domingo, 31 de dezembro de 2017

Igreja de S.Mamede


Igreja paroquial com existência assinalada em 1302, segundo documentos do Arquivo Capitular da Catedral, sofreu completa transformação arquitectónica nos meados do século XVI, que refundiu a nave e capelas laterais, complemento do coro e pórtico. O altar-mor é do 2.° quartel de setecentos. Foram grandes benfeitores da freguesia os esposos fidalgos D. Catarina Borges de Macedo e Gaspar de Sequeira, fundadores da Capela da Piedade em 1546; D. Brites Valadares, que instituiu uma capelania em 1566, com licença do arcebispo D. João de Melo, e os membros dirigentes da Confraria do S. Sacramento, que nela existia desde c.ª de 1564, muito a melhoraram e enriqueceram de esmolas e obras pias. Olhando ao sul, com fachada discreta de alvenaria amparada por contrafortes rectangulares, santuários laterais e outras dependências, o corpo axial adquiriu certa dignidade com a construção do pórtico no estilo clássico, de três arcos de volta inteira e dois portais estreitos assentes sobre irregular escadaria de mármores regionais. 

O alpendre propriamente dito, revestido de mármores coloridos, com dois frontões - interrompido no plano inferior e triangular no terminal - ambos compostos de pináculos, encaixa o coro que, embora obra quinhentista, é posterior à nave do templo. Na banda ocidental ergue-se a torre, modernizada, de planta quadrangular e coruchéu cónico, com remates laterais de massa, onde se conservam, nos olhais, três sinos de bronze fundido. Um é moderno e os restantes são do séc. XVIII, merecendo referência o de Nossa Senhora da Encarnação, patrimonial da antiga Confraria deste nome, que na igreja existia, que saibamos, desde o ano de 1635. Os telhados do edifício são de duas águas, mantendo-se as primitivas gárgulas de granito, de rude execução. As portas de acesso ao templo, com batentes almofadados, de madeiras brasileiras, são três, muito sóbrias, sendo a central sobrepujada por frontão sem retomo, de perfis lisos, despidos de ornamentação. A nave é um amplo vão de três tramos, com 16,70 m. de comprido por 8,10 m de largura, coberto com feixes de 3 e 5 nervuras de aresta viva rompentes de um anel circular de estuque apoiado em mísulas vulgares, de pedra. Trata-se de formosa abóbada polinervada, concebida dentro do sistema tradicional da arte gótica, mas acusando nítidas manifestações renascentistas, e deve ter sido terminada numa época muito avançada do séc. XVI. 

No ocaso da centúria seguinte toda a cruzaria e o coro foram recobertos de intensa decoração mural, obra de merecimento do estilo barroco, de artista desconhecido mas que deve estar ligada às actividades pictorais do espanhol Gabriel dei Barco que, neste período, trabalhou para algumas igrejas de Évora e a quem se deve atribuir a execução do paramento integral de azulejaria da Sala da Confraria do S. Sacramento de S. Mamede. A pintura, datada na chave central de 1691, de colorido intenso, está composta e envolvida por laçaria e arabescos encordoados, com brutescos, serafins, aves, flores, mascarões e frutos, tendo como elementos centrais medalhões ornamentados com o Cálix, a Hóstia Sagrada, emblemas do padroeiro e legendas latinas. O coro, cronografado de 1693, perdeu totalmente a composição fresquista, de que restam vestígios na moldura do arco interno, mas conserva o revestimento de azulejos do tipo de tapete, policromos e de factura anterior, além da elegante balaustrada de mármore branco, de secção circular, dos finais do quinhentismo. Muito curiosa pela originalidade e policromia, embora desequilíbrio de factura, é a série de apainelados cerâmicos que preenchem do rodapé à cimalha as paredes da nave. 

São seis as composições de tapete, de brutescos e de maçaroca de milho, estes singulares no desenho e variantes ricas do mesmo padrão, generalizado no país, onde aparece o esmalte verde bem raro na azulejaria portuguesa dos meados do séc. XVII, época provável de execução desta encomenda. O efeito interior do edifício com as tonalidades, reflexos e garridice dos modelos que revestem os alçados, caixas de confessionários, capelas laterais e empena coral, é de efeito surpreendente e muito agradável, sendo o seu estado de conservação excelente. O púlpito, erguido no lado da Epístola, de secção hexagonal, feito de mármores coloridos, com incrustações, é peça barroca datada de 1656. Lateralmente, na boca da capela-mor, rasgam-se duas capelas de planta quadrada, quinhentistas, com tectos cupulares octogonais, assentes em trompas. 

