sexta-feira, 8 de julho de 2011

Cronologia da Implantação da República em Évora (1880-1915)


1880
A 10 de Junho realizam-se celebrações nacionais do 4º Centenário da Morte de Camões. O governo monárquico progressista, que havia mostrado pouco empenho na sua organização, deixa cair a organização nas mãos de elementos republicanos. Os festejos tiveram extraordinário impacto popular, com grandes cortejos cívicos nas principais cidades do país, onde se registaram incidentes e ouviram agravos contra a realeza e os partidos rotativista, mas foi em Évora que os mesmos tomaram proporções inusitadas. Segundo o “Monitor Transtagano” passaram-se nesse dia «cenas de selvajaria na sequência de divergências graves entre cidadãos e oficiais do Regimento de Cavalaria 5», que começaram com bofetões e socos dos militares e acabaram com a resposta dos populares, em muito maior número. No meio da arruaça o governador civil,
o comissário da polícia e alguns oficiais de Cavalaria 5 são agredidos e arrastados na onda de exaltação popular. A 13 de Junho, no rescaldo dos acontecimentos, o Ministério da Guerra transferiu o Quartel General para Estremoz e o Regimento de Cavalaria 5 para Vendas Novas. “O Monitor” comentava dias depois : «Nós estigmatizamos estes factos (...) que não são nem progressistas nem democratas, porém socialistas ou demagogistas (leiase republicanos) o que nos leva a uma situação mais intolerável do que se pertencêssemos a um país de bárbaros». A 30 de Junho uma delegação composta por José de Sousa Matos, José Maria Ramalho Perdigão, Manuel Paula de Rocha Paula Viana e Abel Martins Ferreira, gente influente do concelho, desloca-se a Lisboa para apresentar ao governo um pedido de desculpas e pedindo a revogação de ambas as decisões uma vez que a saída daquelas unidades da cidade acarretava uma perda anual de 100:000$00 e porque, como garantia o “Monitor”, «os díscolos pertenciam à plebe - porque o povo propriamente dito é prudente e digno». A situação foi reposta em meados do mês seguinte.

1881
Em Janeiro é criado, na Rua do Capado, um pequeno centro republicano para apoiar a primeira candidatura do partido às eleições municipais, feita na pessoa de Joaquim Henrique da Fonseca, médico e distinto reitor do Liceu de Évora. A 21 de Agosto realizam-se as eleições municipais no Círculo 114, que abrange os concelhos de Évora, Portel e Viana. No caso de Évora, embora fique longe dos 2.262 votos recebidos pelo candidato governamental monárquico, Joaquim Henrique da Fonseca obtém 117 votos, cotandose na segunda posição. O pequeno centro, local embrionário da presença efectiva dos republicanos no concelho, é posteriormente desactivado.


1883
Em data indeterminada instala-se temporariamente em casa de Bernardo de Matos, na rua que há-de vir a ter o seu nome, o Centro Eleitoral Democrático Eborense, para apoio dos candidatos republicanos aos actos eleitorais desse ano.


1887
Em Dezembro é criado o Centro Republicano Federal Eborense no nº. 90 da Rua do Raimundo, presidido por Pereira de Macedo Júnior. Teve aulas de instrução primária, francês e desenho. Desconhece-se a sua duração, que não foi muito longa.


1888
A 19 de Abril Domingos António Gomes Percheiro, antigo militar e jornalista, republicano e amigo de João de Deus, Antero de Quental e Teófilo Braga, adquire a propriedade do “Diário do Alentejo”, primeiro periódico do género na região a ter como director um republicano. A 26 de Abril Uma semana após ter comprado o referido periódico, Domingos Percheiro é alvo de um atentado e de madrugada a redacção é assaltada quando este procedia à revisão do jornal. Preso durante 10 horas é depois entregue ao poder judicial, acabando por ser solto sob fiança.


1895
É criada a Associação das Classes Construtoras e Artes Auxiliares.


1897
A 19 de Setembro entra em publicação “A Lucta”, semanário manuscrito e copiografado, assumidamente republicano, de «menores e empregados de comércio», cujo director político J. Roberto da Silva se encarrega em vários números de desancar o governo e a fazenda pública. Alvo de uma tentativa de agressão e de diversas querelas movidas em tribunal a publicação acaba por ser interditada pelas autoridades.


1899
A 20 de Abril é suspenso compulsivamente, na sequência da prisão do seu director, Manuel Vicente Ventura, o bi-semanário “A Rabeca”, ligado à facção socialista anarquista do republicano Azedo Gneco. Ligado ao movimento anticlerical dos Círios Civis, o jornal e o director haviam caído em desgraça junto das autoridades locais e do Arcebispo de Évora pelo que ambos foram querelados e condenados.


1900
A 8 de Setembro é fundado o diário local “Notícias d’ Évora”, ligado primeiro ao Partido Progressista e depois ao Partido Regenerador - Liberal e que após a proclamação da República se veio a tornar no seu principal inimigo. Ainda hoje permanece como o mais longevo jornal eborense, apenas encerrado em circunstâncias diversas em 1991. A 5 de Dezembro um grupo de operários apaixonados pela cultura musical funda na rua Pedro Simões o Grupo Operário Recreativo Joaquim António de Aguiar que a partir de 1912 passa à condição de Sociedade.


1902
Circula em Évora o primeiro automóvel, pertença do grande proprietário, lavrador e banqueiro, conselheiro José António de Oliveira Soares.


1904
Começa a publicar-se como semanário independente “A Voz Pública” que tem como director o médico republicano Evaristo Cutileiro.


