sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A agricultura e a Greve Geral de 1912




No início do século XX a agricultura alentejana continuava a manter a estrutura fundiária medieval, caracterizada pelo grande latifúndio. Na imensidão da planície grassavam vastíssimos domínios cujas herdades podiam oscilar entre os 18.000 e 55.000 hectares. Cerca de 94 por cento da área do concelho de Évora era considerada como grande propriedade (acima dos 200 hectares), enquanto a média (30 a 200 hectares) abrangia 5 por cento, sendo a pequena meramente residual. A esmagadora percentagem dos proprietários era absentista, ou seja, residia fora das suas terras, tendo um agente intermediário de sua confiança (feitor) que actuava como seu administrador e contratava os trabalhadores.

Regra geral estes eram contratados nas aldeias, a preços verdadeiramente obscenos, para trabalharem de sol a sol no amanho das terras. E quando se chegava aos meses mais exigentes como os das ceifas, da apanha da azeitona, da tiragem da cortiça ou, em menor escala, recorria-se a gente de outras regiões, que à míngua de trabalho aceitava vir para o Alentejo ganhar mais uns tostões essenciais à sua sobrevivência. 

Ora com a chegada da República foi criado um novo regime laboral, primeiro no aspecto salarial e depois reforçado com a regra do descanso semanal, o que desagradou aos patrões, muitos deles pertencentes à burguesia comercial, que pouco ou nada entendiam de agricultura, mas que, avarentos e visando extrair o maior lucro possível da exploração do trabalho alheio, não se mostraram dispostos a acatar as novas obrigações.

Estava aberto o conflito entre os donos das terras e os trabalhadores rurais em finais de 1911, com o recém-empossado governador civil António Paulino de Andrade a mostrar abertura para promover o diálogo entre ambas as partes, na tentativa de evitar o desencadear duma greve já anunciada que era de todo o interesse não viesse a acontecer. Porém Paulino de Andrade, face à firme defesa dos assalariados na manutenção dos princípios estabelecidos e acordados, abandona a posição de neutralidade e coloca-se ao lado dos terratenentes.

Para evitar que os assalariados se reunam manda encerrar a Associação dos Trabalhadores Rurais (criada no ano anterior) e fechar as portas de todas as outras Associações de Classe concelhias e distritais sob a ameaça de descargas da Guarda Nacional Republicana. Os revoltosos encontram-se nos campos enquanto as forças militares e paramilitares cercam a cidade para lhes impedir o acesso. A partir deste momento todas as associações operárias da cidade e do distrito proclamam a Greve Geral a 13 de Janeiro de 1912 e cerca de 20.000 trabalhadores, de ambos os sexos e proveniências várias, dirigem-se para Évora tentando entrar na cidade, o que conseguem sem grande dificuldade, não obstante as barreiras e os obstáculos levantados.