A do Evangelho, crismada actualmente do Sagrado Coração de Jesus e na origem da Piedade, está forrada de azulejos vulgares do séc. XVII, do tipo de tapete e a cobertura em padronagem de maçaroca, policromos e idênticos aos da nave, circundando o brasão dos fundadores, numa chave de tabela clássica, de calcário branco. Incrustado no alçado da Epístola subsiste o mausoléu marmóreo de Gaspar de Sequeira e de Catarina Borges de Macedo, com as suas peças armorejadas e a lápida que diz: ESTA CAPELLA MANDOV FA ZER GASPAR DE SIQUEIRA E CATE RINA BORGES DE MACEDO SVA MOLHER PERA ELLES E TODOS SEVS HERDEIROS EM A QVAL PODERAM ESTAR AOS OFFICIOS DIVINOS E NAM SE ENTERRARA EM ELLA OVTRA NENHVA PESSOA ENTERRAN- DOSE RE QVERENDO HO PADROEIRO AO PRIOR OV A QVAL- QVER DOS BENEFICIADOS HO FORAM DESEMTERAR DENTRO EM VINTE E QVATRO HORAS SOB PENA DE PAGA REM CEM CRVZADOS E HO POSSVIDOR A TERA SEMPRE REPAIRADA QVE ESTE EM FEE CONFORME AO CONTRATO ERA M. C. XXXXVI No lugar conservam-se alguns bancos de madeira, de pés torneados e três assentos forrados de couro lavrado e pregaria de latão, do séc. XVII, além de fragmento interessante de um cadeiral de carvalho entalhado, quinhentista, quiçá resto de antigo mobiliário do extinto e demolido convento de Santa Mónica. Nada mais de valor artístico se conserva na capela, além da pia de água benta de mármore branco, desenhada ao gosto da Renascença. 

O santuário fronteiro, agora baptizado de N.ª S.ª de Fátima, e que do mesmo modo tem altar e banqueta modernos, está igualmente forrado de azulejaria colorida (grande parte hodierna), o tecto de padronagem de maçaroca, moldura barroca e fecho com florão amarelo sobre fundo azul (meados do séc. XVII). Antigos, dois bancos de costas direitas forrados de couro pregueado e pernas de madeira torneada. A CAPELA-MOR Aberta por vasto arco de volta inteira, de estuque apainelado, profunda e incaracterística, com 10,80 m. de comp. por 6,40 m. de larg., é obra tardia do séc. XVII: está coberta com tecto de meio canhão e de paredes caiadas de branco na maior simplicidade. No rodapé, longo silhar de azulejos policromos, seiscentistas, no género de tapete, ornamentado por sanefas floridas, de moldura de cordão entrançado com óvulos estilizados. Exteriormente, todavia, as empenas conservam a estrutura original, com cunhais de granito aparelhado, em silhueta dum severo barroquismo. O altar, monótono e pesado, feito de mármores brancos, róseos e negros avivados a oiro fino, das pedreiras regionais de Vila Viçosa e Borba, é concebido no estilo neoclássico inspirado no retábulo da igreja conventual de S. Francisco, com colunata da ordem compósita, fogaréus e frontão ornamentado com o tarro e o bordão de peregrino, símbolos do padroeiro. Em represas laterais veneram-se as imagens de S. Mamede e N.ª S.ª da Conceição, ambas de madeira estofada e policromada, dos sécs. XVII e XVIII, respectivamente. O titular, ostenta adereços de prata lisa, do séc. XIX, sem mérito artístico, que substituíram os primitivos, pilhados pelos soldados franceses durante o saque de Julho de 1808.

 Da banqueta conservam-se as duas credencias de madeira, de pernas e aventais curvilíneos, com discreta guarnição de talha dourada, da época de D. Maria I, e três tamboretes de pau-santo com pés e tabelas torneados, do séc. XVII. Curiosa, também, a cadeira paroquial, de madeira exótica, de braços representados por golfinhos e suportes de colunelos torsos revestidos de flora e pés de garra. Trata-se de exemplar pouco comum do barroquismo indiano ou hispano-americano, de c.ª 1700, adquirido ultimamente, no bric-à-brac. O cadeirado, de que existe a continuação na capela tumular dos Sequeira Macedo, lavrado no estilo do Renascimento, é geralmente atribuído aos despojos do coro de Santa Mónica. Nas paredes do presbitério conservam-se quatro pinturas de merecimento variável, épocas e estilos vários, que cumpre assinalar: a) Adoração dos Reis Magos, painel a óleo sobre tábua da antiga Escola Portuguesa. Meados do séc. XVI. Está adornado com larga moldura dourada, do barroco-joanino, de c.ª 1740. Mede, o retábulo: Alt. 1,60 m. x 1, 11 m. b) Piedade, tela do séc. XVII, de provável factura portuguesa, mas de nítida influência do dramatismo espanhol. Moldura rocócó, de talha dourada, guarnecida com serafins e tabelas de alto-relevo. Mede: Alt. 1.15 m. x 1,15 m. c) S. Pedro atormentado contempla Cristo na coluna. Grande pintura a óleo sobre tela, do séc. XVII, de factura medíocre onde, todavia, persistem traços da Escola Estremenha de Luís de Morales. Moldura lacada de negro, com figuras, paisagens e aves douradas. Mede: Alt. 1,40 m. x 2,10 m. d) Descida da Cruz, tela do séc. XVII, da Escola maneirista eborense, com moldura dourada e marmoreada, de talha barroca. Mede: Alt. 1,80 m. x 1,45 m. Alguns destes quadros são provenientes, certamente, da demolida igreja conventual das freiras agostinhas de Santa Mónica, cujos restos transformados na Escola do Magistério Primário correm na ilharga do templo. 