1905
A 15 de Janeiro Evaristo Cutileiro adquire a propriedade de “A Voz Pública”, que fica com o subtítulo de Semanário Republicano e suspende por algum tempo devido a problemas de saúde do seu proprietário.


1906
A 25 de Novembro, em casa do cidadão Francisco d’Almeida Telles do Valle é criado o Centro Republicano Eborense, que se virá a integrar no Centro Republicano Democrático Liberdade e cuja sede se virá a implantar na rua da Freiria de Baixo 18. A 10 de Novembro o Partido Republicano concorre pela primeira vez às eleições para a Santa Casa da Misericórdia, apostando na manutenção do Cónego Bernardo Chouzal como provedor mas lançando uma lista em que candidata Evaristo Cutileiro a vice-presidente e António dos Santos Cartaxo Júnior, Francisco d’Almeida Telles do Valle, Romão de Carvalho Marquez, José de Paulo Costa e António Joaquim dos Santos como mesários.


1907
A 16 de Março “A Voz Pública“ muda a sua anterior redacção da rua João de Deus para a sede do partido na Rua da Freiria de Baixo e retoma a sua publicação, passando a sair duas vezes por semana. A 25 de Maio é eleita a primeira Comissão Municipal Republicana presidida por Evaristo Cutileiro.


1908
A 11 de Abril realizam-se eleições para deputados. A surpresa esteve prestes a acontecer pois o candidato republicano Evaristo Cutileiro ganha no concelho mas perde no distrito. A 26 de Agosto efectua-se um grande comício republicano no chamado quintalão da rua de Machede em que participam Afonso Costa e Bernardino Machado. A jovem Ana Laura Chaveiro Calhau, com apenas 16 anos, é a primeira mulher eborense a falar num comício político.


1909
A 27 de Fevereiro o Grupo Juventude Republicana, criado no ano anterior, fixa em definitivo a sua sede na rua de Machede, 8 A.


1910
A 6 de Janeiro tem lugar em Machede uma grande sessão de propaganda em que falam José Joaquim Mocho, presidente da respectiva Comissão Paroquial, Francisco Martinho Pereira e diversos dirigentes concelhios. A 14 de Agosto grande comício, às 5 da tarde, na Praça das Mercês em apoio dos candidatos pelo círculo às eleições legislativas: Júlio do Patrocínio Martins, Carlos Amaro, Inocêncio Camacho Rodrigues e Afonso do Prado Lemos. De manhã tinham ocorrido comícios também em Azaruja e Machede. A 28 de Agosto têm lugar as eleições legislativas. Os republicanos ficam a escassos 91 votos do partido governamental. A 5 DE OUTUBRO é implantada a República que é recebida com grande regozijo e entusiasmo em Évora. Nos dias seguintes é nomeado o novo governador civil Estevão Pimentel e a nova Comissão Executiva da Câmara de Évora, presidida por Júlio do Patrocínio Martins. A 1 de Dezembro celebra-se em Évora, como no resto do país, o dia da Bandeira.


1911
É constituída a Associação de Classe dos Trabalhadores Rurais de Évora. A 2 de Abril a Câmara Municipal de Évora aprova o regulamento concelhio da Lei do descanso semanal. A 1 de Maio celebra-se pela primeira vez em Portugal o Dia do Trabalhador. Nas comemorações celebradas em Évora e por proposta da Associação de Classes de Construção Civil e Artes Auxiliares é determinado que a Praça de D. Manuel, (Largo de S. Francisco), assim designada desde 1879, passe a chamar-se Praça 1º. de Maio. A 28 de Maio realizam-se eleições para a Assembleia Nacional Constituinte. Júlio do Patrocínio Martins e Inocêncio Camacho Rodrigues são eleitos por Évora.


1912
Nos primeiros dias do ano está confirmada, também em Évora, a cisão no Partido Republicano Português. Este fica bastante desfalcado, pois muitos dos seus membros aderem ao Partido Republicano Evolucionista e um pequeno número ao Partido Unionista. A 6 de Janeiro rebenta a greve geral dos trabalhadores rurais, que se estenderá por cerca de duas semanas e alargará por solidariedade aos sindicatos de Lisboa e sul do Tejo. A 3 de Abril D. Augusto Eduardo Nunes, Arcebispo de Évora, é exilado por dois anos para fora da diocese, por críticas continuadas à Lei da Separação da Igreja e do Estado. A 8 de Julho começa a ser desmantelada uma ramificação local afecta a uma incursão monárquica intentada na zona norte por Paiva Couceiro. A 25 e 26 de Agosto tem lugar em Évora o I Congresso dos Trabalhadores Rurais


1913
A 9 de Setembro morre no Sanatório da Covilhã Evaristo Cutileiro, a figura maior de republicanismo em Évora. O corpo é trazido para Évora, tendo-se incorporado no seu funeral mais de cinco mil pessoas. De 19 a 23 de Outubro reúne em Évora o I Congresso da Classe Corticeira A 7 de Dezembro realizam-se eleições para a Junta Central e para a Câmara Municipal. Contra todas as expectativas o Partido Republicano Português, agora dito Democrático, vence o Partido Republicano Evolucionista, entrando este a partir daí em acentuado declínio.


1914
A 7 de Julho o desconhecido António Maria da Costa Moura Augusto passa a presidir à Comissão Municipal Republicana. A 17 de Setembro é criada a Escola Industrial da Casa Pia de Évora. A 21 de Setembro populares assaltam e incendeiam as instalações do “Notícias d’Évora” por suspeitas de colaboracionismo nas tentativas monárquicas de derrube do regime.


1915
A 24 de Agosto reúne pela primeira vez a comissão organizadora de “A Pátria – Companhia Alentejana de Seguros”.

Texto: José Frota

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