do Palácio e do Teatro Garcia de Resende. 

O Teatro foi inaugurado em 1892 e ofertado de imediato pelo casal à Câmara Municipal. No grandioso e magnificente Palácio, a partir daí conhecido pelo apelido de Barahona, foram alojando frequentemente os monarcas do tempo quando das suas visitas a Évora: D. Luís e D. Maria Pia de Sabóia, D. Carlos e D. Amélia. O primeiro destes soberanos, a instâncias da mulher, patrona e benemérita de imensas obras de caridade e ação, chegou em 1899 a oferecer o título de Marquesa a Inácia, mas esta recusou perentoriamente. As suas virtudes e a sua permanente ação esmoler vieram a ser consagradas publicamente num magnífico opúsculo em sua homenagem editado pelo “Eborense” (semanário que se publicou nos dois primeiros anos do século passado) no dia do seu 57º. aniversário, ocorrido em 1901. 

Interpretando o sentimento do povo, que já então a conhecia por “Mãe dos Pobres” e por “Anjo da caridade”, produziram textos de invulgares encómios a Inácia Angélica o já citado José Celestino Formosinho; o ex-governador civil Conselheiro José Carlos Gouveia; José Fernando Pereira, antigo Presidente da Câmara de Estremoz, distinto professor do Liceu Nacional de Évora e seu futuro Reitor; Henrique Freire, notabilíssimo professor de instrução primária e excecional pedagogo; António Francisco Barata, investigador, escritor e historiador; e finalmente, entre outros, Luís da Costa (Janota & Cª.), o repórter social da época. O segundo marido morrerá em 25 de Janeiro de 1905, não ficando totalmente terminado o Asilo de Mendicidade, sonho maior de sua mulher. O magnífico edifício, e obra de extraordinário alcance social, é inaugurado em 17/6/1908. 

A viúva dá-lhe o nome de Ramalho Barahona que usava, juntando o nome dos seus cônjuges. Assiste à chegada da República, a qual não teme, pois sabe que embora sendo monárquica está no coração de todos eborenses. Deixa então o Palácio, que será vendido em 1915 à Companhia de Seguros “A Pátria”, então em fase de constituição. Passa a residir no nº. 13 da Rua de Cicioso (João Mendes de Cicioso, judeu riquíssimo que ali viveu na segunda metade do século XV e foi igualmente um grande benemérito da cidade), onde continuará a corresponder com o generoso óbolo a quem a ela recorre, sejam pessoas ou instituições de solidariedade. 

Finar-se-á a 5 de Janeiro de 1918, e da sua colossal fortuna deixará em testamento, publicado no “Notícias d’Évora”, dois contos de réis (2.000$00) a dividir pelas quatro freguesias da cidade para serem distribuídos pelas pessoas mais pobres de cada uma, consoante as respetivas necessidades; 9 contos de réis em ações nominais à Santa Casa da Misericórdia; 1 conto e trezentos mil réis em ações ao Asilo de Mendicidade; outro tanto ao Asilo de Infância Desvalida; e igual montante à Casa Pia, ao Montepio Eborense e à Associação Filantrópica Académica Eborense, num total de 17 contos e quinhentos mil réis (17.500.$00). Uma quantia fabulosa há quase 100 anos. Mas todos os que serviram a família, desde criados a feitores, passando por aias e pastores, foram contemplados, chegando os mais antigos e fiéis a serem beneficiados com o usufruto vitalício de alguns prédios, legados naturalmente a herdeiros de Inácio Angélica.

Texto: José Frota

1 comentário:

Carlota Cordovil disse...

De seu nome completo (solteira) Ignacia Angélica Mattos Fernandes,nascida 27/7/1844. Casou em 1ª nupcias com José Maria Ramalho Diniz Perdigão, em 9 de Maio de 1864, e, enviuvou, em 22 de Janeiro de 1884. Casou em 2ª núpcias na igreja de S. Francisco no dia 16 de Maio de 1887 com Francisco Eduardo de Barahona Fragoso Cordovil da Gama Lobo, bacharel formado em direito.Morreu a 5 de Janeiro de 1918, sem descendência. ( vide Francisco Barahona Benemérito da cidade de Évora opúsculo das comemorações do Centésimo aniversário da morte 25/01/2005 - edição Câmara Municipal de Évora 2005

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