Separando o corpo da nave, como obra de marcenaria fina, do estilo barroco, da 1.ª metade do séc. XVII, conserva-se a formosa grade de madeira de cedro, com pilastras lavradas, balaústres torneados e pináculos piramidais sobre peanhas de volutas, urnas e fogaréus, tudo guarnecido de anéis e incrustações de latão. No meio do santuário, sob campa de mármore branco lavrada em dossel, com epitáfio de latim truncado, jazem as ossadas do prior António Nunes Vieira, cónego doutoral e antigo académico da diocese de Viseu, que se finou no ano de 1739. ANTONIO NVNES VR.A S. MAMANT1S ECCES PRIORI ARCHIEPISCO PALIS CVRIAE EB OR. SIS SENATORI PRVD.SSO ALMAE ACADEMIAE ECC LZ.TO CONSER VATORIOLIM DIOEC.SIS VISENS IS PROV.RI EMERIT SSO PIENT.SSO EGEN ORVM PATRIMAXI MARVQVIRTVTV VIRO ETIAPOST VITAIMORTALIAE TER NVIN MORTE MONVMENTVM RIP 1739 A SACRISTIA, da época seiscentista, que deita para a banda norte-ocidente, é dependência cómoda, bem iluminada, de janelas emolduradas, de granito, mas sem qualquer merecimento arquitectónico: nela se vê o lavabo de mármore branco, com uma de serafins e taça lisa, além de dois paramenteiros de madeiras e períodos diferentes, sendo o mais antigo, de carvalho, uma adaptação de peça barroca, dos começos de seiscentos, proveniente de Santa Mónica, e o próprio do lugar, belo móvel de pau-santo, com alçado de seis gavetões e corpo central ornamentado com o tarro do padroeiro, pilastras entalhadas e puxadores de metal decorados pela águia e corações metidos em vieiras. 

É obra portuguesa dos meados do séc. XVIII, do tempo de D. José I. De escultura, paramentaria ou torêutica antigas não vimos objectos de assinalar; sobrepujante à porta de acesso ao pequeno quintal privativo da paróquia, conserva-se uma pintura a óleo sobre tela, de características oficinais populares do séc. XVII, representando as Três Vias da Vida Mística, com figuração, também, de Santo Elias e Santa Teresa de Jesus. Tem moldura de madeira laçada de vermelho e ouro, com cartelas angulares e é quadrada, pois mede 1,80 x 1,80 m. Guardam-se aqui as peças litúrgicas mais valiosas da freguesia, de prata, latão e marfim, as poucas que escaparam ao saque funesto de 1808 e outras que após o desastre foram executadas nos prateiros de Lisboa e Porto. 

Neste Inventário (Évora - Cidade e Concelho) excluem-se, como é óbvio, as belas alfaias da Confraria do Santíssimo Sacramento, que se conservam no Museu Regional de Évora desde a promulgação da Lei de Separação da Igreja do Estado, entre as quais avulta o par de lanternas de prata cinzelada, da arte barroca, executado por prateiros eborenses no séc. XVIII. São, todavia, pouquíssimas as que merecem referência especial, a saber: 1 - Vaso dos Santos Óleos, de prata lisa, com base circular e tampo piriforme ornamentado com a imagem miniatural de Cristo. Punção de Lisboa: marca: A. P. Último quartel do séc. XVIII. Alt. 285 mm. 2 - Custódia, de prata branca e dourada, revestida de serafins no hostiário, suportado por quatro pés de volutas. Estilo rocócó. Punção do Porto: marca: G (1792-1810). Alt. 605 mm. 3 - Cálice, de prata cinzelada, com base de secção rombóide ornamentada por símbolos religiosos. Punção do Porto. Estilo rocócó. Marca: M.G. (1792-1810). Alt. 300 m. 4 - Purificatório, de prata, com brasão eclesiástico gravado, de casa de marquezado. Peça espanhola do séc. XVIII. Mede, de diâm. 90 mm. 5 - Par de coroas, de prata repuxada, de grandes dimensões, de N.ª S.ª da Conceição. 6 - Escultura de Cristo. Variante jansenista, muito bem tratado, sem cruz. Séc. XVIII. Mede: Alt. 0,38 m. A capela baptismal, de planta rectangular, com cobertura de lanternim octogonal assente em trompas e terminado por chave de mármore, estrelada, está forrada de azulejos policromos, seiscentistas, iguais aos da capela-mor. Pia de calcário branco, regional, simplesmente revestida na taça por pétalas: sobrepujante, o painel em tela, da arte populista local, do Baptismo de Cristo, encerrado em curiosa moldura policromada, guarnecida de canduras. 