Nos dias seguintes, o governador civil, impotente para evitar pacificamente o galopante desenrolar dos acontecimentos, ordena a prisão dos principais organizadores e dinamizadores do movimento, o que contribui para inflamar definitivamente a situação. No dia 24 sucede o inevitável - grevistas e uma patrulha da G.N.R. entram em acesa discussão em plena rua, da qual vem a resultar um morto e vários feridos entre os primeiros. Indiscriminadamente, as forças da autoridade mandaram para os calabouços inocentes que tiveram o azar de estar no local errado à hora errada, dado que nesse dia a cidade fervilhava de pessoas. Tendo em conta o rumo dos acontecimentos e entendendo que devia prestar um esclarecimento público o governo faz chegar à imprensa a seguinte nota oficiosa que de seguida se respiga na íntegra do extinto jornal “O Século”:
«O delegado do Governo, Sr. Inocêncio Camacho, deputado por Évora, expôs ao governo a situação actual do distrito, com a história dos acontecimentos dos últimos dias. 
O pretexto para o movimento foi, de facto, a falta, por parte de certos lavradores, dos compromissos que entre si tinham tomado sobre preços de alguns trabalhos de campo. O movimento que daqui resultou foi imediatamente explorado por elementos reaccionários, alguns anarquistas e pelos adversários pessoais do sr. governador civil. Os elementos anarquistas apoderaram-se das associações e nelas incitavam ao assassínio, ao saque e à destruição das propriedades, o que obrigou a autoridade a encerrá-las, no estrito cumprimento da lei.
Nos campos, vários bandos de gente, armados com espingardas, percorriam as propriedades, obrigando os
trabalhadores a segui-los à força. Esses bandos, apurouse que eram constituídos por criados de reconhecidos reaccionários, de mistura com anarquistas. Incitavam os trabalhadores a marchar sobre Évora dizendo-lhes que Paiva Couceiro lhes faria pagar 600 réis por dia. Preparou-se de facto a marcha sobre Évora e o assalto à cidade, que se deveria efectuar no dia em que se deram os conflitos com a força armada. O governador civil tomou, de acordo com autoridades militares, as providências necessárias, evitando a entrada dos bandos na cidade, localizando, portanto, o conflito à praça em que têm a sua sede as associações. Vários dos prédios dessa praça estavam ocupadas por gente armada, que atirou sobre a guarda republicana, a qual só usou das armas de fogo depois de haver feridos nas suas filas. Os desordeiros foram empurrados para fora da cidade pela cavalaria, restabelecendo-se imediatamente o silêncio.
Os agitadores tinham persuadido as gentes dos campos de que poderiam saquear a cidade, porque o exército estava com eles. Disso foi prova evidente a manobra das mulheres do campo, que em chusma se dirigiram aos quartéis. Logo que se deu o conflito, a convidar os soldados a cumprir a sua palavra.
É absolutamente falso que os bandos de grevistas se tenham refugiado no campos, defendendo-se a tiro das forças. A verdade é que os trabalhadores logo que reconheceram que tinham sido enganados se revoltaram contra os dirigentes e contra aqueles que, na sua própria expressão, os tinham prendido para a greve!
Tanto a cidade como os campos em torno estão actualmente em completo sossego. Os trabalhadores voltaram para as suas ocupações: os lavradores que se tinham esquivado aos seus compromissos, voltando tudo à normalidade. Dos presos foram soltos aqueles acerca dos quais se não reconheceu responsabilidades de provocação ao movimento sendo os restantes entregues ao poder judicial.»

 Esta nota oficiosa, tida como «prenhe de mentiras», foi muito mal recebida na Casa Sindical de Lisboa (Federação Anarco-Sindicalista) onde já se preparava um movimento de solidariedade de grande dimensão para com os trabalhadores rurais eborenses. O resultado foi a convocação para o dia 28 de uma Greve Geral em apoio dos assalariados agrícolas que, começando em Lisboa, se estendeu a Setúbal, Almada, Montijo e Moita, numa adesão quase total. Na noite de 29 e todo o dia 30 há confrontos violentos com a Polícia, a GNR e a Guarda Fiscal que provocam a morte de vários contestatários e ferimentos em muitos outros. Contudo os activistas não desistem e prometem ripostar armando-se também. Alarmado, o governo decreta o estado de sítio, «suspende as garantias constitucionais» e entrega a cidade ao Comando Militar. Entretanto os rurais eborenses terminam a greve, depois de obtidas as suas reivindicações salariais, reabertas as sedes das associações de classe e libertos os detidos. Apesar disso, a 31, na capital, os grevistas continuam a ser perseguidos visando-se uma punição exemplar. 

Elementos da GNR e da Policia cercam a Casa Sindical e exigem a total evacuação do edifício sob a ameaça de duas peças de artilharia. Os sitiados, em quantidade superior a 600 contando homens e mulheres abandonam o prédio sem oferecer resistência e são imediatamente detidos e transportados para os navios Pero de Alencar e Fragata D. Fernando de onde os dirigentes mais destacados serão deportados para África. Este episódio veio marcar o início dos desencontros entre a República e o movimento operário.

Texto: José Frota 

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