A pintura oferece todas as características do séc. XVII e mede, 1,15 m. Divide a dependência interessante grade de madeira brasileira com pilastras de tremidos e balaústres circulares, torneados, certamente da mesma centúria. Na face fronteira, em sala interior, montou-se em épocas modernas a capela de N.ª S.ª das Dores, pelo que foi aproveitado o altar de talhas douradas, do estilo rocócó, que compunha o oratório do Paço Metropolitano desde o governo do arcebispo D. Fr. Joaquim Xavier Botelho de Lima (1784-1800) e onde, ao que se julga, D. Fr. Manuel de Cenáculo colocara o retábulo flamengo de Nossa Senhora da Glória. Neste lugar, despido da belíssima pintura, existe agora, em proporções erradas, uma maquineta de talha do mesmo estilo do conjunto, embora posterior, mas de melhor factura, onde se venera o busto da titular, coevo, em trabalho de lenho pintado. De certa monumentalidade e a melhor dependência do templo é a capela-sede da Confraria do Santíssimo Sacramento. Instituída no 3.° quartel do séc. XVI, atingiu através dos tempos grande importância paroquial, e a sua procissão de abertura, realizada com singular explendor, no Domingo 18 de Junho de 1564, sob auspícios do prior de S. Mamede padre Diogo Tavares, do juiz-escrivão Baltazar Fragoso e mordomos Domingos Fernandes Pombeiro e Adão Fernandes, sapateiro, foi abençoada e acompanhada, sob o pálio, pelos mestres André de Resende e João Sardinha, este como Visitador da Metrópole. Nos derradeiros anos de seiscentos, a sala própria passou por reformas estruturais que lhe imprimiram o actual aspecto. Trata-se de interessante casa de planta rectangular com cobertura de meio canhão toda revestida de composições fresquistas, de interpretação simbólica da Igreja, enobrecida, no eixo, pela Exaltação da Santíssima Partícula: envolventes, as figuras da Temperança, Fortaleza, Justiça e Prudência, além de inúmeros brutescos, ornatos, aves, vieiras, folhagens e verduras e atributos sacros. 

As paredes, até à cimalha e emoldurando as janelas, que deitam para o lado ocidental, estão completamente recobertas de apainelados cerâmicos de esmalte branco e decoração azul, com cenas historiadas da parábola do Novo Testamento (O Filho Pródigo), enquadradas por largas albarradas. O desenho, impreciso e falho de perspectivas, torna-se complicado pela minudência dos pormenores das faixas, com colunas berninianas, anjos suportando cornucópias e vasos floridos sobrepujantes a golfinhos, cachos de frutos, cartelas, óvulos, conchas e as figuras da Fé e da Caridade tratadas à maneira clássica. A composição geral, de nítido sentido barroco e de profundas afinidades com os trabalhos similares da nave da igreja de S. Tiago (assinados e datados de 1699-1700), foi atribuída por Santos Simões e Gabriel del Barco, o conhecido pintor espanhol que se popularizou entre nós, não sendo de desprezar esta classificação. É obra de oficina lisbonense deste período. Na parede fundeira, metido em profundidade, subsiste alto móvel de lenho, com portas almofadadas e chapas de ferro, infelizmente repintado, no qual, em prateleiras e nichos se guardavam os tombos, cartulários e os valores sumptuários da Confraria. Finalmente, no solo, vê-se uma pesada e desgraciosa imagem do Menino Jesus, mutilada, de mármore branco e da arte barroca que veio da frontaria da demolida igreja de Santa Mónica. É do séc. XVI. Mede, de alto, 1,02 m. 

BIBL. Pe. Francisco da Fonseca, Évora Gloriosa, Roma, 1728, pág. 218; Pe. António Franco, Évora Ilustrada, 1945, pág. 373; Gabriel Vítor do Monte Pereira, Estudos Eborenses, fasc. Procissões Eborenses, págs. 238/246. 

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